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Satélites de nova geração revelam um megatsunami “invisível” na Groenlândia que fez a Terra tremer e mudou o olhar sobre eventos extremos

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 14/01/2026 às 18:57
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O evento gerou pulsos a cada 90 segundos, durou 9 dias e só foi confirmado quando o satélite SWOT conseguiu enxergar o movimento da água dentro do fiorde

A Terra registrou um comportamento raro em setembro de 2023: sensores sísmicos captaram um pulso repetitivo a cada 90 segundos, sem interrupção, por 9 dias. O padrão era regular demais para parecer um tremor comum e longo demais para ser ignorado.

O que parecia um mistério geológico acabou tendo origem na água. Um megatsunami se formou em Dickson Fjord, na Groenlândia, e ficou preso dentro do fiorde, oscilando de um lado para o outro por dias.

A região é remota, quase sem presença humana, o que explica por que o episódio não virou alerta imediato para o mundo. Mesmo assim, a energia foi grande o suficiente para deixar uma assinatura global e chamar atenção de cientistas em vários países.

O planeta tremeu por 9 dias e ninguém entendia o motivo

O sinal detectado no planeta inteiro não parecia um terremoto clássico. Em vez de um pico curto e forte, ele aparecia como um pulso contínuo, com ritmo constante, repetindo o mesmo intervalo por dias.

Esse tipo de comportamento é incomum em registros sísmicos. Por isso, o fenômeno virou um quebra cabeça, já que não havia uma explicação direta que encaixasse na duração e na repetição observadas.

O detalhe que mais chamou atenção foi a persistência. Foram 9 dias com o mesmo padrão, como se a Terra estivesse sendo empurrada de forma regular, sempre no mesmo compasso.

Dickson Fjord virou palco de um megatsunami silencioso

Imagem do satélite Copernicus Sentinel-2 do Fiorde Dickson, no leste da Groenlândia, com as medições observadas de altura da superfície do mar do satélite SWOT da onda que sacudiu a Terra em 11 de outubro de 2023 sobrepostas. Crédito: Thomas Monahan

O ponto de origem do evento foi Dickson Fjord, no nordeste da Groenlândia. Em 16 de setembro de 2023, ocorreu um grande deslizamento que envolveu rocha, gelo e detritos, atingindo diretamente a água do fiorde.

O impacto deslocou um volume enorme de água em pouco tempo. Isso criou um megatsunami dentro do canal estreito, com comportamento diferente do tsunami que costuma cruzar oceanos e atingir áreas urbanas.

O local é cercado por paredes rochosas e funciona como um corredor natural. Essa geografia ajudou a manter a energia concentrada, em vez de permitir que a onda se espalhasse e perdesse força rapidamente.

A onda chegou a 200 m e transformou o fiorde em uma caixa de ressonância

O evento é descrito com uma altura de tsunami de até 200 m, além de ondas subsequentes que chegaram a 110 m. Esses números mostram o tamanho da energia liberada no momento do deslizamento.

O que torna o caso ainda mais raro é que o fenômeno ficou preso no próprio fiorde. Em vez de avançar para o oceano aberto, a água passou a oscilar dentro do canal, como se estivesse presa em um sistema fechado.

Isso transformou o fiorde em uma espécie de caixa de ressonância natural. A energia continuou circulando ali dentro, repetindo o movimento e mantendo o evento ativo por dias.

A seiche manteve a água oscilando como um motor natural

O movimento que sustentou o evento tem nome: seiche. É uma oscilação de grande escala que acontece quando a água fica presa em um espaço fechado ou semi fechado e passa a ir e voltar em um ciclo repetitivo.

No caso de um fiorde longo e estreito, a seiche pode ganhar força e persistência. A água bate em uma extremidade, retorna, bate na outra e continua repetindo, mantendo um balanço constante.

Esse vai e vem ajuda a explicar por que o planeta registrou pulsos tão regulares. A água virou um “motor” mecânico natural, empurrando e puxando o sistema por tempo demais para ser confundido com um evento sísmico comum.

O satélite SWOT captou o que não aparecia em monitoramentos tradicionais

A confirmação do fenômeno ganhou força com o satélite Surface Water Ocean Topography, conhecido como SWOT. Ele foi lançado em dezembro de 2022 e tem capacidade de medir a altura da superfície da água com alta precisão.

O diferencial do SWOT é conseguir mapear áreas de água com mais detalhe, inclusive em regiões complexas como fiordes. Isso amplia o alcance de observação em locais onde não há instrumentos instalados e onde a presença humana é mínima.

Com essa leitura, foi possível identificar sinais claros do movimento dentro de Dickson Fjord, mostrando que a água não estava apenas agitada, ela estava oscilando de forma organizada e persistente.

Diferenças de até 2 m na superfície confirmaram o vai e vem da onda

Os dados do satélite mostraram que a superfície da água dentro do fiorde apresentava inclinações bem marcadas, com diferenças de altura de até 2 m em momentos distintos.

O mais importante é que essas inclinações mudavam de direção. Em um instante, a água parecia mais alta de um lado, depois o padrão invertia, o que indica o balanço contínuo de um extremo ao outro.

Esse comportamento combina com a dinâmica de seiche e ajuda a explicar a assinatura sísmica repetitiva. Mesmo sem um tsunami avançando para o oceano aberto, a energia dentro do fiorde foi suficiente para gerar um sinal sentido em escala global.

O alerta escondido: eventos extremos podem acontecer fora do radar humano

O caso de Dickson Fjord mostra que eventos extremos podem ocorrer em áreas isoladas e ainda assim produzir impactos detectáveis no planeta. Quando o cenário é remoto, o mundo pode demorar a entender o que aconteceu, mesmo com sinais aparecendo em instrumentos.

Também fica claro que a tecnologia espacial passou a ter um papel central nesse tipo de descoberta. Satélites como o SWOT ampliam a capacidade de observar mudanças na água em regiões onde não existe monitoramento constante.

O megatsunami na Groenlândia durou 9 dias, teve pulsos a cada 90 segundos e deixou uma marca global. Agora, esse tipo de evento entra em uma nova fase, com mais chance de ser detectado, medido e compreendido com rapidez.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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