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Por que o Brasil não tem bombas atômicas: o programa secreto da ditadura, o poço nuclear no Cachimbo, a pressão internacional e o enterro simbólico de Collor em 1990

Escrito por Carla Teles
Publicado el 27/01/2026 a las 18:04
Por que o Brasil não tem bombas atômicas o programa secreto da ditadura, o poço nuclear no Cachimbo, a pressão internacional e o enterro simbólico de Collor em 1990 (3)
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Do poço nuclear na Serra do Cachimbo ao acordo com a Argentina e ao gesto simbólico de Collor, entenda por que o Brasil não tem bombas atômicas mesmo dominando o ciclo nuclear e enriquecendo urânio com tecnologia própria

O Brasil é um país que domina tecnologia nuclear avançada, enriquece urânio com supercentrífugas próprias e até desenvolveu um submarino de propulsão nuclear, mas o Brasil não tem bombas atômicas. Para entender por que esse caminho foi interrompido, é preciso voltar aos anos da ditadura, ao programa paralelo mantido em sigilo, ao poço de testes escavado na Serra do Cachimbo e ao momento em que Fernando Collor de Mello jogou literalmente pás de cal sobre o local, em 1990.

Ao mesmo tempo, essa história mostra como a disputa por poder no cenário internacional se mistura com ciência, espionagem, interesses econômicos e diplomacia. Vivemos em um mundo em que a tecnologia nuclear ainda define hierarquias globais, e entender por que o Brasil não tem bombas atômicas ajuda a explicar qual lugar o país escolheu ocupar nessa ordem atômica: longe das ogivas, mas dentro do clube de quem domina o ciclo do combustível nuclear.

A cena que simbolizou o fim da bomba brasileira

No dia 18 de setembro de 1990, uma imagem marcou a história recente do país. O então presidente Fernando Collor de Mello foi até a Serra do Cachimbo, no sul do Pará, e jogou duas pás de cal dentro de um buraco cravado no solo. Não era um buraco qualquer.

Aquela cavidade era o Poço de Testes Nucleares, escavado durante a ditadura militar para servir como ponto de explosão de uma possível bomba atômica brasileira. O poço fazia parte de um programa secreto, tocado em paralelo ao projeto nuclear oficial voltado à geração de energia.

Esse programa clandestino ficou quase três décadas na sombra, só vindo à tona depois da redemocratização, cerca de cinco anos após o fim formal do regime militar. A revelação do poço e da estrutura de testes provocou um escândalo internacional, justamente no momento em que o país tentava mostrar que o Brasil não tem bombas atômicas e não pretendia fabricá-las.

Quando Collor joga cal naquele poço, o gesto é duplo. De um lado, é um enterro concreto da infraestrutura de teste da bomba. De outro, é um enterro simbólico da ambição de transformar o programa nuclear brasileiro em programa de armas.

Por que armas nucleares ainda definem o jogo de poder mundial

Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, no fim da Segunda Guerra Mundial, nenhuma arma nuclear foi usada em combate. Mas o planeta ainda vive sob a sombra dessas bombas.

Os cinco países com assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, os únicos com poder de veto, são justamente os cinco detentores dos maiores arsenais nucleares. Não é coincidência: poder militar nuclear e poder político internacional caminham juntos.

Esses mesmos países, que monopolizam armas nucleares, costumam classificar como ameaça existencial qualquer tentativa de produção ou uso de armas nucleares por países fora desse círculo. No fundo, a ordem atômica mundial funciona como uma espécie de hierarquia: quem domina tecnologia nuclear completa ganha voz, quem não domina fica na periferia.

É nesse contexto que surge a pergunta central: se o Brasil não tem bombas atômicas, qual é a sua posição nesse jogo? O país escolheu um caminho ambíguo: recusou por décadas acordos que travassem seu desenvolvimento tecnológico, mas decidiu parar antes de cruzar a linha das armas.

Como o Brasil entrou no jogo atômico: da areia monazítica ao CNPq

Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra, entre 1946 e 1955, o Brasil vivia a reta final de um processo de industrialização iniciado na década de 1930. A ideia era deixar de depender apenas da exportação de café, açúcar, borracha e outros produtos primários.

Quase como uma ironia do destino, a porta de entrada do Brasil no mundo nuclear também foi uma matéria-prima. Em 1945, o país começou a exportar areia monazítica, base para a produção de plutônio, para os Estados Unidos, que naquele mesmo ano se consolidavam como a primeira potência nuclear da história.

O pagamento não deveria ser só em dinheiro. O Brasil queria transferência de tecnologia e informação para erguer uma indústria nuclear nacional. Ao mesmo tempo, a diplomacia brasileira participava ativamente de discussões internacionais sobre armas nucleares, geralmente com posições independentes.

Foi assim que o país tentou negociar com França e Países Baixos a compra das primeiras usinas, em 1946, e entrou nas discussões sobre a Autoridade Internacional de Desenvolvimento Atômico (IADA), proposta pelos Estados Unidos na ONU para controlar toda tecnologia nuclear mundial e eliminar bombas atômicas.

Na prática, a IADA retiraria as armas das mãos dos Estados nacionais e colocaria todo o poder sobre o átomo em um organismo supranacional. Caberia a ele administrar estoques de urânio e tório e decidir quem poderia acessar esse material crítico. A proposta nunca saiu do papel, mas já mostrava o temor das potências em ver países como o Brasil ganhando autonomia nuclear.

O representante brasileiro nessas negociações era o almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva, figura central da nossa história nuclear. Ele aceitava discutir uma autoridade internacional desde que o Brasil recebesse, além de dinheiro, tecnologia nuclear em troca das matérias-primas que tinha em abundância.

Foi sob essa visão que, em 1951, nasceu o CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, diretamente ligado às ambições nucleares. Ou seja, boa parte da ciência moderna brasileira nasce da tentativa de dar ao país autonomia sobre o átomo.

A dificuldade central: enriquecer urânio

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Dominar tecnologia nuclear não significa apenas construir reatores ou comprar usinas. O grande objetivo brasileiro sempre foi dominar o ciclo do combustível nuclear, um processo em seis etapas.

As duas primeiras foram relativamente simples:
o Brasil minerava rochas com urânio e filtrava o minério, separando o que interessava do que era rejeito.

O problema aparecia na terceira etapa: converter o urânio extraído em hexafluoreto de urânio (UF₆), o chamado bolo amarelo, usado como base para a quarta etapa, o enriquecimento de urânio.

Aí entra a física fina. O urânio natural é uma mistura de dois isótopos: urânio-238 e urânio-235. É o urânio-235 que interessa para reatores e bombas, mas ele representa menos de 1 por cento do minério encontrado na natureza.

Para usar o urânio em reatores, é preciso elevar a proporção de urânio-235 para algo em torno de 5 por cento. Para bombas nucleares, essa fração passa de 80 por cento. Enriquecimento nada mais é do que separar esses dois isótopos, explorando uma diferença mínima de massa e estabilidade entre eles.

Na teoria, o conceito de separação por centrífugas é simples. Na prática, é um desafio de engenharia brutal. As supercentrífugas precisam girar a gás de urânio a velocidades enormes, dezenas de milhares de rotações por segundo, gerando forças equivalentes a milhões de vezes a gravidade terrestre.

Construir algo assim sem ajuda externa era quase impensável. Mas, justamente por isso, era aí que o Brasil queria chegar se quisesse discutir de igual para igual com as potências nucleares, mesmo que o Brasil não tenha bombas atômicas.

Pressão das potências e o cerco ao projeto brasileiro

Desde o início, as potências nucleares viam com desconfiança qualquer tentativa brasileira de ir além do papel de fornecedor de matéria-prima. Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética não estavam interessados em transformar um país periférico em potência nuclear autônoma.

Apesar das dificuldades, o Brasil fez avanços. Em 1955, o governo Juscelino Kubitschek conseguiu comprar um reator nuclear dos Estados Unidos. Estudos internos avaliavam a adoção de reatores de urânio natural, que não exigiam urânio enriquecido.

Na política externa, a linha era clara: o país se declarava pró-desarmamento nuclear, desde que isso não limitasse o uso pacífico da energia atômica. Essa postura se tornaria ainda mais delicada após a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, quando Washington passa a ver qualquer programa nuclear nas Américas com máxima desconfiança.

Mesmo sem evidências de que o Brasil quisesse armas naquela fase, os equipamentos adquiridos poderiam, em teoria, ser usados para chegar lá. Vizinhos como a Argentina começaram a ver o programa brasileiro com preocupação, e o tema ganhou contorno geopolítico regional.

Ditadura, TNP e a escolha de não aceitar a trava externa

Em 1964, com o golpe militar, o Brasil se torna uma ditadura alinhada aos Estados Unidos. A expectativa internacional era que esse novo governo aceitasse sem resistências o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que começava a ser desenhado em 1965.

Assinar o TNP significaria congelar a capacidade nuclear do Brasil em um patamar subalterno: forte vigilância internacional, pouca margem para inovação independente e nenhuma possibilidade real de dominar todo o ciclo.

Contra todas as expectativas, o regime militar se recusa a assinar. A posição do país sobre não proliferação se mantém: não aceitar tratados que impeçam o desenvolvimento autônomo de tecnologias nucleares pacíficas.

A lógica brasileira era direta. Acordos desse tipo não poderiam servir para consolidar a hegemonia dos países que já tinham bombas, transformando o resto do mundo em dependente. O Brasil defendia que qualquer pacto fosse um ponto de partida para países em desenvolvimento, não um teto definitivo.

Essa escolha teve um custo. O país perdeu boa vontade internacional e teve que buscar cooperação em parceiros também desconfiados do TNP, como Índia e África do Sul, ainda que os resultados práticos tenham sido limitados.

Mesmo assim, a meta não mudou: dominar todo o ciclo de produção de combustível e energia nuclear, independentemente de favores externos. Em 1968, o governo militar decidiu construir a primeira usina de Angra dos Reis. A ambição tecnológica crescia junto com a desconfiança internacional.

A loucura nuclear vista de fora e o isolamento crescente

Em 1974, a Índia testou sua primeira bomba, a Smiling Buddha. O efeito indireto sobre o Brasil foi devastador. A pressão para conter programas nucleares de países em desenvolvimento explodiu.

Em 1975, o jornal The New York Times estampou uma acusação de «loucura nuclear» contra o Brasil, após a tentativa de comprar tecnologia da Alemanha Ocidental. A lógica era simples: a Alemanha era signatária do TNP, o Brasil não. Logo, a operação parecia uma brecha na arquitetura de contenção.

O então presidente norte-americano Gerald Ford ainda mantinha alguma abertura para cooperação nuclear limitada com o Brasil, mas enfrentava forte oposição no Senado, liderada por Jimmy Carter. Em 1978, já presidente, Carter transformou frear as ambições nucleares de países como o Brasil em pauta política.

Com o tempo, o cerco se fechou: foi proibida a venda de urânio para abastecer Angra 1, e o combustível prometido chegou com cinco anos de atraso. Não havia mais caminho fácil.

Sem cooperação externa, a ditadura tomou uma decisão estratégica: começar um programa nuclear completamente próprio, secreto e paralelo ao projeto oficial.

O Programa Paralelo e a corrida tecnológica brasileira

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Em 1978, nasce o chamado Programa Paralelo, organizado pelos militares, mas com participação de instituições civis como o IPEN, em São Paulo. O objetivo era claro: dominar todo o ciclo do combustível nuclear sem depender de ninguém.

Para isso, o programa foi fatiado em subprojetos.
O Projeto REMO buscava desenvolver um mini-reator para um futuro submarino nuclear, cujo casco seria construído pelo projeto Chalana.
O Projeto Ciclone mirava no coração do problema: o desenvolvimento de supercentrífugas para enriquecimento de urânio.

O primeiro grande resultado veio em 1979, quando o Brasil aprendeu a produzir hexafluoreto de urânio em escala industrial, o famoso «yellow cake».

Em temperatura ambiente, o composto tem cor amarelada. Aquecido acima de 57 graus, vira gás e pode ser usado nas centrífugas.

Para separar urânio-235 e urânio-238, o programa precisou de tecnologia de ponta em rolamentos magnéticos, que permitem que as centrífugas girem milhares de vezes por segundo sem se desfazer. Essa parte não podia ser comprada pronta.

Foi aí que entrou a dimensão de espionagem. Um espião brasileiro comprou na Alemanha uma bomba de vácuo com rolamentos magnéticos, enviada ao Brasil em mala diplomática, imune a revistas em aeroportos.

A partir dela, cientistas do IPEN decifraram o funcionamento dos rolamentos e conseguiram não só reproduzi-los, mas aperfeiçoá-los.

O país também traficou antigas centrífugas alemãs desmontadas, escondidas em caixas de eletrodomésticos como batedeiras e chocolateiras.

Em outro episódio, um diplomata brasileiro levou para o país 101 interruptores industriais de prata, componentes críticos para alimentar as supercentrífugas, vendidos oficialmente apenas dentro da França.

Esses esforços combinados deram resultado. Em 1984, o IPEN começou a enriquecer urânio em um processo totalmente nacional.

Do ponto de vista tecnológico, o Brasil cruzava o limiar que separa países meramente compradores de países capazes de fechar o ciclo nuclear.

Mesmo assim, o Brasil não tem bombas atômicas, e essa decisão não foi tecnológica, e sim política.

Rivalidade com a Argentina que virou cooperação nuclear

Enquanto corria por fora do sistema internacional, o Brasil também buscou parcerias alternativas. A mais importante foi com a Argentina.

Historicamente, os dois países alimentavam uma rivalidade profunda. O caso Itaipu é emblemático: argentinos reclamavam da construção da hidrelétrica sem participação mais ativa do país. Ao mesmo tempo, a Argentina, também sob ditadura, criticava tratados de não proliferação e tinha programa nuclear mais avançado que o brasileiro.

Havia o temor de uma corrida nuclear regional, algo como uma versão sul-americana de Índia e Paquistão. Mas o que aconteceu foi o oposto: Brasil e Argentina decidiram cooperar.

Eles passaram a alinhar suas críticas à ordem nuclear internacional e, cansados de frustrações com parceiros do Norte, resolveram abrir seus programas um ao outro.

Em 1980, a Argentina começou a fabricar combustível nuclear para o Brasil, que em troca podia fornecer equipamentos pesados para as usinas argentinas.

Em 1983, o Brasil foi avisado com antecedência de que a Argentina anunciaria ao mundo ter dominado o ciclo do combustível nuclear.

Essa cooperação também ajudou a destravar a crise de Itaipu. O que normalmente gera hostilidade – programa nuclear, no caso sul-americano virou plataforma de confiança mútua.

Mais tarde, já em democracia, essa parceria seria consolidada em acordos de segurança, até chegar ao ponto em que Brasil e Argentina vigiam mutuamente suas atividades nucleares, garantindo que nenhum dos dois busque armas.

A quase-bomba da ditadura e o surrealismo brasileiro

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Na reta final da ditadura, em meados dos anos 80, alguns militares da Força Aérea tiveram uma ideia tão absurda que parece roteiro de filme. Para marcar o fim do regime e celebrar os avanços nucleares, queriam explodir uma bomba atômica “comemorativa”.

A ideia era usar uma ogiva como se fosse um gigantesco fogo de artifício para saudar a transição política. O problema: não havia tempo hábil para produzir material físsil brasileiro suficiente.

A solução pensada era ainda mais problemática. A China havia vendido ao Brasil alguns quilos de urânio e plutônio para fins de estudo.

Os militares cogitaram usar esse material na bomba comemorativa, ignorando o fato de que isso violaria frontalmente os termos do acordo com Pequim.

Em resumo: uma ditadura militar anticomunista pensou em explodir uma bomba feita com plutônio vendido pela China comunista para comemorar o próprio fim. É difícil encontrar imagem mais didática da frase «o Brasil não é para amadores».

A ideia, claro, não foi adiante. Explodir uma bomba naquela altura apenas confirmaria a imagem construída desde os anos 70 de «loucura nuclear» brasileira. Em vez de reforçar a posição do país, enterraria de vez qualquer pretensão de ser visto como ator responsável no tema.

Felizmente, prevaleceu uma visão pragmática: o programa atômico era importante demais para ser queimado em um gesto de bravata.

Redemocratização, Comissão Vargas e o redesenho do programa

Video de YouTube

Em 15 de março de 1985, José Sarney assumiu a presidência da República sem nuvem de cogumelo no horizonte. Um dos primeiros movimentos institucionais da nova fase foi investigar o programa nuclear secreto herdado da ditadura.

Foi criada a Comissão Vargas, presidida pelo cientista José Israel Vargas. O relatório final teve um tom ambivalente: criticou os militares por manterem um programa paralelo sem informar o processo de transição, mas reconheceu o sucesso técnico do projeto, defendendo que ele continuasse sob comando civil.

Ao mesmo tempo, acidentes como Chernobyl e o desastre radiológico do Césio-137 em Goiânia impuseram um freio.

O programa foi reduzido em escala, mas não foi encerrado. Energia e tecnologia nucleares continuavam sendo vistas como estratégicas demais para serem abandonadas.

O antigo programa paralelo foi, então, formalizado como Programa Nuclear Brasileiro (PNB). A posição do país em relação à tecnologia nuclear se manteve, algo raro em nossa história: continuidade de Estado atravessando regime militar e democracia.

Em 1985, o Brasil assinou um acordo de cooperação nuclear com a Argentina, que evoluiu depois para um acordo de segurança recíproca. Hoje, um acompanha as instalações do outro, garantindo que nenhum desvie seu programa para armas.

Em 1987, o anúncio de que o Brasil havia dominado o ciclo nuclear – incluindo a tecnologia de supercentrífugas – chocou a comunidade internacional. Um programa secreto bem-sucedido assustava, mas também obrigava potências a olharem o país como parceiro tecnológico real, e não apenas exportador de minérios.

Collor, o poço do Cachimbo e o passo final

Como segundo presidente do ciclo democrático, Fernando Collor assume com uma missão delicada: mostrar que o Brasil abriria mão de armas nucleares sem abrir mão de tecnologia nuclear.

É nesse contexto que ocorre o gesto no poço de testes da Serra do Cachimbo. As pás de cal jogadas por Collor não destruíram apenas um buraco; destruíram o símbolo físico de uma possível bomba brasileira.

Em paralelo, o Itamaraty se movimentava para que o país pudesse, enfim, assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1998, agora de uma posição muito diferente. O Brasil já conseguia produzir seu próprio combustível. Assinar o TNP deixava de ser uma trava e passava a ser um selo de confiabilidade internacional.

A partir daí, o país se consolida como exportador de combustível nuclear e avança no desenvolvimento de um submarino de propulsão nuclear, aplicações de alto valor estratégico que não passam pela construção de bombas.

Em outras palavras, o Brasil não tem bombas atômicas porque escolheu capitalizar o domínio tecnológico nuclear em direção ao uso pacífico e à credibilidade internacional, e não à corrida por ogivas.

Então, afinal, por que o Brasil não tem bombas atômicas?

Olhando toda essa trajetória, dá para resumir assim:

  • Capacidade técnica: o país chegou ao ponto de enriquecer urânio por meios próprios, produzir hexafluoreto em escala industrial e dominar o ciclo do combustível nuclear. Tecnicamente, o caminho para armas estava aberto.
  • Custo político e diplomático: cruzar a linha das bombas significaria enfrentar sanções, isolamento, perda de credibilidade e rompimento de acordos, inclusive com a Argentina. Em vez de subir de nível no tabuleiro internacional, o país provavelmente desceria.
  • Estratégia de longo prazo: ao mostrar que o Brasil não tem bombas atômicas, mas domina o átomo, o país se coloca como ator confiável, capaz de negociar em fóruns internacionais, exportar combustível e disputar contratos de alta tecnologia, sem acender alertas de proliferação.
  • Consenso raro de Estado: desde Álvaro Alberto até a redemocratização, passando pela ditadura, há um fio de continuidade: buscar autonomia nuclear sem abrir mão do discurso de uso pacífico. Collor e o poço do Cachimbo apenas cristalizaram essa escolha aos olhos do mundo.

No fim, bombas atômicas estão entre as invenções mais destrutivas da humanidade. A história nuclear brasileira mostra que a mesma tecnologia capaz de produzir horror pode gerar cooperação, ciência, integração regional e uma posição mais autônoma no sistema internacional.

O Brasil está longe de ser perfeito, mas, nesse capítulo, escolheu um caminho em que o Brasil não tem bombas atômicas, tem tecnologia, e tenta usá-la como instrumento de desenvolvimento e diplomacia, não de ameaça.

Na sua opinião, o Brasil fez bem em optar por não ter armas nucleares ou o país deveria manter aberta a possibilidade de desenvolver bombas atômicas no futuro?

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Carla Teles

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