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Pesquisadores alertam para um risco oculto na Amazônia após dados inéditos revelarem que poucas árvores gigantes sustentam quase todo o carbono armazenado na floresta, deixando marcas que podem persistir por gerações

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 19/02/2026 às 19:42
Atualizado em 19/02/2026 às 19:44
Árvores gigantes da Amazônia peruana que armazenam grande quantidade de carbono na floresta.
Árvores gigantes da Amazônia peruana concentram a maior parte do carbono armazenado na floresta.
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Um estudo revela que poucas árvores concentram a maior parte do carbono da floresta amazônica, levantando alertas sobre impactos silenciosos no clima, na biodiversidade e nas políticas florestais do Peru

A floresta amazônica é frequentemente descrita como um dos maiores aliados do planeta no combate às mudanças climáticas. No entanto, novas evidências científicas indicam que essa função vital pode estar mais ameaçada do que se imaginava. Um estudo recente mostra que as maiores árvores da Amazônia peruana armazenam uma quantidade desproporcionalmente maior de carbono, desempenhando um papel central na capacidade da floresta de atuar como sumidouro de carbono.

A informação foi divulgada por Live Science, com base em um artigo científico publicado na revista Frontiers in Forests and Global Change. Segundo os pesquisadores, justamente essas árvores gigantes, fundamentais para o equilíbrio climático, são as que enfrentam maior risco de exploração madeireira no Peru.

Atualmente, cerca de 60% do território peruano é coberto por florestas, sendo a maior parte localizada na região amazônica. Essa área representa aproximadamente 11% de toda a floresta amazônica, o que torna o país um ator estratégico na conservação ambiental global. Ainda assim, a legislação florestal vigente permite a extração seletiva de árvores quando atingem um diâmetro mínimo, que varia entre 41 e 61 centímetros (16 a 24 polegadas), dependendo da espécie.

Árvores gigantes concentram a maior parte do carbono da floresta

De acordo com o estudo, essa política acaba direcionando a exploração justamente para os indivíduos mais valiosos do ponto de vista climático. Isso ocorre porque, na Amazônia peruana, o terreno difícil e a logística complexa tornam a extração de árvores pequenas pouco eficiente. Como resultado, as empresas florestais priorizam árvores maiores, que oferecem maior volume de madeira, reduzindo custos de transporte, tempo e mão de obra.

Essas árvores, além de maiores, tendem a ser mais antigas e maduras, com madeira mais densa, dura e estável. Contudo, é exatamente essa combinação de características que faz com que elas armazenem volumes muito superiores de carbono, tanto acima quanto abaixo do solo.

O coautor do estudo, Geomar Vallejos-Torres, cientista agrícola da Universidade Nacional de San Martín, no Peru, explicou que a remoção dessas árvores devolve grande parte do carbono acumulado à atmosfera, enfraquecendo a função da floresta como reguladora do clima.

Para quantificar esse impacto, Vallejos-Torres e sua equipe analisaram centenas de árvores em cinco florestas diferentes do Peru. Foram medidas variáveis como diâmetro do tronco, altura, área da copa e densidade da madeira, permitindo estimar a biomassa aérea, subterrânea e o carbono armazenado.

Os resultados revelaram que o armazenamento de carbono aumenta de forma desproporcional à medida que o diâmetro do tronco cresce, sendo o limite de 41 centímetros um ponto crítico. Nas áreas estudadas, as florestas chegaram a armazenar até 331 toneladas métricas de carbono por hectare acima do solo e 47 toneladas métricas por hectare abaixo do solo.

Mais impressionante ainda, entre 88% e 93% de todo o carbono estava concentrado em árvores com diâmetro superior a 41 centímetros. No caso da árvore breadnut (Brosimum alicastrum), apenas 11,4% do carbono acima do solo estava em árvores menores, enquanto 88,7% estava nas árvores maiores.

Debate científico sobre manejo florestal e tempo de retenção do carbono

O estudo foi publicado em 25 de janeiro e rapidamente gerou debates dentro da comunidade científica. Para os autores, os dados indicam que a política florestal peruana, ao permitir a exploração dessas árvores, acaba atingindo diretamente os maiores reservatórios de carbono da floresta.

Vallejos-Torres defende uma mudança clara de abordagem. Segundo ele, proteger árvores com diâmetro acima de 41 centímetros é essencial não apenas para manter o carbono fora da atmosfera, mas também para preservar a biodiversidade, a microfauna e o microclima florestal, tornando a floresta mais resiliente às mudanças climáticas futuras.

Nem todos os especialistas, porém, concordam que o tamanho das árvores deva ser o principal critério. Ulf Büntgen, professor de análise de sistemas ambientais da Universidade de Cambridge, argumenta que o estudo não dá a devida atenção ao tempo de residência do carbono, que tende a ser menor em florestas tropicais.

Em resposta, Vallejos-Torres ressalta que árvores grandes continuam acumulando carbono por séculos, enquanto árvores menores crescem lentamente e enfrentam limitações causadas por degradação, distúrbios ambientais e alterações microclimáticas. Dessa forma, o carbono perdido não é recuperado em um prazo relevante para a mitigação climática.

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Entraves políticos e econômicos dificultam mudanças na legislação

Outro ponto levantado por especialistas é que o tamanho das árvores, isoladamente, não garante um manejo florestal sustentável. Martin Perez Lara, diretor de soluções climáticas florestais do World Wildlife Fund (WWF), reconhece que a relação entre diâmetro e estoque de carbono é intuitiva e empiricamente válida, mas alerta que sistemas de manejo bem projetados, incluindo a colheita seletiva controlada, podem contribuir positivamente para o equilíbrio climático.

Apesar disso, o próprio autor do estudo demonstra ceticismo quanto à possibilidade de mudanças na política florestal peruana. Segundo Vallejos-Torres, uma reforma legal que proteja as maiores árvores afetaria diretamente os interesses econômicos do setor madeireiro, que depende da extração desses indivíduos de alto valor comercial e exerce forte influência nas decisões políticas do país.

Assim, enquanto a ciência aponta para a urgência de proteger os maiores reservatórios naturais de carbono da Amazônia, interesses econômicos e estruturais continuam a representar um obstáculo significativo, deixando em aberto o futuro da floresta e seu papel no combate às mudanças climáticas globais.

Diante dessas descobertas, até quando a Amazônia conseguirá cumprir seu papel como escudo climático global se justamente as árvores que mais armazenam carbono continuam sendo as mais vulneráveis à exploração?

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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