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Para salvar a Isla Guadalupe (México), cientistas erradicaram cabras ferais com “caça Judas” aérea e viram plantas ‘extintas’ ressurgirem — mas agora enfrentam gramíneas invasoras, erosão severa e ameaça de novos colapsos ecológicos

Escrito por Alisson Ficher
Publicado el 10/01/2026 a las 13:38
Erradicação de cabras ferais na Isla Guadalupe permitiu recuperação de plantas nativas e reflorestamento, mas revelou erosão extrema e novas invasões.
Erradicação de cabras ferais na Isla Guadalupe permitiu recuperação de plantas nativas e reflorestamento, mas revelou erosão extrema e novas invasões.
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Operação em ilha remota do México removeu cabras ferais com técnicas de rastreamento e caça aérea, destravou recuperação de plantas nativas e reflorestamento em larga escala, mas expôs desafios persistentes como erosão extrema, gramíneas invasoras e risco de incêndios.

Uma operação de erradicação de cabras ferais na Isla Guadalupe, no Pacífico mexicano, eliminou uma população que chegou a superar 10 mil indivíduos e que, por mais de um século, foi associada ao colapso de florestas endêmicas e à degradação do solo.

O esforço, conduzido ao longo dos anos 2000, combinou caça terrestre e aérea, armadilhas, telemetria e o uso das chamadas “cabras Judas” — animais esterilizados, equipados com radiocolar, soltos para localizar os últimos remanescentes.

O resultado mais visível foi a retomada do recrutamento de árvores e arbustos nativos e a retomada de um programa de restauração ativa que, até junho de 2018, registrou quase 40 mil árvores plantadas e a meta de produção de 160 mil mudas em viveiro.

Ao mesmo tempo, os próprios documentos técnicos descrevem que o cenário pós-erradicação não eliminou os desafios: erosão considerada extrema em áreas de altitude e a presença de gramíneas europeias introduzidas, que passaram a dominar trechos do terreno já muito alterado.

Reserva da Biosfera e endemismo na Baja California

A Isla Guadalupe fica a cerca de 260 quilômetros da península da Baja California e é descrita em publicações científicas como uma ilha oceânica remota, com microclimas influenciados por neblina e relevo acidentado.

Em 2005, o governo mexicano decretou a área como Reserva da Biosfera, sob gestão da Comissão Nacional de Áreas Naturais Protegidas (CONANP).

A relevância ecológica é frequentemente associada ao alto grau de endemismo e à presença de formações vegetais raras, como florestas de cipreste, pinhais e áreas de carvalho insular, além de palmeiras endêmicas.

Como as cabras chegaram e por que viraram crise ecológica

A introdução das cabras é atribuída a navegadores e caçadores de mamíferos marinhos no século XIX, em uma lógica comum em ilhas remotas: deixar animais como “reserva” de alimento.

Só que, em um ambiente que evoluiu sem grandes herbívoros com casco, a pressão de pastejo e pisoteio alterou a vegetação, compactou o solo e acelerou processos erosivos.

Um programa de manejo da Reserva da Biosfera Isla Guadalupe, publicado pela CONANP, registra que a população de cabras chegou a superar 10 mil indivíduos e relaciona a presença do animal à redução e fragmentação do bosque endêmico, além de extinções e extirpações de plantas.

No mesmo documento, a erradicação aparece datada de 2004 a 2007, com fase de confirmação baseada no uso de “cabras Judas” com radiocolar.

Métodos usados: caça aérea, armadilhas, telemetria e “cabras Judas”

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A dimensão da transformação aparece também em relatórios técnicos sobre invasoras em ilhas do México.

Um diagnóstico nacional descreve que, antes da erradicação, houve perda de quase 4 mil hectares de bosque endêmico ao longo do tempo, com o registro de que, em 2004, restariam cerca de 85 hectares de formações florestais endêmicas.

Esse diagnóstico também detalha a logística e os métodos usados na erradicação de cabras na ilha, citando armadilhas, caça terrestre, caça aérea e o emprego de radiocolares.

O texto aponta ainda que pouco mais de 10 mil cabras foram eliminadas na campanha, com parte dos animais capturada e transportada ao continente e outra parte abatida em diferentes frentes, incluindo o componente aéreo, descrito como o mais efetivo naquele esforço.

A ideia das “cabras Judas” aparece como uma resposta direta a um problema comum em erradicações: os últimos indivíduos tendem a se dispersar, se esconder e evitar contato humano.

Como cabras são animais gregários, um indivíduo solto tende a buscar outros, e o radiocolar permite que equipes localizem pequenos grupos que escaparam das etapas anteriores.

Em programas de manejo, essa fase costuma ser descrita como crítica porque uma janela curta de reprodução pode reverter anos de operação.

Plantas “extintas” reaparecem e reflorestamento ganha escala

Erradicação de cabras ferais na Isla Guadalupe permitiu recuperação de plantas nativas e reflorestamento, mas revelou erosão extrema e novas invasões.
Erradicação de cabras ferais na Isla Guadalupe permitiu recuperação de plantas nativas e reflorestamento, mas revelou erosão extrema e novas invasões.

A retirada das cabras, no entanto, não foi tratada como ponto final.

Artigos e relatórios ligados à restauração na ilha descrevem que, depois da erradicação concluída em 2007, a vegetação nativa passou a se recuperar de forma natural, mas que o estado do solo e a condição de alguns remanescentes vegetais exigiam ações ativas.

No texto “Ten years after feral goat eradication: the active restoration of plant communities on Guadalupe Island, Mexico”, publicado em um volume da IUCN sobre invasoras em ilhas, pesquisadores registram o retorno do recrutamento de plantas, a redescoberta de espécies consideradas extintas ou extirpadas e a ocorrência de novos registros botânicos para a ilha.

Na mesma publicação, a restauração ativa é descrita como um projeto de 700 hectares, com viveiro local e plantio de mudas, além de medidas para controle de erosão e prevenção de incêndios.

Os números do projeto ajudam a dimensionar o trabalho de reconstrução.

Até junho de 2018, o artigo registra quase 40 mil árvores plantadas e a previsão de produzir 160 mil mudas naquele ano, com foco em espécies nativas e endêmicas.

O texto descreve também intervenções físicas de conservação do solo, como a instalação de mais de 2.400 metros de barreiras em contorno e a construção de estruturas de contenção, além da reabilitação de aceiros e ações de manejo de combustível para reduzir risco de fogo.

Erosão extrema e gramíneas invasoras no pós-erradicação

A erosão aparece como uma das dificuldades mais persistentes, e não como um detalhe marginal.

No mesmo artigo, é citado um estudo que estimou perdas mínimas de 44 toneladas por hectare por ano e máximas de 142 toneladas por hectare por ano em áreas de floresta de cipreste, com a observação de que o problema é visível em outras partes da ilha, principalmente em altitudes maiores.

Em termos práticos, isso significa que, mesmo com a pressão de pastoreio removida, parte do terreno pode ter perdido camadas superficiais essenciais para o retorno de comunidades vegetais mais complexas.

Outra camada do dilema envolve as plantas introduzidas.

A publicação da IUCN registra que, desde 1875, ao menos 69 espécies de plantas foram introduzidas na ilha, muitas delas gramíneas e herbáceas de origem europeia.

O texto descreve que a combinação entre a modificação intensa causada pelas cabras e a chegada de plantas invasoras resultou em grandes áreas de solo exposto e em trechos dominados por gramíneas europeias, citando exemplos como o “slender wild oat” (Avena barbata) e o “red brome” (Bromus rubens).

Em outras palavras, a saída das cabras abriu espaço para a recuperação, mas a paisagem de partida não era “o passado intacto”: parte do terreno já estava reorganizada sob um novo conjunto de competidores vegetais.

Gatos, camundongos e o risco de incêndio na ilha

A complexidade aumenta porque a ilha não lidou apenas com cabras.

Documentos técnicos sobre a Reserva e sobre o histórico de invasoras apontam a presença de outros mamíferos introduzidos, incluindo gatos ferais e camundongos, com impactos sobre aves e sobre o sucesso de restauração.

No artigo da IUCN, o próprio viveiro é descrito como cercado por uma barreira à prova de camundongos, com a justificativa de que roedores podem causar perdas significativas de sementes e plântulas nas fases iniciais.

Essa necessidade de “blindagem” mostra que a restauração, além de plantar e proteger o solo, precisa administrar interações com espécies introduzidas que seguem presentes.

Mesmo o risco de incêndio é tratado como um problema real em um ambiente em transição.

O artigo aponta que, após um incêndio em 2008 na floresta de cipreste, a quantidade de combustível acumulado foi considerada alarmante, com valores médios reportados e máximos localizados.

Nesse contexto, o manejo do fogo passa a ser parte do pacote de recuperação: nem a erradicação, nem o plantio, nem o controle de erosão funcionam isoladamente quando a estrutura do ecossistema foi alterada por décadas.

A história de Guadalupe, portanto, foge do roteiro do “problema resolvido”.

A retirada de um herbívoro invasor permitiu que árvores e arbustos voltassem a recrutar, que espécies antes consideradas perdidas fossem registradas novamente e que projetos de reforestamento ganhassem escala com produção de mudas e plantio em centenas de hectares.

Ao mesmo tempo, a literatura técnica descreve que a erosão extrema, as gramíneas invasoras e a necessidade de prevenção de incêndios e controle de outros invasores transformam a recuperação em uma operação prolongada, com custos, logística e monitoramento permanente em uma ilha distante do continente.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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