Estudo publicado em 2025 documenta um evento de mortalidade em massa que reduziu em até 99,7% as populações do ouriço-do-mar Diadema africanum nas Ilhas Canárias entre 2022 e 2023, com impactos registrados também em outros oceanos e sinais de colapso reprodutivo local
Os ouriços-do-mar do gênero Diadema estão morrendo em escala global, e um estudo publicado em 17 de outubro de 2025 detalha uma mortalidade em massa que atingiu as Ilhas Canárias e a Madeira entre 2022 e 2023, reduzindo drasticamente populações-chave e levantando incertezas sobre impactos ecológicos e recuperação.
Papel ecológico dos ouriços-do-mar nos ecossistemas marinhos
Ouriços-do-mar ajudam a construir e manter habitats marinhos de forma semelhante à atuação de grandes herbívoros terrestres sobre paisagens continentais. Ao pastarem algas e fanerógamas marinhas, limitam o crescimento excessivo desses organismos e favorecem a persistência de espécies de crescimento mais lento, incluindo corais e algas calcificantes.
Diversos animais dependem dos ouriços como fonte de alimento, entre eles mamíferos marinhos, peixes, crustáceos e estrelas-do-mar. Esse papel os coloca como elementos centrais na dinâmica trófica de recifes e fundos rochosos.
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Quando suas populações aumentam excessivamente, como ocorre após a redução de predadores por sobrepesca, os ouriços podem degradar recifes e fundos marinhos, criando áreas conhecidas como “urchin barrens”, com perda de complexidade ecológica.
Evento de mortalidade em massa nas Ilhas Canárias e Madeira
Um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science relata uma onda global de mortes de ouriços-do-mar observada nos últimos quatro anos, que alcançou as Ilhas Canárias. Segundo os autores, embora os impactos ecológicos totais ainda não sejam conhecidos, os efeitos tendem a ser significativos.
O trabalho documenta a disseminação e os impactos de um evento de mortalidade em massa que atingiu severamente populações de Diadema africanum nas Ilhas Canárias e na Madeira ao longo de 2022 e 2023.
Espécies do gênero Diadema também foram observadas morrendo em outras regiões aproximadamente no mesmo período, incluindo Caribe, Mediterrâneo, Mar Vermelho, Mar de Omã e o oceano Índico ocidental.
Distribuição e histórico populacional do Diadema africanum
O gênero Diadema reúne oito espécies distribuídas em mares tropicais e subtropicais quentes ao redor do mundo. A espécie D. africanum historicamente prosperou em recifes rochosos ao largo da África Ocidental e dos Açores, entre profundidades de cinco e 20 metros.
Nas Ilhas Canárias, a população da espécie vem crescendo desde meados da década de 1960. Pesquisadores associam esse aumento à redução de predadores causada pela sobrepesca e ao aquecimento global.
Em partes do arquipélago, densidades elevadas contribuíram para a formação de “urchin barrens”, levando a tentativas de controle biológico entre 2005 e 2019, que acabaram fracassando.
Início e progressão do surto registrado em 2022
Em fevereiro de 2022, pesquisadores observaram pela primeira vez mortes generalizadas de D. africanum próximas às ilhas de La Palma e Gomera, no oeste das Canárias. Nos meses seguintes, o surto avançou em direção ao leste do arquipélago.
Os ouriços afetados tornaram-se menos ativos, apresentaram movimentos incomuns, deixaram de responder a estímulos e, em seguida, perderam tecido e espinhos antes de morrer.
Esses sintomas já haviam sido observados em eventos anteriores. Em 2008 e novamente em 2018, doenças causaram a morte estimada de 93% dos indivíduos de D. africanum em Tenerife e La Palma, além de 90% das populações na Madeira.
Diferenças entre o evento de 2022 e surtos anteriores
O surto iniciado em 2022 apresentou características distintas dos episódios anteriores. Após o evento de 2008, muitas populações haviam se recuperado, em alguns casos de forma rápida. Esse padrão, no entanto, não se repetiu.
Em vez disso, uma segunda onda de mortalidade em massa atingiu as Ilhas Canárias ao longo de 2023, ampliando a redução populacional e dificultando sinais de recuperação natural.
Metodologia de monitoramento e levantamento de dados
Para avaliar o impacto do declínio, os pesquisadores monitoraram populações de D. africanum em 76 locais distribuídos pelas sete principais ilhas do arquipélago, entre o verão de 2022 e o verão de 2025, comparando os resultados com dados históricos.
Também foram coletados relatos de mergulhadores profissionais sobre a abundância relativa da espécie em seus pontos habituais em 2023 e no período entre 2018 e 2021.
Além disso, armadilhas foram usadas para coletar larvas dispersantes em quatro pontos da costa leste de Tenerife, em setembro de 2023, pico anual da desova. Em janeiro de 2024, os cientistas quantificaram juvenis recém-assentados nesses mesmos locais.
Queda populacional e risco de extinção local
As análises indicaram que a abundância atual de D. africanum nas Ilhas Canárias atingiu o nível mais baixo já registrado. Várias populações se aproximam da extinção local.
Desde 2021, houve uma redução de 74% em La Palma e de 99,7% em Tenerife. O evento de mortalidade de 2022-2023 afetou toda a população da espécie no arquipélago.
Interrupção da reprodução e consequências imediatas
Os autores concluíram que, após o evento de 2022-2023, a reprodução efetiva de D. africanum praticamente cessou na costa leste de Tenerife. Apenas números desprezíveis de larvas foram capturados, e nenhum juvenil inicial foi observado nos habitats rochosos rasos analisados.
Esse cenário indica um comprometimento severo da capacidade de reposição natural da espécie, agravando o declínio observado e dificultando a recuperação populacional no curto prazo, um quadro que preocupa cientstas locais.
Possíveis causas e incertezas sobre o agente patogênico
Relatos de outras regiões sugerem que o evento registrado nas Ilhas Canárias integra uma pandemia marinha mais ampla, com consequências relevantes para esses herbívoros essenciais dos recifes.
Ainda não há confirmação sobre qual patógeno está causando as mortes. Em outras regiões do mundo, eventos semelhantes envolvendo Diadema foram associados a ciliados escuticociliados do gênero Philaster, organismos parasitas unicelulares.
Em surtos anteriores nas Ilhas Canárias, a mortalidade foi associada a amebas como Neoparamoeba branchiphila e ocorreu após episódios de fortes ondulações do sul e atividade de ondas incomum, condições também observadas em 2022.
Sem identificação confirmada do agente, não é possível determinar se a doença chegou do Caribe por correntes ou transporte marítimo, ou se mudanças climáticas tiveram papel direto no processo.
Perspectivas futuras e alcance global do fenômeno
Os pesquisadores afirmam que ainda não está claro como essa pandemia irá evoluir. Até o momento, populações de Diadema no Sudeste Asiático e na Austrália aparentemente não foram afetadas.
Apesar disso, não se pode descartar a possibilidade de reaparecimento da doença e de sua expansão para outras regiões, mantendo a mortalidade dos ouriços-do-mar como uma questão em aberto para a ciência marinha global.

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