Na colheita do arroz em Santa Catarina, o preço despenca, estoques de arroz se acumulam e o produtor de arroz catarinense luta para manter o arroz catarinense competitivo.
Santa Catarina abriu oficialmente a colheita do arroz com números impressionantes, mas com um grande problema à espreita: o preço despenca justamente quando a safra reage com força. Em São João do Itaperiu, no litoral catarinense, o estado comemorou 143 mil hectares plantados e uma previsão de 1,2 milhão de toneladas colhidas, porém com a saca girando em torno de R$ 50 e uma pressão enorme dos estoques sobre a renda do produtor.
No dia de campo da Urbano Alimentos, realizado na fazenda Limoeiro, a festa da produtividade dividiu espaço com um clima de alerta. Técnicos, cooperativas, indústria e agricultores deixaram claro que não basta produzir bem se o preço despenca e o custo do dinheiro continua alto, e que a saída passa por identidade própria para o arroz catarinense e por novas tecnologias que ajudem a reduzir custos sem sacrificar o potencial de produtividade.
Safra robusta em Santa Catarina, mas com preço despencando
A abertura da colheita em São João do Itaperiu escancarou a força da orizicultura catarinense. São mais de 143 mil hectares destinados ao grão no estado, com expectativa de mais de 1,2 milhão de toneladas nesta safra.
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Em poucas décadas, a produtividade saiu dos 2.000 quilos por hectare da década de 70 e 80 para se tornar uma verdadeira potência agrícola, motivo de orgulho para quem vive no campo e para quem vive da indústria do arroz.
Produtores e autoridades aproveitaram o evento para reforçar o papel estratégico da cultura para o estado. Do plantio à indústria, o arroz movimenta emprego, renda e tecnologia, além de sustentar uma cadeia altamente especializada.
Santa Catarina disputa espaço entre os principais produtores de arroz do Brasil e consolidou fama de referência em qualidade, com produtores que aprenderam a lidar com clima, solo e manejo em um ambiente cada vez mais competitivo.
Quando a safra cresce e o preço despenca
Por trás da boa safra, porém, há uma conta que não fecha. Enquanto a colheita avança, o preço despenca e corrói a margem do produtor, que vê a saca ser negociada por cerca de R$ 50, algo em torno de metade do valor observado no ano passado.
A queda superior a 50 por cento não é apenas um número de mercado, mas uma realidade dura no caixa das fazendas.
O principal vilão, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, é o volume de estoques. São mais de 25,5 milhões de toneladas de arroz em casca em estoque de passagem, o que cria um colchão enorme de oferta e faz o preço despenca na formação de mercado, acentuando a desvalorização do grão justo no momento em que a colheita ganha ritmo.
Em um cenário assim, muitos produtores colhem sabendo que a saca não cobre o esforço, o custo financeiro e o risco assumido desde o plantio.
Estoques altos, custo do dinheiro e insistência no campo
Na prática, quem vive do arroz sente o impacto todos os dias. Produtores lembram que este não é o primeiro ciclo em que o preço despenca, mas admitem que a combinação atual entre desvalorização do produto e custo de crédito elevado torna a safra especialmente desafiadora.
O maquinário está comprado, a infraestrutura está montada e o terreno permanece ali, o que empurra muitos agricultores a permanecer na atividade mesmo em anos em que o lucro não aparece.
Entre depoimentos, fica visível o perfil de quem não desiste fácil. Há um entendimento quase unânime de que crises fazem parte do ciclo, mas também empurram o setor a buscar alternativas.
É justamente quando o preço despenca que mais se fala em reciclar práticas, rever custos e resgatar oportunidades que ficaram esquecidas, seja em manejo, em tecnologia ou em novos modelos de comercialização. A expectativa é sair deste momento mais forte do que entrou, sem perder o elo do produtor na cadeia.
SC Mais Arroz: identidade, integração e tecnologia na lavoura
Dentro do dia de campo da Urbano, um dos pontos altos foi o lançamento do programa SC Mais Arroz, da Epagri. A proposta é ambiciosa e mira algo que vai além da fazenda individual.
A ideia é criar uma identidade clara para o arroz produzido em Santa Catarina, integrando todos os atores da cadeia produtiva, da pesquisa à indústria, passando por assistência técnica, cooperativas e produtores.
O programa busca levar informações mais homogêneas ao campo, reduzir ruídos técnicos e ajudar o produtor a enxergar melhor a efetividade das tecnologias disponíveis, sempre em escala de lavoura real, por meio de unidades demonstrativas.
A Epagri já lançou 34 variedades para a cadeia produtiva do arroz e hoje 12 estão em recomendação de cultivo.
O trabalho é contínuo, focado em cultivares mais sustentáveis e resilientes, capazes de entregar segurança para quem planta e qualidade para quem consome.
Biológicos e herbicidas de longa ação entram em cena
A pressão de custos em um cenário em que o preço despenca também empurra a adoção de tecnologias que prometem fazer mais com menos insumo.
Entre os destaques apresentados no evento está uma linha de biológicos para o arroz, baseada em bactérias como o metilobacterium symbioticum.
Essa bactéria é capaz de fixar nitrogênio na planta, captando o nitrogênio do ar e disponibilizando para a cultura ao longo do ciclo, o que ajuda a manter a sanidade e a produtividade da lavoura sem depender apenas de adubação nitrogenada tradicional.
Outro foco de atenção veio de tecnologias em fase de chegada ao mercado, como um herbicida pré emergente com residual de mais de 90 dias para controle de capim arroz.
Segundo os técnicos, trata se de uma ferramenta completamente nova, pensada para lidar com uma das principais plantas daninhas da cultura.
Ao reduzir falhas de controle e diminuir reentrada de plantas daninhas, o produtor ganha em estabilidade de produtividade e previsibilidade de manejo, algo fundamental quando o preço despenca e cada sacaria colhida precisa contar.
Reconhecimento a quem segura a atividade de pé
A abertura da colheita também foi momento de reconhecimento. A tradicional premiação Panícula de Ouro homenageou profissionais que se destacam na cadeia do arroz.
A engenheira agrônoma Cristiane Mara Fidler recebeu o troféu como referência técnica, enquanto o agricultor Albano Schulz, com 450 hectares de arroz cultivados em família, foi lembrado pelo trabalho de décadas na cultura.
Nos depoimentos dos homenageados, sobram memórias de tempos em que o manejo era pesado, com mais trabalho manual e menos tecnologia, o que reforça o contraste com a realidade atual.
Ver o setor amadurecer, ganhar produtividade e ainda assim enfrentar momentos em que o preço despenca ajuda a dimensionar a resiliência de quem permanece na atividade, apostando no domínio técnico e na inovação como saída.
Dia de campo como vitrine tecnológica e termômetro do produtor
O dia de campo da Urbano Alimentos, que chegou à 13ª edição, mostrou porque é visto como vitrine tecnológica.
O evento começou pequeno, com pouco mais de 30 produtores presentes no primeiro ano, e hoje recebe mais de mil pessoas em dois dias de programação, entre agricultores, técnicos, estudantes e representantes da indústria.
Ali, ao lado das lavouras e das máquinas, produtores trocam experiências sobre como manter a atividade viável mesmo quando o preço despenca e o mercado aperta as margens.
Muitos afirmam que voltam para casa com novas ideias para baixar custos, aumentar eficiência e testar tecnologias que viram na prática, em talhões reais, e não apenas em laboratório ou em folhetos.
É essa mistura de campo, ciência e tomada de decisão que faz do evento um termômetro fiel da realidade do arroz catarinense.
No fim de tudo, Santa Catarina segue colhendo bem, inovando em variedades, em biológicos e em manejo.
Mas, enquanto a produtividade sobe e o preço despenca, fica um ponto de interrogação sobre o futuro da renda na porteira e a velocidade com que o mercado vai conseguir absorver o volume produzido sem sufocar quem planta.
E você, olhando para uma safra em que a produtividade cresce, mas o preço despenca, acredita que tecnologia e programas como o SC Mais Arroz serão suficientes para manter o produtor de arroz catarinense na atividade com rentabilidade nos próximos anos?
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