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Paradoxo: energias renováveis avançam no Brasil, mas desperdício recorde expõe falhas estruturais

Escrito por Rannyson Moura
Publicado el 28/12/2025 a las 15:42
Brasil desperdiçou mais de 20% da energia de fontes renováveis em 2025, gerando perdas bilionárias e revelando desafios estruturais na operação do sistema elétrico.
Brasil desperdiçou mais de 20% da energia de fontes renováveis em 2025, gerando perdas bilionárias e revelando desafios estruturais na operação do sistema elétrico.
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Brasil desperdiçou mais de 20% da energia de fontes renováveis em 2025, gerando perdas bilionárias e revelando desafios estruturais na operação do sistema elétrico.

O ano de 2025 consolidou o Brasil como uma das maiores potências globais em energias renováveis. Ao mesmo tempo, revelou uma contradição crescente no setor elétrico nacional. Mesmo com forte expansão da geração solar e eólica, uma parcela significativa dessa energia limpa não foi aproveitada.

Dados do relatório Curtailment 2025: retrospectiva e projeção, elaborado pela Volt Robotics, mostram que 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível no país deixou de ser escoada ao longo do ano. O desperdício, concentrado entre janeiro e dezembro, resultou em perdas econômicas estimadas em mais de R$ 6 bilhões.

O fenômeno, conhecido como curtailment, ocorre quando o operador do sistema precisa reduzir a geração disponível por limitações técnicas ou operacionais.

Em 2025, esse mecanismo atingiu níveis inéditos, acendendo alertas sobre a sustentabilidade do atual modelo de expansão das energias renováveis no Brasil.

Sobrecarga do sistema elétrico revela descompasso entre geração e consumo

O avanço acelerado das fontes renováveis ocorreu em ritmo superior ao da adaptação do sistema elétrico. A geração solar, em especial, cresceu de forma intensa nos últimos anos, impulsionada tanto por grandes usinas quanto pela micro e minigeração distribuída conectada às redes de distribuição.

Entretanto, os investimentos em transmissão e planejamento não acompanharam essa expansão. Como resultado, o sistema passou a enfrentar dificuldades para absorver toda a energia gerada, especialmente nos horários de pico da produção solar.

Para Donato da Silva Filho, diretor-geral da Volt Robotics, o volume desperdiçado não pode ser tratado como secundário. «Estamos falando de energia limpa que poderia abastecer casas, indústrias e hospitais, mas que simplesmente foi jogada fora», afirma.

Manhãs concentram maior volume de cortes de geração

Segundo o estudo, os cortes se concentraram majoritariamente nas primeiras horas do dia. Entre 10h e 11h, período em que a geração solar atinge seu pico, o sistema frequentemente não encontra carga suficiente para absorver toda a energia disponível.

«Os cortes ocorrem, principalmente, pela manhã porque há um excesso de geração, sobretudo da solar, entre 10h e 11h. Nesse momento, ou não existe carga suficiente para absorver toda essa energia ou o sistema de transmissão não consegue escoá-la», explica Donato.

O levantamento aponta que o curtailment em 2025 se dividiu praticamente em duas causas principais. Metade ocorreu por sobreoferta de energia, quando o consumo não acompanha a geração. A outra metade decorreu de limitações da infraestrutura de transmissão.

Geração distribuída acelera problema estrutural

A expansão da geração distribuída teve papel central nesse cenário. Painéis solares instalados em residências, comércios e pequenas indústrias cresceram de forma acelerada, impulsionados por regras de compensação atrativas e incentivos regulatórios.

Entretanto, essa modalidade praticamente não responde a sinais de preço ou localização. A energia é injetada na rede independentemente da capacidade do sistema de absorvê-la naquele momento.

Para o professor Ivan Camargo, da Universidade de Brasília (UnB), o aumento do curtailment reflete um problema estrutural associado à transição energética. «Isso está acontecendo no mundo inteiro. É um problema estrutural», destaca.

Capacidade instalada supera carga do sistema ao meio-dia

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicam que o Brasil conta atualmente com cerca de 60 gigawatts de capacidade solar instalada e 33 gigawatts de energia eólica. Esse volume supera a carga do sistema nos horários centrais do dia.

Segundo Camargo, ampliar linhas de transmissão, por si só, não resolve o problema. «Não há linha de transmissão que resolva esse problema. Transmitir energia exige que exista carga do outro lado, e essa carga simplesmente não existe ao meio-dia, que é justamente quando a geração solar atinge o pico», afirma.

No curto prazo, a tendência é de continuidade dos cortes. Já no longo prazo, a solução passa pela criação de novas cargas e tecnologias capazes de absorver a energia excedente, como sistemas de armazenamento.

Segundo semestre concentrou os piores momentos de 2025

O relatório da Volt Robotics aponta que o curtailment se intensificou ao longo do segundo semestre. Agosto, setembro e outubro registraram recordes consecutivos de cortes de geração renovável.

Em outubro, o volume médio de energia cortada chegou a aproximadamente 8.000 MW, patamar equivalente à geração média da Usina de Itaipu. Segundo Donato, esse foi o ápice de um ciclo de desequilíbrio que vinha se formando.

«Foi o ponto máximo de um ciclo que vinha se formando, resultado da combinação entre crescimento acelerado das renováveis, limitações da rede e falta de planejamento adequado para lidar com a sobra de energia», avalia.

Alívio no fim do ano foi apenas conjuntural

Em novembro, houve um recuo parcial dos cortes. O volume médio caiu para 4.600 MW, e o impacto financeiro recuou para cerca de R$ 700 milhões, frente aos R$ 1,1 bilhão registrados em outubro.

Até meados de dezembro, os cortes ficaram próximos de 1.700 MW médios. Apesar da melhora, o movimento não representou uma solução estrutural.

«A redução no fim do ano ocorreu, em grande parte, porque a geração eólica diminui com o fim da safra dos ventos. Não se trata de uma correção estrutural do problema», ressalta Donato.

Domingos se tornam teste de estresse do sistema elétrico

O estudo identificou um padrão recorrente nos momentos mais críticos. Os domingos pela manhã concentraram grande parte das situações de estresse do sistema, quando o consumo é menor e a disponibilidade de geração renovável permanece elevada.

«O domingo se tornou um verdadeiro teste de estresse do sistema elétrico», diz Donato. «É quando ficam mais evidentes as fragilidades da rede e da operação.»

Com base em uma métrica de segurança que exige ao menos 20% da geração potencial não cortada, a Volt Robotics identificou 16 dias críticos em 2025. Em alguns deles, mais de 80% da geração disponível foi cortada durante o fim da manhã.

Risco de apagão por excesso de energia entra no radar

Embora pareça contraditório, o excesso de energia também pode levar a apagões. Segundo o diretor-geral da Volt Robotics, o risco existe quando a geração distribuída continua injetando energia mesmo após o corte da geração centralizada.

«Existe, sim, o risco de apagão por excesso de energia. Se toda a geração renovável centralizada for cortada e, ainda assim, houver sobra, principalmente da geração distribuída, o sistema pode entrar em colapso», alerta.

O fim de ano amplia esse risco. A queda no consumo pode chegar a 8.600 MW médios, aumentando a probabilidade de desequilíbrios operacionais relevantes.

Debate sobre quem paga o desperdício ganha força

O custo do curtailment tornou-se tema central na reforma do setor elétrico, sancionada em novembro. A discussão envolve quem deve arcar com as perdas financeiras geradas pelos cortes de energia renovável.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que os vetos do governo impediram que os consumidores absorvessem um custo adicional estimado em R$ 6 bilhões.

«Seria um impacto de R$ 6 bilhões para o consumidor, por isso nós vetamos a parte energética. Mas vamos continuar discutindo uma solução que dê segurança aos investidores, com base nos padrões globais», afirmou em 25 de novembro, no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Ressarcimento aos geradores divide opiniões

O governo manteve apenas a compensação nos casos em que a energia não pode ser transmitida por falhas da infraestrutura de rede. Para Silveira, nesses casos, o ressarcimento é legítimo.

«É como alguém tentar chegar ao destino por uma estrada cheia de buracos. Quando o Estado deixou de construir, cabe ressarcir esse investidor», completou.

A discussão envolve equilíbrio entre modicidade tarifária, segurança jurídica e previsibilidade para novos investimentos em energias renováveis.

Falta de sinal econômico agrava problema, avalia FGV

Para Diogo Lisbona, pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV (FGV-CERI), o enfrentamento do curtailment passa por decisões regulatórias e políticas mais profundas.

Segundo ele, a geração distribuída opera praticamente sem sinal de preço ou localização. «Hoje, a geração distribuída praticamente não enxerga sinal de preço ou de localização. É possível instalar painéis em qualquer ponto da rede, com remuneração garantida, e o operador precisa absorver essa energia», diz.

Lisbona defende preços com maior granularidade locacional, revisão das regras de compensação e integração com sistemas de armazenamento.

Medidas emergenciais começam a ser adotadas

Diante do agravamento do problema, Aneel e ONS reconheceram formalmente o risco e aprovaram um Plano Emergencial. Entre as medidas em discussão está a aplicação automática da tarifa branca para grandes consumidores de baixa tensão.

Historicamente, a adesão voluntária à tarifa branca foi inferior a 0,1% do público elegível. Para Donato, o reconhecimento institucional representa um avanço. «Esse reconhecimento institucional é um marco. Mostra que o problema existe, é relevante e exige medidas concretas», avalia.

Entre as soluções estruturais, estão obras de transmissão que devem interligar o Nordeste ao Sul e Sudeste entre 2029 e 2030, além do estímulo ao consumo nos horários de maior oferta de energias renováveis.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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