O Programa Carro Sustentável perdeu força: descontos foram reduzidos, os preços seguem altos e os juros chegam a 27% ao ano. Mesmo com o IPI zerado, modelos populares como Polo, Kwid e Mobi continuam inacessíveis para a maioria dos brasileiros
O entusiasmo inicial com o Programa Carro Sustentável, lançado em julho com a promessa de reduzir o preço dos carros 1.0 ao eliminar o IPI, já não se sustenta. Na prática, os valores seguem elevados e os financiamentos continuam com juros proibitivos, o que limita o alcance real da iniciativa.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, chegou a visitar concessionárias em três finais de semana consecutivos para conferir de perto o desempenho do programa.
Nos primeiros dias, de fato, os números pareciam promissores: a demanda pelos seis modelos participantes dobrou em algumas lojas e entidades como a Anfavea e a Fenabrave registraram aumentos de até 16,7% nas vendas de varejo em julho e 14% nos emplacamentos nos primeiros dias de agosto, em comparação com 2024.
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Crescimento perde fôlego
O impulso, no entanto, não durou muito. Em agosto, os seis hatches contemplados – Volkswagen Polo, Fiat Argo e Mobi, Chevrolet Onix, Hyundai HB20 e Renault Kwid – somaram 48,3 mil emplacamentos. O resultado representou uma alta tímida de 1,6% frente ao mesmo mês do ano passado, segundo a consultoria K.Lume.
Apesar de ainda positivo diante da queda de 6,8% do mercado de veículos leves em geral, o desempenho mostrou perda clara de fôlego.
A principal razão foi a retirada ou redução de descontos. A Volkswagen, por exemplo, reduziu o abatimento do Polo Track de 12% para apenas 3,2%, elevando o preço de R$ 84,4 mil para R$ 92,6 mil em setembro.

Já os modelos da Fiat tiveram resultados distintos: o Argo subiu 30% em vendas com ajuda de promoções de até R$ 10 mil, mas já voltou a custar praticamente o mesmo de antes do programa.
O Mobi manteve preços quase inalterados, com a versão Like fixada em R$ 79 mil, apenas R$ 2 mil mais barata que antes.
O Renault Kwid, carro mais acessível do mercado, também registrou vendas discretas: alta de 5,3% em agosto. Seu desconto foi mínimo, de apenas 2,4%, mantendo a versão Zen em R$ 78,7 mil.
Já o Chevrolet Onix, com preço mais elevado – a versão básica chegou a R$ 101,7 mil – sofreu queda de 35,5% nos emplacamentos.
O Hyundai HB20, por sua vez, sustentou o bom momento: com descontos de até R$ 10 mil, registrou alta de 6,9%.
Preços e crédito ainda fora da realidade
Os dados confirmam que a redução do IPI em poucos modelos teve impacto limitado. O que realmente fez diferença foram os descontos dos fabricantes – muitos deles já retirados. Assim, os carros seguem inacessíveis para a renda média brasileira.
O cenário piora com os financiamentos. A taxa básica de juros (Selic) permanece em 15% ao ano, mas nos contratos de crédito para pessoas físicas os juros médios chegam a 27,6% ao ano, de acordo com o Banco Central.
Nos últimos 12 meses, o custo subiu dois pontos percentuais, enquanto os financiamentos cresceram apenas 1,2% nos primeiros sete meses de 2025. Ao mesmo tempo, a inadimplência aumentou para 5,3%.
Impacto social, econômico e ambiental limitado
Com preços altos e crédito caro, muitos consumidores que poderiam comprar um carro novo acabam optando por modelos mais completos fora do programa, o que reduz o alcance do chamado tripé social, econômico e ambiental defendido pelo Carro Sustentável.
Na prática, o programa pouco contribuiu para ampliar o acesso a veículos novos, dinamizar a produção industrial ou reduzir emissões.
O impacto foi suficiente apenas para evitar um tombo maior nas vendas, mas insuficiente para reverter a estagnação do setor. Para que o mercado automotivo volte a crescer de forma consistente, será necessário ir muito além da isenção do IPI em seis modelos populares.
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