Ações dos Estados Unidos contra o petróleo venezuelano reduzem remessas para Cuba, ampliam apagões e expõem a dependência energética da ilha em meio à crise.
A intensificação da ofensiva dos Estados Unidos contra o petróleo da Venezuela passou a produzir efeitos além das fronteiras de Caracas. Cuba, altamente dependente das remessas venezuelanas de combustível, começou a sentir de forma direta o impacto do cerco promovido pela Casa Branca contra aliados do regime de Nicolás Maduro.
Embora o foco imediato das operações americanas esteja na costa venezuelana, especialistas apontam que Havana entrou no radar de Washington como parte de uma estratégia mais ampla. Para analistas, esse desdobramento não é casual e faz parte dos objetivos políticos do governo do presidente Donald Trump no Caribe.
Apreensão de petroleiros afeta abastecimento cubano
As ações militares dos EUA contra a chamada “frota fantasma” venezuelana resultaram na captura de petroleiros que transportavam petróleo destinado a Cuba. Um exemplo emblemático ocorreu em 10 de dezembro, quando o navio Skipper foi apreendido enquanto seguia para a ilha.
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Após o episódio, o próprio governo cubano reconheceu que a medida reforçou a “guerra econômica contra Cuba” e teria “impacto direto” sobre o já fragilizado setor energético do país. Desde então, cresce a preocupação com a continuidade das entregas de combustível.
Dependência histórica do petróleo da Venezuela
A relação energética entre Cuba e Venezuela remonta ao ano 2000, com a assinatura do Convênio Integral de Cooperação Cuba-Venezuela. À época, sob a liderança de Fidel Castro e Hugo Chávez, foi estabelecido um acordo em que Caracas forneceria grandes volumes de petróleo em troca de serviços profissionais cubanos.
Esses serviços incluíam, principalmente, médicos e professores, além de especialistas nas áreas de segurança e defesa. Com isso, a Venezuela passou a ocupar um papel estratégico para a economia cubana, semelhante ao que a União Soviética exerceu durante a Guerra Fria.
Ao longo dos anos, no entanto, o volume de petróleo enviado variou de forma significativa. Embora os dados oficiais não sejam públicos, especialistas indicam que, na última década, as remessas caíram de maneira contínua, influenciadas pela queda da produção venezuelana e pelas sanções impostas pelos Estados Unidos.
Crise interna agrava impacto da escassez de petróleo
Esse novo cenário surge em um momento particularmente delicado para Cuba. O país enfrenta seu quinto ano consecutivo de uma crise profunda, marcada por escassez de bens básicos, inflação elevada e retração econômica.
Além disso, cortes frequentes de energia elétrica, colapso da produção agrícola e industrial, deterioração dos serviços públicos e migração em massa formam um quadro de instabilidade persistente. Nesse contexto, a redução das remessas de petróleo agrava ainda mais a situação.
Foi justamente nesse ambiente que o governo Trump decidiu ampliar a pressão sobre a Venezuela, reforçando sanções e ações no Caribe.
Especialistas veem efeitos calculados sobre Havana
Para o economista e cientista político cubano Arturo López-Levy, a diminuição das entregas de petróleo da Venezuela para Cuba é um resultado esperado das recentes medidas americanas. “O mais provável é que, com as recentes medidas no Caribe, essas entregas (de petróleo da Venezuela para Cuba) caiam”, afirma.
Já o economista cubano Ricardo Torres alerta para o impacto direto dessa redução. “As consequências para Cuba seriam desastrosas”, destacou.
Segundo López-Levy, o cerco naval aos petroleiros venezuelanos representa um novo aperto sobre Havana. Em sua avaliação, a ofensiva contra Caracas também busca enfraquecer o governo cubano. “A ofensiva do governo Trump contra a Venezuela, silenciosamente, quer derrubar o governo de Cuba, com a mesma prioridade ou mais” do que atingir Nicolás Maduro, avalia.
Necessidade diária de petróleo e gargalos no fornecimento
Estimativas independentes indicam que Cuba necessita entre 110 mil e 120 mil barris de petróleo por dia para manter suas atividades básicas. Desse total, cerca de 40 mil barris são produzidos internamente.
O restante precisa ser importado. A Venezuela, que no passado chegou a fornecer até 100 mil barris diários, enviou em 2025 cerca de 27 mil barris por dia, segundo dados da agência Reuters.
Essa lacuna, que pode chegar a 50 mil barris diários, se traduz em apagões de até 20 horas por dia, paralisação de indústrias e longas filas nos postos de gasolina. Embora outros fornecedores tenham surgido, eles não conseguiram suprir a demanda.
Além disso, Havana enfrenta dificuldades financeiras para comprar petróleo no mercado internacional, devido à escassez de divisas.
Rússia e México oferecem apoio limitado
Entre os parceiros alternativos, a Rússia aparece como um dos poucos países capazes de fornecer petróleo a Cuba. Em 2025, Moscou enviou cerca de 6 mil barris por dia, segundo o especialista Jorge Piñón, da Universidade do Texas.
Piñón também antecipou a chegada de um novo petroleiro russo à ilha, transportando cerca de 330 mil barris. Ainda assim, Ricardo Torres avalia que a Rússia, envolvida na guerra da Ucrânia e enfrentando sanções e perseguição à sua própria frota, não tem condições de substituir a Venezuela de forma consistente.
O México também figura nesse cenário. No ano passado, o país enviou aproximadamente 23 mil barris diários a Cuba. Em 2025, esse volume caiu para menos de 3 mil barris, conforme dados da estatal Pemex. Torres aponta que o governo mexicano precisa “cuidar da relação” com os Estados Unidos, destino de 85% de suas exportações.
China surge como incógnita estratégica
Diante desse quadro, a possibilidade de envolvimento da China passa a ser discutida. Para López-Levy, a principal questão é identificar quem poderia financiar compras de petróleo em outros mercados e quem estaria disposto a vender e transportar o combustível sob o atual nível de pressão americana.
Segundo ele, Pequim poderia desempenhar um papel relevante, oferecendo créditos a Cuba ou a possíveis fornecedores. “É uma decisão geopolítica, não ideológica”, pontuou o cientista político.
Apesar de reconhecer uma “lógica de vendetta” por parte de figuras como o secretário de Estado Marco Rubio, López-Levy alerta que não se deve subestimar a capacidade de resistência do sistema cubano. Ainda assim, ele diferencia a sobrevivência no curto prazo da crise estrutural do país, que, em sua visão, segue sem perspectiva clara de solução.
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