Relatório de ONG aponta falhas graves no escoamento de petróleo da Venezuela, com navios fora da legalidade, rotas ocultas e irregularidades que desafiam sanções e o controle do comércio global de energia
Um relatório da ONG Transparencia Venezuela trouxe à tona um quadro preocupante sobre o escoamento de petróleo no país sul-americano. Segundo a entidade, cerca de quatro em cada dez petroleiros que operam na Venezuela atuam fora da legalidade, revelando um padrão persistente de irregularidades envolvendo navios, sanções internacionais e falhas de fiscalização.
Conforme matéria publicada pela Gazeta do Povo nesta quinta-feira (25), o levantamento analisou 98 embarcações que atuaram no transporte de petróleo venezuelano ao longo do mês e apontou que 41% do tráfego marítimo monitorado envolve navios sancionados, furtivos ou ligados a frotas obscuras. O relatório indica que, mesmo com a redução do número total de petroleiros, a opacidade das operações aumentou, consolidando o papel de uma chamada “frota fantasma” no comércio de energia do país.
Monitoramento da ONG revela irregularidades no petróleo venezuelano
A análise conduzida pela ONG teve como foco os principais portos de hidrocarbonetos da Venezuela. Dos 98 navios monitorados, 64 pertenciam a armadores internacionais, enquanto 17 integravam a frota da estatal petrolífera Pdvsa. Outros 17 navios operaram com o sistema de rastreamento AIS desligado, prática amplamente utilizada para ocultar rotas, cargas e destinos finais.
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Segundo a Transparencia Venezuela, o desligamento do AIS não ocorreu de forma isolada. Pelo contrário, trata-se de um comportamento recorrente, adotado para burlar mecanismos de controle internacional e dificultar o acompanhamento do fluxo do petróleo exportado.
Navios e sanções internacionais moldam o cenário na Venezuela
O relatório associa diretamente o avanço da frota fantasma ao endurecimento das sanções internacionais contra o governo de Nicolás Maduro. De acordo com a ONG, o aumento das tensões diplomáticas com os Estados Unidos reduziu a presença de operadores tradicionais, abrindo espaço para embarcações dispostas a operar à margem das regras.
Além disso, a intensificação de operações militares no Caribe pode ter contribuído para afastar parte da frota regular da costa venezuelana. Nesse contexto, os navios que permanecem ativos adotam estratégias cada vez mais sofisticadas para ocultar informações, como mudanças frequentes de bandeira, desligamento de sistemas de rastreio e ausência de documentação clara.
Petróleo da Venezuela circula com baixo nível de transparência
Um dos dados mais alarmantes do relatório diz respeito à falta de informações sobre o destino das cargas. Segundo a ONG, apenas um terço dos petroleiros monitorados apresentou manifesto de destino, o que amplia significativamente as dúvidas sobre para onde vai a maior parte do petróleo venezuelano exportado.
Essa lacuna informacional dificulta o trabalho de autoridades internacionais, empresas de monitoramento marítimo e governos que tentam aplicar sanções de forma eficaz. Sem dados confiáveis, o comércio de petróleo passa a operar em uma “zona cinzenta”, onde a legalidade é difícil de comprovar.
Chevron amplia presença enquanto frota regular recua
Apesar da retração geral no número de navios operando na Venezuela, um movimento específico chamou a atenção da ONG. Petroleiros comissionados pela Chevron aumentaram sua presença no país ao longo de novembro de 2025.
Segundo dados de rastreamento analisados no relatório, oito navios ligados à empresa chegaram à Venezuela no mês, frente a apenas três em outubro. Todas as embarcações seguiram para portos dos Estados Unidos, como Corpus Christi e Beaumont, no Texas, além de Good Hope, na Louisiana, transportando petróleo venezuelano.
Esse contraste reforça a complexidade do cenário: enquanto parte do comércio ocorre dentro de exceções autorizadas, uma parcela significativa do escoamento permanece envolta em irregularidades.
Caso Seahorse expõe falhas no rastreamento de navios sancionados
Entre os episódios destacados pela ONG, o caso do petroleiro Seahorse evidencia as limitações do sistema internacional de fiscalização. A embarcação é sancionada pela União Europeia e pelo Reino Unido por transportar petróleo russo durante a guerra na Ucrânia.
Segundo o relatório, o navio deixou Matanzas, em Cuba, em 13 de novembro, e tentou se aproximar da costa venezuelana. No entanto, não atracou no terminal José nem em outro porto oriental, e seu destino final não pôde ser confirmado. O episódio ilustra como navios já sancionados conseguem operar com alto grau de invisibilidade, desafiando os mecanismos atuais de controle.
Opacidade cresce mesmo com queda no número de navios de petróleo
A Transparencia Venezuela destaca que, de outubro para novembro, houve redução no número total de embarcações, mas um aumento expressivo na opacidade das operações. Para a ONG, isso indica uma mudança estrutural no perfil do escoamento de petróleo.
Em vez de grandes volumes transportados por operadores regulares, o país passa a depender cada vez mais de navios que adotam práticas furtivas, ampliando riscos ambientais, legais e reputacionais.
Impactos das irregularidades no comércio global de energia
As irregularidades identificadas não afetam apenas a Venezuela. A expansão de uma frota clandestina pode impactar diretamente o comércio global de energia, distorcendo mercados, elevando riscos de acidentes marítimos e enfraquecendo a eficácia das sanções internacionais.
Além disso, a dificuldade de rastrear cargas compromete a credibilidade dos acordos multilaterais e das políticas de contenção adotadas por diferentes países.
O que os dados revelam sobre o futuro do escoamento de petróleo
Ao final do relatório, a ONG faz um alerta direto: a consolidação da frota fantasma representa um risco crescente e estrutural. A entidade defende maior cooperação internacional, fortalecimento do monitoramento marítimo e mais transparência nas operações portuárias.
Os dados de novembro de 2025 indicam que a redução do volume não significou maior controle, mas sim uma adaptação das “práticas ilegais” às novas restrições. Ignorar esse movimento é aceitar que uma parcela relevante do comércio de petróleo continue operando nas sombras, com consequências que ultrapassam a Venezuela e atingem todo o sistema energético global.
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