A Suécia abriga hidrelétricas subterrâneas de 390 MW escavadas no granito ártico, com cavernas gigantes, túneis pressurizados e operação invisível à superfície.
A existência dessas usinas subterrâneas aparece em relatórios históricos da Vattenfall AB (empresa estatal sueca), na literatura técnica de geologia e energia hidráulica utilizada no país, e em documentação de engenharia acessível por universidades e centros de pesquisa.
Fontes como Vattenfall, Hydropower Sustainability Council, GHD Report Series on Nordic Hydropower, além de repositórios acadêmicos ligados a KTH Royal Institute of Technology e Luleå University of Technology, descrevem as características de cavernas, potência e datas de entrada em operação, especialmente para as usinas de Vietas e Akkats, localizadas no município de Jokkmokk, no norte da Suécia.
Essas informações não são rumores, não são experimentos e não são maquetes: fazem parte da infraestrutura operacional que alimenta a matriz elétrica sueca desde a década de 1970.
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Por que construir hidrelétricas dentro de montanhas no Ártico
O norte da Suécia combina três características que favoreceram essa escolha:
Geologia extremamente antiga e estável, composta por granito e gnaisse formados há mais de 1,7 bilhão de anos. Essas rochas permitem escavar grandes cavernas sem pilares intermediários.
Abundância de rios com quedas elevadas, gerados por desníveis acentuados entre planaltos e vales glaciares.
Clima subártico, que congelaria estruturas expostas, turbinas e sistemas hidráulicos se estivessem ao ar livre.
Ao colocar tudo subterrâneo, a Suécia obtém três vantagens simultâneas:
- proteção contra temperaturas negativas (que podem cair abaixo de –35 °C no inverno);
- redução do impacto visual e ambiental na superfície;
- segurança energética e industrial longe de áreas urbanas.
O resultado é um tipo de hidrelétrica que as pessoas não veem — mas que mantém indústrias e cidades funcionando.
O caso de Vietas, a caverna de 130 metros escavada no granito
A usina subterrânea de Vietas é a peça mais impressionante desse sistema. Localizada dentro do Stora Sjöfallet System, ela entrou em operação em 1971, após um período de obras que começou no final da década de 1960, quando a Suécia intensificava seu programa hidroelétrico para abastecer siderúrgicas, mineração e indústrias eletrointensivas do norte.
Dentro da montanha, os engenheiros escavaram uma caverna artificial com cerca de 130 metros de comprimento, 24 metros de largura e 46 metros de altura, equivalente a um prédio de cerca de 15 andares enterrado sob o granito. A rocha foi removida por força mecânica, explosivos controlados e sistemas de ventilação industrial.
Após a escavação, a caverna virou uma casa de força subterrânea com turbinas, geradores, transformadores e sistemas de controle. A potência instalada totaliza aproximadamente 240 MW, usando a energia da queda d’água de cerca de 180 metros. Para comparação, 240 MW seriam suficientes para alimentar centenas de milhares de residências.
A água chega até as turbinas por meio de túneis pressurizados, muitas vezes chamados de headrace tunnels, esculpidos no granito com quilômetros de extensão. Depois de passar pelas turbinas, a água é escoada por um túnel de restituição que a devolve ao rio, fechando o circuito.
Akkats, a extensão subterrânea que completa o sistema
Além de Vietas, a região possui outra usina subterrânea relevante: Akkats, inaugurada em 1997, a poucos quilômetros ao sul, também em Jokkmokk. Akkats possui 150 MW de potência instalada, divididos em duas turbinas Kaplan de 75 MW cada. Ela complementa o sistema de energia subártico que entrega eletricidade constante para a Suécia e exportações para a Noruega.
Somadas, Vietas (240 MW) + Akkats (150 MW) resultam em aproximadamente 390 MW de geração hidrelétrica instalada dentro de montanhas no Círculo Polar Ártico.
Esses números são suficientes para alimentar com folga uma cidade de meio milhão de habitantes, como Gotemburgo, ou suprir indústrias pesadas de mineração e aço — setores historicamente consumidos no norte da Suécia.
Como se constrói uma hidrelétrica dentro de uma montanha
A engenharia envolvida é impressionante e segue um roteiro técnico que inclui:
- sondagens geológicas profundas para mapear fraturas e veios de água;
- escavação por detonações controladas (drill and blast), típico em rochas graníticas;
- ventilação forçada para remover pó e gases explosivos;
- impermeabilização e drenagem interna, já que a água percola pelas fissuras do granito;
- instalação das turbinas e geradores, geralmente de eixo vertical;
- construção de túneis hidráulicos quilômetros adentro da montanha;
- escavação de câmaras para transformadores e subestações;
- ligação à rede por linhas de transmissão aéreas ou subterrâneas.

O granito é um aliado importante: por sua alta resistência e baixa deformabilidade, permite grandes vãos livres dentro da rocha sem suportes metálicos massivos.
Geopolítica e energia no alto norte
Embora a construção dessas usinas tenha ocorrido entre as décadas de 1960 e 1990, seus efeitos são profundamente atuais. O norte da Suécia é um dos pólos industriais mais estratégicos da Europa, especialmente por causa de três setores:
- Aço verde (baseado em hidrogênio e eletricidade)
- Mineração de ferro, grafite e terras raras
- Gigafábricas de baterias para carros elétricos (Northvolt)
Sem energia estável, a transição energética europeia seria impossível. Por isso, as usinas subterrâneas do Círculo Polar Ártico não são apenas curiosidades de engenharia — elas são infraestrutura geoestratégica.
Hoje, boa parte da eletricidade exportada da Suécia para Noruega, Finlândia e Dinamarca passa por sistemas que incluem geração subterrânea no norte.
O fator climático: o inverno decide o design
Temperaturas de inverno podem cair a –35 °C em Jokkmokk. Equipamentos elétricos expostos congelariam, turbinas sofreriam com gelo e túneis de adução poderiam ser obstruídos. Enterrar tudo resolve o problema com elegância e eficiência.
No interior da montanha, a temperatura é estável, normalmente entre +6 °C e +10 °C, independentemente do inverno. Isso evita congelamento e reduz a necessidade de salas aquecidas, algo inimaginável em hidrelétricas de superfície em regiões subárticas.
Segurança e invisibilidade como vantagem estratégica
A invisibilidade desse tipo de usina gera um debate curioso: instalações subterrâneas de energia são menos vulneráveis a ataques convencionais e eventos climáticos extremos.

Isso nunca foi o objetivo declarado dos suecos, mas é um efeito colateral que chama atenção de quem estuda infraestrutura crítica. Para um país que fica acima do paralelo 66ºN, sofisticação energética e robustez são sinônimos de soberania.
Por que quase ninguém fala sobre isso
O tema é pouco divulgado por três motivos:
- Não é uma obra recente, então não aparece em notícias de “inauguração”.
- Fica em área remota, sem turismo de massa e sem grandes cidades ao redor.
- É subterrânea, logo não tem uma “fachada monumental” para fotos.
Além disso, a narrativa global sobre energia muitas vezes se concentra em solares, eólicas e baterias, deixando a hidrelétrica subterrânea num espaço técnico e pouco midiático — embora cumpra um papel gigantesco no sistema elétrico europeu.
Comparação com outros países
Hidrelétricas subterrâneas também existem em:
- Noruega (Varghaug, Tonstad, Kvilldal)
- Suíça (Nant de Drance)
- Canadá (Churchill Falls)
- Áustria (Kaprun)
Mas poucas ficam tão ao norte e com tanto frio, granito duro e distâncias logísticas quanto as da Suécia.
Se um leitor comparar fotos aéreas entre Vietas e qualquer hidrelétrica norueguesa, notará algo curioso: em Vietas praticamente não existe “usina” na superfície, só galerias e estruturas discretas.
Por que isso é fascinante mesmo para leigos
Porque muda completamente a imagem que as pessoas têm de energia hidrelétrica. Em vez de uma usina com barragem, turbina visível, vertedouro e eclusa, temos:
- um lago
- um reservatório
- um sistema de túneis dentro da montanha
- uma caverna que parece uma catedral industrial
- uma linha de transmissão discreta
E o mais interessante: ninguém sente o impacto visual.
No fim do dia, a ideia de que existe uma “cidade elétrica” escondida dentro do Ártico, com máquinas convertendo água em energia 24 horas por dia, é a perfeita combinação de engenharia, geologia e geopolítica.

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