O PA-NG vai substituir o Charles de Gaulle em 2038 com 310 metros de comprimento, dois reatores nucleares K22 e capacidade para 40 aeronaves e drones e a construção já começou.
O problema estrutural é que ele é o único porta-aviões da França. Sempre que o Charles de Gaulle entra em doca para manutenção — algo inevitável em navios de propulsão nuclear — o país fica sem qualquer porta-aviões operacional. Não existe substituto temporário, nem outra base aérea flutuante capaz de assumir essa função. Isso significa que, durante esses períodos, a França perde temporariamente uma das capacidades estratégicas mais importantes da guerra naval moderna: a possibilidade de projetar poder aéreo a partir do mar.
As janelas de manutenção que deixam a França sem porta-aviões
As interrupções operacionais do Charles de Gaulle não são raras. A primeira grande revisão do navio começou em setembro de 2007 e durou mais de um ano. Durante esse período, foram realizados trabalhos complexos como a recarga dos reatores nucleares e a substituição das hélices.
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Em 2017, o porta-aviões entrou novamente em doca para uma reforma de meio de vida que durou cerca de 18 meses, sendo concluída apenas em setembro de 2018. Mais recentemente, em 2023, o navio passou por outra manutenção intermediária.
Durante cada uma dessas janelas, a França deixa de ser uma potência com projeção aérea naval plena. O país continua operando submarinos nucleares, fragatas modernas e caças baseados em terra, mas perde a capacidade de lançar aeronaves de combate no meio do oceano sem depender de bases estrangeiras ou autorização de aliados.
Esse modelo de navio único já gerou críticas internas desde o início. Em 2001, enquanto o Charles de Gaulle estava em reparos e os Estados Unidos se preparavam para responder aos ataques de 11 de setembro, o ex-presidente Valéry Giscard d’Estaing chegou a chamar o navio de “meio porta-aviões” e defendeu publicamente a construção de um segundo navio.
Duas décadas de projetos de porta-aviões que nunca saíram do papel
A resposta do governo francês ao problema não foi imediata. Em 2003, Paris lançou o projeto PA2 (Porte-Avions 2) para estudar a viabilidade de um segundo porta-aviões.
A proposta previa um navio baseado no design britânico da classe Queen Elizabeth, e chegou a avançar para fases de estudo técnico detalhado, incluindo cooperação industrial com o Reino Unido. No entanto, o projeto acabou sendo abandonado. Cortes orçamentários, mudanças de prioridade política e a crise financeira global de 2008 interromperam o desenvolvimento.
Durante cerca de duas décadas, a França conviveu com a vulnerabilidade de possuir apenas um convés de porta-aviões, apostando que os períodos de manutenção poderiam ser administrados diplomaticamente — seja operando a partir de bases aliadas, seja aceitando períodos temporários de lacuna operacional.
O programa PA-NG: a decisão de construir um porta-aviões maior
Em dezembro de 2020, o presidente Emmanuel Macron anunciou oficialmente o início do programa PA-NG (Porte-Avions de Nouvelle Génération).
Diferentemente dos projetos anteriores, o novo navio não seria uma adaptação de um modelo estrangeiro nem uma versão reduzida de porta-aviões existente. A proposta seria desenvolver um navio completamente novo, maior do que qualquer embarcação militar já construída na Europa.

Nos primeiros estudos, o deslocamento estimado era de cerca de 75.000 toneladas. Nas versões mais recentes do projeto, esse número subiu para aproximadamente 80.000 toneladas.
Isso coloca o PA-NG em uma categoria completamente diferente do Charles de Gaulle e representa um salto significativo para a indústria naval francesa. Em termos comparativos, o deslocamento projetado é cerca de 25% maior que o peso combinado dos dois porta-aviões anteriores da França, o Foch e o Clemenceau.
Capacidade aérea e catapultas eletromagnéticas do novo porta-aviões francês
O novo porta-aviões terá 310 metros de comprimento e cerca de 80 metros de boca, tornando-se uma das maiores plataformas navais já projetadas na Europa. Uma das mudanças mais importantes será a adoção de três catapultas eletromagnéticas EMALS, tecnologia desenvolvida pela empresa americana General Atomics e utilizada também nos porta-aviões da classe USS Gerald R. Ford.
As catapultas eletromagnéticas substituem os antigos sistemas a vapor e permitem lançar aeronaves mais pesadas com maior precisão, menor desgaste estrutural e maior eficiência operacional. O grupo aéreo embarcado poderá chegar a 40 aeronaves e drones, incluindo cerca de 30 caças de combate.
O navio será projetado para operar os atuais Rafale Marine, mas também o futuro NGF (Next Generation Fighter), o caça de próxima geração desenvolvido no programa europeu SCAF (Future Combat Air System). Esse novo avião deverá ser maior, mais pesado e mais armado do que o Rafale.
Além disso, o convés também deverá operar drones de combate furtivos, que atuarão em conjunto com aeronaves tripuladas em missões de reconhecimento, ataque e guerra eletrônica.
Reatores nucleares K22: a nova geração de propulsão naval francesa
A propulsão do PA-NG será fornecida por dois reatores nucleares K22, cada um com capacidade aproximada de 220 megawatts.
Esse nível de potência é suficiente para abastecer uma cidade de porte médio. Os K22 representam a nova geração de reatores navais franceses e são significativamente mais potentes que os K15 do Charles de Gaulle, que produzem cerca de 150 megawatts cada.

Além da propulsão, essa potência elétrica também será essencial para alimentar sistemas avançados do navio, incluindo sensores, radares, sistemas de defesa e as próprias catapultas eletromagnéticas EMALS, que demandam grande quantidade de energia.
A construção do PA-NG mobiliza centenas de empresas francesas
A construção do novo porta-aviões será realizada no estaleiro Chantiers de l’Atlantique, localizado em Saint-Nazaire, o único da França com doca seca grande o suficiente para um navio desse porte. O estaleiro é conhecido internacionalmente por ter construído o transatlântico Queen Mary 2 e por produzir alguns dos maiores navios de cruzeiro do mundo.
A propulsão nuclear ficará sob responsabilidade da Naval Group, com participação das instalações industriais de Cherbourg e Nantes-Indret, além da empresa TechnicAtome, especializada em reatores navais.
Em setembro de 2025, o estaleiro de Cherbourg iniciou a fabricação das primeiras peças das caldeiras nucleares do navio. O contrato principal de construção foi assinado em dezembro de 2025, com um valor autorizado de 10,2 bilhões de euros, incluído na lei de programação militar francesa.
Segundo o governo francês, o programa envolverá cerca de 800 fornecedores, dos quais aproximadamente 80% são pequenas e médias empresas distribuídas por diversas regiões do país. Ao todo, cerca de 2.100 profissionais trabalharão diretamente no programa, incluindo engenheiros, técnicos e especialistas ligados à Naval Group, aos Chantiers de l’Atlantique e aos parceiros industriais.
O clube restrito dos porta-aviões nucleares com catapultas
Com o PA-NG, a França continuará ocupando uma posição singular no cenário naval global. Atualmente, apenas dois países operam porta-aviões nucleares equipados com catapultas: os Estados Unidos, com onze navios das classes Nimitz e Ford, e a própria França, com o Charles de Gaulle.
A China está desenvolvendo um porta-aviões equipado com catapultas eletromagnéticas, o Fujian, mas o navio utiliza propulsão convencional e não nuclear. Isso significa que pouquíssimas nações possuem atualmente a capacidade tecnológica e industrial necessária para construir navios dessa categoria.
O PA-NG, portanto, não representa apenas a substituição de um navio antigo por um mais moderno. Ele simboliza a manutenção de uma posição estratégica extremamente rara no equilíbrio de poder naval mundial.
O calendário de construção e o risco de lacuna operacional
O cronograma do programa prevê o início da construção do casco em 2031, no estaleiro de Saint-Nazaire. Posteriormente, o navio deverá ser transferido para Toulon em 2035, onde serão realizados os acabamentos finais e o carregamento do combustível nuclear — uma etapa que exige instalações certificadas para operações nucleares.
Os testes no mar estão programados para 2036, enquanto a entrada em serviço operacional está prevista para 2038. Esse calendário coincide exatamente com o ano planejado para a desativação do Charles de Gaulle. Isso significa que qualquer atraso no programa PA-NG pode gerar justamente o cenário que o projeto pretende evitar: uma França temporariamente sem porta-aviões.
Um único porta-aviões ainda será a realidade da Marinha francesa
Mesmo com o PA-NG, a França continuará operando apenas um porta-aviões nuclear. O novo navio também precisará de períodos regulares de manutenção, o que inevitavelmente criará novas janelas de indisponibilidade.
A Marinha Nacional francesa continuará sendo, portanto, uma força de um único convés, com todas as limitações estratégicas que esse modelo impõe. A diferença é que o novo porta-aviões deverá oferecer períodos de disponibilidade mais longos, maior capacidade aérea e um conjunto tecnológico muito mais avançado.
Com 80.000 toneladas de deslocamento, três catapultas eletromagnéticas e um grupo aéreo composto por caças e drones, o PA-NG operará em uma categoria muito superior ao Charles de Gaulle e a qualquer porta-aviões já construído na Europa.
Segundo o presidente Emmanuel Macron, o navio será “a ilustração do poder da nossa nação”. Para a Marinha francesa, no entanto, o significado é mais pragmático: garantir que, quando a França decidir agir no cenário internacional, terá capacidade de fazê-lo sem depender de bases estrangeiras ou da autorização de outros países.

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