Brasil e Angola negociam cooperação agrícola com transferência de tecnologia, investimentos de US$ 120 milhões e foco em grãos, alimentos básicos e segurança alimentar
O governo brasileiro mantém negociações avançadas com autoridades de Angola para firmar um acordo de cooperação voltado à expansão da produção agrícola no país africano. A iniciativa prevê a transferência de tecnologia do agronegócio brasileiro, investimentos privados e apoio institucional para transformar áreas ainda pouco exploradas em polos produtivos estratégicos.
A informação foi divulgada pelo Valor Econômico, que apurou detalhes das tratativas envolvendo ministérios, bancos públicos, empresários e autoridades provinciais angolanas. O movimento ocorre em um momento em que Angola busca reduzir sua dependência da importação de alimentos e ampliar a produção interna para atender uma população em rápido crescimento.
Como parte central do acordo, Angola pretende ceder cerca de 60 mil hectares de terras agricultáveis a produtores brasileiros, área equivalente a aproximadamente 85 mil campos de futebol, concentrada inicialmente na província do Cuanza-Norte. O foco inicial será a produção de grãos e alimentos básicos, com potencial de expansão para cadeias mais complexas do agronegócio.
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Além disso, o modelo discutido prevê parcerias com produtores locais, transferência de tecnologia adaptada a ambientes tropicais e financiamento estruturado com participação de bancos brasileiros e angolanos, criando um arranjo considerado estratégico para ambos os países.
Investimentos brasileiros, financiamento público e participação do Fundo Soberano de Angola
As tratativas envolvem a participação direta de empresários brasileiros e instituições financeiras, com previsão de investimentos de aproximadamente US$ 120 milhões nos projetos iniciais. Segundo autoridades locais, a proposta foi apresentada oficialmente pelo governador do Cuanza-Norte, João Diogo Gaspar, durante reunião com uma comitiva brasileira.
Do ponto de vista financeiro, o modelo prevê uma composição diversificada de recursos. De acordo com apuração do Valor Econômico, o BNDES deve atuar financiando a aquisição e exportação de máquinas agrícolas, equipamentos e insumos fabricados no Brasil, fortalecendo a indústria nacional e ampliando as exportações.
Já o Banco do Brasil participaria operacionalizando recursos via Programa de Financiamento às Exportações (Proex). Além disso, o Fundo Soberano de Angola deve aportar cerca de 17% do montante total, reforçando o compromisso do governo angolano com o projeto.
O custeio das lavouras será realizado por bancos angolanos, que aportarão cerca de 5% do valor total, assumindo a cobertura das garantias. Os agricultores participantes também deverão contribuir com recursos próprios equivalentes a aproximadamente 10% do investimento total, criando um modelo de risco compartilhado.
Esse desenho financeiro busca reduzir incertezas, estimular a participação privada e garantir sustentabilidade de longo prazo aos projetos agrícolas em solo angolano.
Brasil pode ampliar exportações e produtores ganham acesso a novas áreas agrícolas
Do lado brasileiro, os benefícios vão além da diplomacia. Para o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, o acordo abre oportunidades relevantes para a exportação de máquinas, equipamentos, sementes, fertilizantes, defensivos e tecnologia agrícola desenvolvidos no Brasil.
Segundo o ministro, a parceria permite que empresas brasileiras ampliem sua presença internacional ao mesmo tempo em que contribuem para o desenvolvimento produtivo de um país parceiro. Durante missão oficial a Angola, no fim de janeiro, Fávaro afirmou que a cooperação “beneficia ambos os países e cria oportunidades reais para os produtores”.
Além disso, agricultores e investidores brasileiros passam a ter acesso a áreas agricultáveis ainda pouco exploradas, com custos operacionais potencialmente menores do que regiões já consolidadas no Brasil. Foram identificadas oportunidades para a produção de milho, soja, algodão, carne bovina e suína, além de investimentos em infraestrutura essencial, como armazéns, estradas internas e sistemas de irrigação.
Durante a visita oficial, mais de 30 produtores brasileiros formalizaram interesse em investir em projetos agrícolas em Angola, sinalizando demanda concreta e imediata pelo acordo.
Experiência do Cerrado brasileiro desperta interesse dos produtores angolanos
Um dos principais atrativos do Brasil para Angola está na experiência acumulada no desenvolvimento do Cerrado. Segundo o adido agrícola do Brasil em Angola, José Guilherme Leal, parte significativa do território angolano apresenta características semelhantes às do bioma brasileiro.
O Cerrado ocupa cerca de 25% do território brasileiro e, até a segunda metade do século XX, era considerado pouco produtivo. No entanto, investimentos consistentes em pesquisa agropecuária, crédito rural e infraestrutura transformaram a região em uma das principais áreas agrícolas do mundo.
Essa trajetória serve como referência direta para Angola, que busca repetir um modelo de sucesso baseado em ciência, tecnologia tropical e adaptação local. Ainda assim, especialistas alertam para desafios importantes, como incertezas regulatórias, gargalos logísticos em regiões com infraestrutura limitada e a necessidade de adaptação às condições institucionais e produtivas do país.
Apesar desses riscos, o potencial de ganho produtivo e econômico mantém o interesse elevado por parte de produtores e investidores.
China também avança sobre o agronegócio angolano com modelo diferente do brasileiro
O movimento brasileiro ocorre em paralelo ao avanço da China no setor agrícola angolano. No ano passado, o conglomerado estatal chinês Citic anunciou projetos de grande escala para a produção de soja e milho, com investimentos estimados em cerca de US$ 250 milhões ao longo de cinco anos.
Os planos chineses incluem o cultivo de até 100 mil hectares, com foco estratégico em garantir abastecimento próprio de grãos e reduzir a dependência de fornecedores externos. Diferentemente do modelo brasileiro, liderado por empresas privadas com apoio institucional, os projetos chineses contam com forte coordenação estatal e financiamento direto de bancos públicos.
Nas últimas duas décadas, a relação entre China e Angola já resultou em grandes obras de infraestrutura, como estradas, ferrovias e projetos de energia, frequentemente estruturadas em acordos de longo prazo atrelados à produção de petróleo. A entrada no setor agrícola amplia essa cooperação para a área de segurança alimentar, considerada estratégica por Pequim.
Angola reúne condições para se tornar nova fronteira agrícola mundial
Apesar das diferenças entre os modelos brasileiro e chinês, ambos convergem em um ponto central: o enorme potencial agrícola de Angola. O país possui aproximadamente 35 milhões de hectares de áreas agricultáveis ainda não exploradas, clima favorável à produção de grãos tropicais e localização estratégica para exportações pelo Atlântico.
Com cerca de 37 milhões de habitantes, população que pode chegar a 70 milhões até 2050, Angola enfrenta hoje um desafio estrutural: a produção local de alimentos atende apenas 37% da demanda interna, obrigando o país a importar grande parte do que consome.
Nesse contexto, a atração de tecnologia, capital e know-how estrangeiro surge como caminho para ampliar a produção, gerar empregos, fortalecer o setor agroindustrial e reduzir a vulnerabilidade alimentar. Caso os projetos avancem conforme planejado, Angola pode se consolidar como uma das novas fronteiras agrícolas globais nas próximas décadas.
Fonte: Gazeta do Povo
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