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Embrapa usa plantas do Cerrado para recuperar áreas devastadas por mineração de ouro em MG e criar modelo nacional de revegetação

Escrito por Jefferson Augusto
Publicado em 26/02/2026 às 16:54
Atualizado em 26/02/2026 às 22:53
pesquisadores analisando solo em área minerada no Cerrado
Equipe da Embrapa testa espécies nativas para recuperação ambiental.
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Estudo conduzido em Paracatu aposta em espécies nativas do Cerrado para restaurar taludes com rejeitos e desenvolver protocolo replicável em todo o país

Pesquisadores brasileiros estão transformando áreas degradadas pela mineração de ouro em verdadeiros laboratórios de restauração ambiental. Uma iniciativa coordenada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vem demonstrando, na prática, o potencial das plantas nativas do Cerrado no reflorestamento de áreas impactadas pela atividade mineradora. A informação foi divulgada pelo Correio Braziliense, com base em dados técnicos apresentados pela própria Embrapa, detalhando os avanços do estudo realizado na mina Morro do Ouro, em Paracatu (MG).

O projeto, publicado nesta terça-feira (23/9), levou ao reflorestamento de taludes — estruturas inclinadas com presença de rejeitos — em uma barragem da mineradora Kinross Gold Corporation. No entanto, o objetivo vai além da recuperação pontual. Segundo a pesquisadora responsável, Leide Andrade, a meta central é desenvolver um protocolo de revegetação que possa ser replicado em outras áreas de mineração.

“Nossa meta é desenvolver um protocolo de revegetação que funcione nessas condições, para que possa ser adotado também em outros locais”, explica Andrade.

Por que usar plantas do Cerrado na recuperação de áreas mineradas?

A escolha por espécies nativas do Cerrado não ocorreu por acaso. Conforme destaca a coordenadora do estudo, importar soluções prontas de outros biomas não resolve os desafios locais. Ao contrário, a tecnologia precisa nascer no próprio território.

Não adianta importar soluções que funcionam em outros biomas. A tecnologia precisa nascer aqui, no campo, com nossos solos, nosso clima e nossas espécies”, ressalta Leide Andrade.

De acordo com a legislação ambiental brasileira, as mineradoras são obrigadas a manter o solo com cobertura vegetal. Entretanto, essa exigência impõe critérios rigorosos, o que reduz significativamente o número de espécies aptas ao plantio.

A pesquisadora Fabiana Aquino, integrante do projeto, explica que a revegetação em taludes com rejeitos apresenta limitações específicas. As plantas utilizadas não podem ter raízes profundas, justamente para evitar danos à estrutura do solo. Além disso, precisam ser espécies menores, facilitando o monitoramento técnico da barragem.

“Na agricultura, buscamos sempre produzir mais. Ali, temos que cobrir o solo e buscar produzir o mínimo possível”, comenta Aquino.

Ou seja, enquanto a agricultura tradicional prioriza produtividade, o reflorestamento em áreas mineradas prioriza estabilidade e segurança ambiental.

Desafios do solo após a mineração de ouro

Vídeo do YouTube

Antes de iniciar os testes, os pesquisadores realizaram uma análise detalhada do solo. O diagnóstico revelou um cenário extremamente adverso: solos ácidos, compactados, com baixa fertilidade, pobres em matéria orgânica e com baixa atividade microbiológica. Além disso, havia presença de metais tóxicos, o que dificulta ainda mais o estabelecimento da vegetação.

Diante desse panorama, a escolha das espécies se tornou etapa decisiva.

A pesquisa, ainda em fase de execução, testou combinações entre plantas nativas do Cerrado e espécies exóticas adaptadas ao bioma, caracterizado por áreas de cerradão e cerrado típico. Contudo, algumas espécies anteriormente utilizadas pela própria mineradora demonstraram baixa adaptabilidade.

Segundo Andrade, houve casos em que determinadas plantas não se desenvolveram adequadamente ou sequer sobreviveram nos taludes.

Além disso, quando ocorre alta produção de fitomassa — como folhas, caules e frutos — surge outro problema operacional. O excesso de vegetação dificulta a observação do solo da barragem, obrigando a empresa a realizar corte rasteiro anual.

“Quando há alta produção de fitomassa, há dificuldade de observar o solo da barragem e a empresa é obrigada a fazer o corte rasteiro de tudo o que tinha plantado”, explica Andrade. “Todos os anos eles semeiam essas sementes e raramente observamos a presença de algumas delas nos taludes.”

Portanto, o equilíbrio entre cobertura vegetal e controle técnico se torna fundamental.

Espécies testadas e resultados promissores

Após a análise do solo e da vegetação existente, a equipe da Embrapa iniciou a fase experimental. Na primeira etapa, os pesquisadores apostaram em espécies adaptadas às condições locais, como a grama pensacola e a braquiária humidicola, conhecida como capim-agulha.

Além disso, incluíram leguminosas como a dormideira (Mimosa somnians), espécie nativa do Cerrado. Entretanto, um dos desafios identificados foi a baixa oferta de sementes no mercado, o que pode limitar a expansão da técnica em larga escala.

Outro ponto relevante envolve o uso de culturas amplamente empregadas na agricultura regional. O milheto, por exemplo, apesar de ser adaptado ao clima local, demonstrou desempenho inadequado no contexto de revegetação de taludes minerados. Segundo os testes, a espécie pode atrasar o desenvolvimento das demais plantas utilizadas na cobertura vegetal.

Apesar das dificuldades, os resultados iniciais são considerados promissores. O projeto demonstra que a mineração transforma o território, mas também abre espaço para modelos inovadores de restauração ambiental.

“A mineração transforma o território, mas a forma como restauramos essas áreas também pode ser transformadora. Queremos criar modelos que respeitem a biodiversidade local”, defende Leide Andrade.

Dessa forma, o uso de plantas nativas do Cerrado na recuperação de áreas degradadas pela mineração de ouro pode se tornar referência nacional.

E você, acredita que a ciência brasileira pode transformar áreas devastadas em novos modelos de equilíbrio ambiental?

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