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A França tem apenas um porta-aviões nuclear e, quando ele entra em manutenção, o país fica sem aviação naval, agora Paris decidiu construir o maior porta-aviões já projetado na Europa, com até 80.000 toneladas e três catapultas eletromagnéticas

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 11/03/2026 às 12:40
A França tem apenas um porta-aviões nuclear e, quando ele entra em manutenção, o país fica sem aviação naval, agora Paris decidiu construir o maior porta-aviões já projetado na Europa, com até 80.000 toneladas e três catapultas eletromagnéticas
A França tem apenas um porta-aviões nuclear e, quando ele entra em manutenção, o país fica sem aviação naval, agora Paris decidiu construir o maior porta-aviões já projetado na Europa, com até 80.000 toneladas e três catapultas eletromagnéticas
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O PA-NG vai substituir o Charles de Gaulle em 2038 com 310 metros de comprimento, dois reatores nucleares K22 e capacidade para 40 aeronaves e drones e a construção já começou.

O único porta-aviões nuclear fora dos EUA enfrenta um problema estrutural: Desde 2001, a França opera o Charles de Gaulle, o único porta-aviões de propulsão nuclear do mundo construído fora dos Estados Unidos. Com 42.500 toneladas de deslocamento, 261 metros de comprimento e dois reatores nucleares K15, o navio tornou-se o centro do grupo aeronaval francês e um dos instrumentos mais visíveis do poder militar do país.

O problema estrutural é que ele é o único porta-aviões da França. Sempre que o Charles de Gaulle entra em doca para manutenção — algo inevitável em navios de propulsão nuclear — o país fica sem qualquer porta-aviões operacional. Não existe substituto temporário, nem outra base aérea flutuante capaz de assumir essa função. Isso significa que, durante esses períodos, a França perde temporariamente uma das capacidades estratégicas mais importantes da guerra naval moderna: a possibilidade de projetar poder aéreo a partir do mar.

As janelas de manutenção que deixam a França sem porta-aviões

As interrupções operacionais do Charles de Gaulle não são raras. A primeira grande revisão do navio começou em setembro de 2007 e durou mais de um ano. Durante esse período, foram realizados trabalhos complexos como a recarga dos reatores nucleares e a substituição das hélices.

Em 2017, o porta-aviões entrou novamente em doca para uma reforma de meio de vida que durou cerca de 18 meses, sendo concluída apenas em setembro de 2018. Mais recentemente, em 2023, o navio passou por outra manutenção intermediária.

Durante cada uma dessas janelas, a França deixa de ser uma potência com projeção aérea naval plena. O país continua operando submarinos nucleares, fragatas modernas e caças baseados em terra, mas perde a capacidade de lançar aeronaves de combate no meio do oceano sem depender de bases estrangeiras ou autorização de aliados.

Esse modelo de navio único já gerou críticas internas desde o início. Em 2001, enquanto o Charles de Gaulle estava em reparos e os Estados Unidos se preparavam para responder aos ataques de 11 de setembro, o ex-presidente Valéry Giscard d’Estaing chegou a chamar o navio de “meio porta-aviões” e defendeu publicamente a construção de um segundo navio.

Duas décadas de projetos de porta-aviões que nunca saíram do papel

A resposta do governo francês ao problema não foi imediata. Em 2003, Paris lançou o projeto PA2 (Porte-Avions 2) para estudar a viabilidade de um segundo porta-aviões.

A proposta previa um navio baseado no design britânico da classe Queen Elizabeth, e chegou a avançar para fases de estudo técnico detalhado, incluindo cooperação industrial com o Reino Unido. No entanto, o projeto acabou sendo abandonado. Cortes orçamentários, mudanças de prioridade política e a crise financeira global de 2008 interromperam o desenvolvimento.

Vídeo do YouTube

Durante cerca de duas décadas, a França conviveu com a vulnerabilidade de possuir apenas um convés de porta-aviões, apostando que os períodos de manutenção poderiam ser administrados diplomaticamente — seja operando a partir de bases aliadas, seja aceitando períodos temporários de lacuna operacional.

O programa PA-NG: a decisão de construir um porta-aviões maior

Em dezembro de 2020, o presidente Emmanuel Macron anunciou oficialmente o início do programa PA-NG (Porte-Avions de Nouvelle Génération).

Diferentemente dos projetos anteriores, o novo navio não seria uma adaptação de um modelo estrangeiro nem uma versão reduzida de porta-aviões existente. A proposta seria desenvolver um navio completamente novo, maior do que qualquer embarcação militar já construída na Europa.

Reprodução/Poder naval

Nos primeiros estudos, o deslocamento estimado era de cerca de 75.000 toneladas. Nas versões mais recentes do projeto, esse número subiu para aproximadamente 80.000 toneladas.

Isso coloca o PA-NG em uma categoria completamente diferente do Charles de Gaulle e representa um salto significativo para a indústria naval francesa. Em termos comparativos, o deslocamento projetado é cerca de 25% maior que o peso combinado dos dois porta-aviões anteriores da França, o Foch e o Clemenceau.

Capacidade aérea e catapultas eletromagnéticas do novo porta-aviões francês

O novo porta-aviões terá 310 metros de comprimento e cerca de 80 metros de boca, tornando-se uma das maiores plataformas navais já projetadas na Europa. Uma das mudanças mais importantes será a adoção de três catapultas eletromagnéticas EMALS, tecnologia desenvolvida pela empresa americana General Atomics e utilizada também nos porta-aviões da classe USS Gerald R. Ford.

As catapultas eletromagnéticas substituem os antigos sistemas a vapor e permitem lançar aeronaves mais pesadas com maior precisão, menor desgaste estrutural e maior eficiência operacional. O grupo aéreo embarcado poderá chegar a 40 aeronaves e drones, incluindo cerca de 30 caças de combate.

O navio será projetado para operar os atuais Rafale Marine, mas também o futuro NGF (Next Generation Fighter), o caça de próxima geração desenvolvido no programa europeu SCAF (Future Combat Air System). Esse novo avião deverá ser maior, mais pesado e mais armado do que o Rafale.

Além disso, o convés também deverá operar drones de combate furtivos, que atuarão em conjunto com aeronaves tripuladas em missões de reconhecimento, ataque e guerra eletrônica.

Reatores nucleares K22: a nova geração de propulsão naval francesa

A propulsão do PA-NG será fornecida por dois reatores nucleares K22, cada um com capacidade aproximada de 220 megawatts.

Esse nível de potência é suficiente para abastecer uma cidade de porte médio. Os K22 representam a nova geração de reatores navais franceses e são significativamente mais potentes que os K15 do Charles de Gaulle, que produzem cerca de 150 megawatts cada.

Modelo digital das duas salas de reatores K22 do PA-NG ao lado dos grupos turbo-alternadores (áreas pixeladas). – Imagem do Portal Poder naval

Além da propulsão, essa potência elétrica também será essencial para alimentar sistemas avançados do navio, incluindo sensores, radares, sistemas de defesa e as próprias catapultas eletromagnéticas EMALS, que demandam grande quantidade de energia.

A construção do PA-NG mobiliza centenas de empresas francesas

A construção do novo porta-aviões será realizada no estaleiro Chantiers de l’Atlantique, localizado em Saint-Nazaire, o único da França com doca seca grande o suficiente para um navio desse porte. O estaleiro é conhecido internacionalmente por ter construído o transatlântico Queen Mary 2 e por produzir alguns dos maiores navios de cruzeiro do mundo.

A propulsão nuclear ficará sob responsabilidade da Naval Group, com participação das instalações industriais de Cherbourg e Nantes-Indret, além da empresa TechnicAtome, especializada em reatores navais.

Em setembro de 2025, o estaleiro de Cherbourg iniciou a fabricação das primeiras peças das caldeiras nucleares do navio. O contrato principal de construção foi assinado em dezembro de 2025, com um valor autorizado de 10,2 bilhões de euros, incluído na lei de programação militar francesa.

Segundo o governo francês, o programa envolverá cerca de 800 fornecedores, dos quais aproximadamente 80% são pequenas e médias empresas distribuídas por diversas regiões do país. Ao todo, cerca de 2.100 profissionais trabalharão diretamente no programa, incluindo engenheiros, técnicos e especialistas ligados à Naval Group, aos Chantiers de l’Atlantique e aos parceiros industriais.

O clube restrito dos porta-aviões nucleares com catapultas

Com o PA-NG, a França continuará ocupando uma posição singular no cenário naval global. Atualmente, apenas dois países operam porta-aviões nucleares equipados com catapultas: os Estados Unidos, com onze navios das classes Nimitz e Ford, e a própria França, com o Charles de Gaulle.

A China está desenvolvendo um porta-aviões equipado com catapultas eletromagnéticas, o Fujian, mas o navio utiliza propulsão convencional e não nuclear. Isso significa que pouquíssimas nações possuem atualmente a capacidade tecnológica e industrial necessária para construir navios dessa categoria.

O PA-NG, portanto, não representa apenas a substituição de um navio antigo por um mais moderno. Ele simboliza a manutenção de uma posição estratégica extremamente rara no equilíbrio de poder naval mundial.

O calendário de construção e o risco de lacuna operacional

O cronograma do programa prevê o início da construção do casco em 2031, no estaleiro de Saint-Nazaire. Posteriormente, o navio deverá ser transferido para Toulon em 2035, onde serão realizados os acabamentos finais e o carregamento do combustível nuclear — uma etapa que exige instalações certificadas para operações nucleares.

Os testes no mar estão programados para 2036, enquanto a entrada em serviço operacional está prevista para 2038. Esse calendário coincide exatamente com o ano planejado para a desativação do Charles de Gaulle. Isso significa que qualquer atraso no programa PA-NG pode gerar justamente o cenário que o projeto pretende evitar: uma França temporariamente sem porta-aviões.

Um único porta-aviões ainda será a realidade da Marinha francesa

Mesmo com o PA-NG, a França continuará operando apenas um porta-aviões nuclear. O novo navio também precisará de períodos regulares de manutenção, o que inevitavelmente criará novas janelas de indisponibilidade.

A Marinha Nacional francesa continuará sendo, portanto, uma força de um único convés, com todas as limitações estratégicas que esse modelo impõe. A diferença é que o novo porta-aviões deverá oferecer períodos de disponibilidade mais longos, maior capacidade aérea e um conjunto tecnológico muito mais avançado.

Vídeo do YouTube

Com 80.000 toneladas de deslocamento, três catapultas eletromagnéticas e um grupo aéreo composto por caças e drones, o PA-NG operará em uma categoria muito superior ao Charles de Gaulle e a qualquer porta-aviões já construído na Europa.

Segundo o presidente Emmanuel Macron, o navio será “a ilustração do poder da nossa nação”. Para a Marinha francesa, no entanto, o significado é mais pragmático: garantir que, quando a França decidir agir no cenário internacional, terá capacidade de fazê-lo sem depender de bases estrangeiras ou da autorização de outros países.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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