Com novas ferramentas digitais, cientistas monitoram espécies ameaçadas em habitats isolados e perigosos, coletando dados em tempo real sobre distribuição, saúde, comportamento e uso do oceano. Veículos não tripulados, gravações acústicas, telemetria e inteligência artificial permitem rastrear baleias, tartarugas e focas, orientando proteção e recuperação.
A corrida para proteger espécies ameaçadas no oceano entrou de vez na era tecnológica, com satélites, drones, veículos não tripulados, sensores acústicos, etiquetas inteligentes e inteligência artificial sendo usados para enxergar o que antes era invisível em áreas remotas, profundas, geladas ou perigosas demais para expedições tradicionais.
Com monitoramento em tempo real e pesquisas de longo prazo, esses recursos estão mudando a forma de entender como espécies ameaçadas reagem a impactos ambientais e antrópicos, permitindo decisões mais rápidas para conservação, recuperação e redução de riscos como colisões com embarcações, captura acidental em pescarias e perda de habitat.
Monitoramento de longo prazo em locais onde quase ninguém consegue chegar

Um dos ganhos mais importantes desse pacote tecnológico é a capacidade de estudar animais e ecossistemas em habitats isolados, de difícil e perigoso acesso, com eficiência e continuidade.
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Em vez de depender apenas de janelas curtas de observação em campo, equipes conseguem manter vigilância por períodos longos, acumulando séries de dados que revelam padrões invisíveis em levantamentos pontuais.
Esse tipo de monitoramento remoto permite acompanhar a distribuição das populações e entender como elas usam o habitat, registrando mudanças sazonais, deslocamentos e áreas críticas de alimentação e reprodução. Para espécies ameaçadas, isso significa reduzir incertezas sobre onde elas estão e em que momentos ficam mais vulneráveis.
Veículos não tripulados: máquinas que viram olhos e ouvidos do oceano

Veículos não tripulados estão sendo usados para coletar dados essenciais sobre espécies ameaçadas e outras espécies protegidas com mais precisão e menos risco.
Esses sistemas ajudam a medir estado da população, movimentação, saúde, habitat e comportamento, revelando como os animais interagem com o ecossistema e também com ameaças como embarcações e equipamentos de pesca.
Entre as plataformas em teste estão veículos de superfície não tripulados, como o DriX. Eles podem ser empregados para entender abundância e distribuição do plâncton, um fator que influencia diretamente onde mamíferos marinhos buscam alimento.
Isso é decisivo porque muitos eventos de concentração de baleias, golfinhos e botos estão associados a áreas onde o alimento se acumula.
Ao ampliar a coleta de dados em condições e ambientes inacessíveis a levantamentos aéreos e marítimos tradicionais, essas máquinas expandem o alcance da ciência para regiões que antes ficavam sem informação por longos períodos.
Drones: medir, contar, observar e marcar sem encostar no animal
Sistemas aéreos não tripulados, conhecidos como drones, viraram ferramentas-chave para monitorar animais sem contato direto, reduzindo o estresse e diminuindo a necessidade de aproximações repetidas de embarcações.
Na prática, os drones são usados para:
- Contar e medir animais individualmente
- Estimar o tamanho do grupo
- Monitorar taxas de partos e nascimentos de filhotes
- Observar condição corporal
Além disso, drones podem lançar etiquetas com ventosas em cetáceos, como baleias, golfinhos e botos. Entre as espécies citadas nesse tipo de monitoramento estão a baleia-franca-do-atlântico-norte e a baleia-de-rice, ambas ameaçadas de extinção.
Essas etiquetas coletam dados sobre padrões de mergulho, taxas de vocalização, uso do habitat e outros comportamentos de cada indivíduo.
O resultado é um panorama muito mais detalhado sobre fatores biológicos e ecológicos que determinam o estado de conservação de uma população.
Os drones também têm função direta em resgates. Eles ajudam equipes a avaliar baleias enredadas ou feridas, permitindo uma leitura visual mais segura e rápida e minimizando o estresse do animal ao reduzir o número de aproximações de embarcações.
Imagem térmica no Ártico: focas brilhando no gelo

No Ártico, drones equipados com sistemas de imagem térmica são usados para monitorar populações de focas-do-gelo. A lógica é simples e poderosa: os corpos aquecidos das focas, descansando sobre grandes placas de gelo, aparecem com brilho intenso, destacando-se do ambiente frio ao redor.
Isso resolve um problema prático. O acesso às placas de gelo pode ser difícil para os pequenos barcos infláveis usados por pesquisadores para se aproximar das focas.
Com as condições do Ártico mudando continuamente, o uso de drones para monitorar abundância, saúde e comportamento dessas focas se torna essencial para esforços de conservação e recuperação, especialmente quando o cenário exige rapidez e precisão.
Gravações acústicas: “escutar” o oceano onde o olho não alcança
O som é a principal forma de comunicação de muitos animais marinhos, além de ser usado para encontrar alimento, localizar parceiros e evitar predadores.
Por isso, a gravação acústica virou uma das tecnologias mais estratégicas para acompanhar espécies ameaçadas.
A ciência usa tecnologia de monitoramento acústico passivo para “escutar” o oceano por longos períodos e em grandes distâncias. Entre as ferramentas empregadas estão:
- Gravadores de arquivo montados no fundo
- Conjuntos de hidrofones rebocados por navios
- Gravadores à deriva
- Etiquetas de gravação acústica
- Monitoramento em tempo quase real por planadores e bóias acústicas
Com essas ferramentas, pesquisadores estudam comportamento, movimentos e distribuição de animais usando frequências e padrões sonoros únicos produzidos por diferentes espécies embaixo d’água.
A grande vantagem é cobrir lacunas que levantamentos aéreos e marítimos sazonais deixam para trás. Em condições adversas, ou quando os animais estão mergulhando, métodos tradicionais podem não registrar avistamentos. A acústica, por sua vez, pode operar durante todo o ano.
Isso é especialmente útil para espécies difíceis de estudar, como baleias-bicudas, que mergulham em grandes profundidades, ou populações pequenas, mas amplamente distribuídas, como a baleia-franca-do-atlântico-norte.
Do dado ao alerta: zonas de velocidade reduzida para proteger baleias
Dados acústicos não ficam apenas no campo científico. Eles podem orientar medidas de proteção em tempo real.
Quando vocalizações de baleias-francas-do-atlântico-norte são detectadas em tempo real, é ativada uma Zona de Velocidade Reduzida para Baleias-Francas, incentivando navegantes a reduzir a velocidade das embarcações na área.
Esse tipo de resposta transforma informação em ação imediata, reduzindo riscos para espécies ameaçadas em uma das ameaças mais difíceis de controlar no oceano: o tráfego de embarcações.
Além disso, detecções de vocalizações de baleias e golfinhos no Atlântico Norte são carregadas em um mapa acústico passivo de cetáceos, uma ferramenta interativa de dados públicos que permite entender quando e onde grandes baleias ocorrem na costa leste dos Estados Unidos.
Telemetria animal: etiquetas que viram “diários” do corpo e do ambiente
A telemetria animal utiliza etiquetas fixadas em animais para rastrear movimentos e coletar dados sobre localização, fisiologia, comportamento e ambiente.
Essas etiquetas podem usar GPS, gravadores acústicos e vídeo. Os dados são armazenados e transmitidos via rádio, satélite ou sinal acústico.
Com o avanço tecnológico, etiquetas mais duradouras conseguem armazenar dados por vários anos, especialmente úteis para espécies de vida longa.
Também existem etiquetas em miniatura aplicáveis a animais menores, como tartarugas marinhas jovens e aves marinhas.
Há um esforço específico para aprimorar sensores via satélite e medir dados fisiológicos mais detalhados. Entre exemplos estão temperatura estomacal, para monitorar ingestão de presas, e dados ambientais como temperatura e salinidade da água.
Satélites seguindo migradores: a rota das tartarugas-de-couro do Pacífico
Etiquetas de satélite são especialmente úteis para monitorar espécies altamente migratórias, difíceis de rastrear por navio ou avião.
Um exemplo citado é o uso de etiquetas para coletar dados de localização, temperatura e profundidade de mergulho de tartarugas-de-couro do Pacífico, espécie ameaçada de extinção.
Essas tartarugas realizam migrações de longa distância. O rastreamento permite entender distribuição sazonal e quanto tempo passam na superfície ou em profundidades maiores na coluna d’água. Esse conhecimento ajuda a reduzir risco de interações prejudiciais, como captura acidental em pescarias comerciais, uma ameaça constante para espécies ameaçadas.
Etiquetas acústicas e a mudança de distribuição ao longo do tempo
Outro tipo de etiqueta, com transmissores acústicos, emite sinais únicos a cada poucos segundos. Esses sinais são detectados por receptores próximos e registram a localização conforme o animal nada.
Esse método é valioso para rastrear movimentos de espécies longevas e identificar se a distribuição geográfica está mudando devido a condições ambientais, recuperação, ou perda de habitat.
Um exemplo citado envolve o peixe-serra-de-dentes-pequenos: apesar de já ter se estendido do Texas à Carolina do Norte, agora é encontrado quase exclusivamente em águas da Flórida.
Inteligência artificial e novas frentes tecnológicas para reduzir risco de extinção
Em 2023, foi lançado um programa voltado à Amostragem Avançada e Tecnologia para Redução e Recuperação do Risco de Extinção. A proposta é acelerar avanços tecnológicos que ajudam a conservar espécies ameaçadas e seus habitats.
A abordagem combina inteligência artificial e aprendizado de máquina, métodos estatísticos avançados, amostragem avançada e “ômicas”, além de sistemas não tripulados, acústica, imagens e outras tecnologias. O objetivo é aprimorar a gestão da conservação e também reduzir encargos regulatórios, com decisões mais embasadas e eficientes.
Por que essa corrida tecnológica muda a conservação na prática
Quando a ciência consegue observar animais sem tocá-los, ouvir o oceano durante o ano inteiro, acompanhar migrações por satélite, medir condição corporal com drones e detectar presença por padrões acústicos, o resultado é um salto de capacidade.
A conservação deixa de depender apenas de expedições esporádicas e passa a operar com dados contínuos, o que ajuda a compreender como populações respondem a ameaças ambientais e antrópicas e como ajustar estratégias de proteção e recuperação de forma mais precisa.
Além do impacto ambiental direto, há um argumento econômico associado a ecossistemas marinhos sustentáveis, que impulsionam competitividade e economia, conectando a sobrevivência de espécies ameaçadas a decisões de gestão e uso do oceano.
Você acha que essa corrida tecnológica para proteger espécies ameaçadas vai conseguir chegar a tempo de frear a extinção no mar, ou o oceano já está mudando rápido demais?
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