A UFSM apresenta uma tecnologia inédita que transforma cascas de noz-pecã em biocombustíveis sólidos de alto rendimento, impulsionando a sustentabilidade e oferecendo novas soluções energéticas renováveis
A UFSM depositou junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o pedido de patente BR 10 2025 025818 8, referente a um método inovador para transformar cascas de noz-pecã em biocombustíveis sólidos de alto desempenho. A tecnologia, desenvolvida pelo grupo LSCnano da universidade, permite produzir briquetes, pellets e acendedores com elevado poder calorífico, baixo custo e grande potencial para reduzir resíduos agroindustriais no Brasil.
Tecnologia desenvolvida pela UFSM gera biocombustíveis
De acordo com a instituição, o processo utiliza um resíduo abundante da cadeia produtiva da noz-pecã e o transforma em uma alternativa renovável capaz de substituir lenha e carvão mineral em diversas aplicações. Essa solução reforça o papel da pesquisa acadêmica no avanço da sustentabilidade, favorecendo a economia circular, o uso eficiente de recursos e a busca por novas matrizes energéticas limpas.
A invenção foi criada pelos pesquisadores Jocenir Boita e Matheus Amancio Correa Neres, integrantes do grupo LSCnano, sediado no campus Cachoeira do Sul. O laboratório, ativo desde 2015, já acumula dez patentes relacionadas a reaproveitamento de resíduos, desenvolvimento de novos materiais e melhorias em processos industriais.
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O método patenteado envolve etapas como secagem, fragmentação, padronização e compactação das cascas de noz-pecã. Em algumas aplicações específicas, o processo permite a impregnação de substâncias que ajudam na ignição, resultando em produtos mais eficientes e práticas de uso.
O resultado são três tipos principais de biocombustíveis sólidos:
- Briquetes de alta densidade para substituição direta de lenha;
- Pellets padronizados, ideais para sistemas automatizados ou uso industrial;
- Acendedores, utilizados em lareiras, churrasqueiras e fornos.
Todos apresentam elevado poder calorífico, menor umidade, baixa emissão de fumaça e armazenamento facilitado, características essenciais para competir com fontes tradicionais.
Aproveitamento das cascas de noz-pecã e redução de resíduos
A cultura da noz-pecã tem crescido no Brasil, especialmente na Região Sul. Entretanto, o volume de cascas gerado após o beneficiamento dos frutos ainda é considerado subutilizado. Muitos produtores simplesmente descartam o material em ambientes naturais ou em aterros, gerando passivos ambientais e custos de destinação.
O novo método da UFSM propõe uma solução direta para esse problema. Ao usar um resíduo abundante, barato e disponível em larga escala, a tecnologia estimula a criação de um novo mercado dentro da cadeia produtiva da noz-pecã. O que antes era desperdício transforma-se em energia limpa.
Esse reaproveitamento reduz a pressão sobre recursos florestais, diminui o descarte inadequado e fortalece o conceito de economia circular. Além disso, agrega valor ao setor agrícola, ampliando as possibilidades de renda para cooperativas, pequenos produtores e indústrias do ramo.
Sustentabilidade e impacto ambiental positivo
A busca por sustentabilidade tem sido uma das principais motivações para o desenvolvimento de biocombustíveis sólidos derivados de resíduos. A tecnologia proposta pela UFSM reduz a dependência de combustíveis fósseis, incentiva o uso de materiais orgânicos de descarte e evita a queima direta de resíduos, que frequentemente ocorre de forma irregular em áreas rurais.
O método apresenta vantagens ambientais importantes:
- Redução de emissões associadas à decomposição ou queima descontrolada das cascas;
- Substituição de lenha obtida por desmatamento;
- Diminuição da necessidade de carvão mineral em pequenos sistemas de aquecimento;
- Reutilização de resíduos que, de outra forma, representariam impacto ecológico.
Além disso, o processo de produção dos briquetes e pellets exige menos energia do que outros métodos de conversão de biomassa, tornando-o mais eficiente em toda a cadeia produtiva.
Iniciativa da UFSM: Aplicações práticas e potencial comercial
Os produtos energéticos gerados pelo novo método podem ser utilizados em diversas situações, como:
- Aquecimento residencial;
- Fornos e fogões a biomassa;
- Lareiras e churrasqueiras;
- Pequenas indústrias que necessitam de calor constante;
- Processos metalúrgicos leves;
- Sistemas de calefação automatizados que utilizam pellets.
Por serem padronizados, os biocombustíveis produzidos a partir das cascas de noz-pecã oferecem estabilidade térmica maior que a lenha convencional, o que melhora o desempenho em sistemas controlados.
A UFSM também informou que os produtos resultantes da patente serão comercializados sob a marca EcoPecã – Biocombustíveis Sólidos, demonstrando intenção de inserir a tecnologia no mercado por meio de parcerias, licenciamento ou transferência de tecnologia.
Esse potencial comercial é especialmente relevante porque:
- A demanda por combustíveis sustentáveis cresce ano a ano;
- A cultura da noz-pecã possui concentração regional, facilitando a logística;
- O produto final tem valor agregado maior que o resíduo;
- O investimento inicial para a produção é baixo comparado a outras fontes renováveis.
O papel da biotecnologia no futuro da energia limpa
A transformação de resíduos agrícolas em energia tem sido uma das tendências mais fortes dentro da transição energética. Tecnologias como a da UFSM mostram que não é necessário depender de grandes usinas ou investimentos milionários para gerar impacto ambiental significativo.
Pesquisas semelhantes já foram realizadas com resíduos como casca de arroz, bagaço de cana, casca de pequi e resíduos de processamento de café. Entretanto, poucas iniciativas focaram especificamente nas cascas de noz-pecã, que têm estrutura rígida, baixo teor de umidade e excelente composição biomássica.
Essa característica torna o resíduo especialmente adequado para conversão em briquetes e pellets. Isso significa que a inovação da UFSM preenche uma lacuna real no mercado de biocombustíveis, ampliando o leque de recursos renováveis disponíveis no país.
Oportunidades e desafios para ampliar o uso de biocombustíveis sólidos
Apesar do grande potencial da tecnologia, alguns desafios precisam ser considerados para a expansão da produção e adoção dos biocombustíveis derivados das cascas de noz-pecã. Entre eles:
- Estabelecer parcerias com cooperativas agrícolas para garantir fornecimento contínuo do resíduo;
- Desenvolver máquinas compactadoras acessíveis para pequenas e médias empresas;
- Criar incentivos para substituição de lenha e carvão em pequenas indústrias;
- Garantir padronização energética dos produtos;
- Viabilizar logística para regiões com produção expressiva da noz-pecã.
Por outro lado, há oportunidades importantes:
- Produção local junto às áreas produtoras, reduzindo custos;
- Alto interesse do mercado por alternativas sustentáveis;
- Baixa concorrência específica na área de biocombustíveis de noz-pecã;
- Possibilidade de exportação, considerando o mercado internacional aquecido para pellets.
Se esses pontos forem trabalhados, o Brasil pode transformar um resíduo regional em referência nacional em energia renovável.
Por que essa inovação da UFSM importa para o futuro da energia no Brasil
A patente depositada pela UFSM destaca a relevância da pesquisa científica aplicada para a construção de um futuro mais eficiente, limpo e economicamente viável.
Ao transformar um material descartado em um biocombustível sólido de alto valor, a universidade demonstra como o conhecimento pode gerar soluções reais, práticas e de impacto imediato.
O avanço beneficia o meio ambiente, impulsiona a economia regional e fortalece a produção de energia renovável. É uma iniciativa que conecta agricultura, tecnologia, ciência e sustentabilidade.
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