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Sempre achamos que a vida nasceu em poças quentes, mas poeira do asteroide Bennu prova que aminoácidos e blocos de DNA surgem congelados no espaço, sob radiação, bilhões de anos

Escrito por Carla Teles
Publicado el 14/02/2026 a las 18:59
Actualizado el 14/02/2026 a las 19:01
Sempre achamos que a vida nasceu em poças quentes, mas poeira do asteroide Bennu prova que aminoácidos e blocos de DNA surgem congelados no espaço, sob radiação (1)
Poeira do asteroide Bennu da missão OSIRIS-REx revela como aminoácidos no gelo do espaço ajudam a explicar a origem da vida e reforçam a panspermia.
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Análises da missão OSIRIS-REx em Bennu indicam que a origem da vida não depende só de poças quentes na Terra, mas também de gelo irradiado no espaço profundo.

Quando a cápsula da missão OSIRIS-REx pousou no deserto de Utah em setembro de 2023, trazendo um punhado de poeira escura coletada do asteroide Bennu, os cientistas sabiam que não estavam diante de um material qualquer. Aquela poeira tinha potencial para reescrever a nossa visão sobre a origem da vida, deslocando o foco da Terra jovem para regiões congeladas e irradianas do espaço.

Por décadas, o cenário clássico imaginava a origem da vida em poças de água quente, onde calor e líquido formariam uma “sopa química” cheia de aminoácidos e moléculas complexas. As novas análises de Bennu, porém, mostram que os blocos fundamentais da biologia podem surgir em ambientes gelados, a partir de gelo irradiado, antes mesmo de existirem oceanos ou mares estáveis em planetas como a Terra.

A cápsula que trouxe pistas da origem da vida

A OSIRIS-REx foi enviada especificamente para coletar amostras de Bennu e trazê-las intactas de volta à Terra. Dentro da cápsula, havia poeira negra formada há bilhões de anos, muito antes de qualquer forma de vida que conhecemos.

Essa poeira é uma espécie de arquivo físico dos primeiros instantes do sistema solar, carregando pistas químicas sobre a origem da vida e sobre como os ingredientes biológicos foram distribuídos pelo espaço.

Ao analisar essa poeira em laboratório, cientistas puderam identificar não só a presença de carbono, nitrogênio, água e compostos orgânicos, como já se suspeitava, mas também detalhes muito mais profundos sobre como essas moléculas surgem.

O que a ciência acreditava até agora sobre a origem da vida

Até recentemente, a teoria predominante dizia que a origem da vida dependia de calor e água líquida. A imagem clássica era a da “sopa primordial”: poças ou lagos quentes onde moléculas simples, energizadas pelo ambiente, começavam a se combinar em estruturas cada vez mais complexas, como aminoácidos e, depois, bases de DNA e RNA.

Poeira do asteroide Bennu da missão OSIRIS-REx revela como aminoácidos no gelo do espaço ajudam a explicar a origem da vida e reforçam a panspermia.
DNA.

Esse modelo não está exatamente errado, mas Bennu mostrou que ele está incompleto. As novas evidências indicam que os blocos da vida não precisam, necessariamente, nascer em ambientes quentes, mas podem se formar no gelo, em condições extremamente frias, sob radiação gama.

Isso amplia radicalmente os cenários possíveis para a origem da vida, tanto na Terra quanto em outros mundos.

Bennu, fóssil do sistema solar e laboratório natural

Bennu é um asteroide de cerca de 500 metros de diâmetro, considerado um fóssil do sistema solar primitivo. Ele tem aproximadamente 4,6 bilhões de anos, a mesma idade da Terra, mas sua superfície não foi derretida nem remodelada por vulcanismo, placas tectônicas ou erosão intensa, como aconteceu por aqui.

Isso significa que Bennu preserva um registro muito mais fiel das condições químicas que existiam quando o sistema solar estava nascendo e a origem da vida ainda era uma possibilidade distante.

Antes mesmo das análises detalhadas recentes, estudos preliminares já haviam apontado uma abundância incomum de carbono, nitrogênio, água e compostos orgânicos em suas amostras. O novo passo foi olhar para a assinatura isotópica dos aminoácidos com lupa.

Aminoácidos no gelo: quando a origem da vida começa congelada

Ao estudar aminoácidos presentes em Bennu, especialmente a glicina, os pesquisadores notaram algo que não combinava com a explicação tradicional baseada em água quente.

A composição isotópica dessas moléculas não batia com o padrão esperado de processos de alteração aquosa, em que o gelo derrete, vira água líquida e reage com a rocha.

Em vez disso, as evidências apontam para outro caminho. Os dados sugerem que aminoácidos podem se formar diretamente no gelo, sem depender de água líquida, em ambientes congelados e permeados por radiação gama.

Nesse cenário, grãos de gelo misturados a moléculas simples seriam bombardeados por energia vinda de elementos radioativos presentes no início do sistema solar, gerando, passo a passo, estruturas orgânicas cada vez mais complexas.

Radiação gama como motor químico da origem da vida

O “combustível” desse processo seria a radiação gama emitida por elementos radioativos abundantes nas primeiras fases do sistema solar. A energia não viria do calor de um planeta jovem, mas da própria radioatividade presente nos materiais que se aglutinavam para formar asteroides.

Como esse processo ocorre em ambientes frios, muito antes de o asteroide aquecer o suficiente para manter água líquida, a origem da vida ganha uma nova rota: primeiro o gelo irradiado produz aminoácidos, depois esses materiais podem ser transportados para planetas em formação, onde vão encontrar oceanos, mares e outros ambientes favoráveis para avançar em complexidade.

Isso explica por que encontramos aminoácidos tanto em asteroides que passaram por aquecimento intenso quanto em corpos celestes que permaneceram relativamente frios.

Triptofano e blocos de DNA: um cardápio químico surpreendente

As amostras de Bennu não trouxeram apenas moléculas simples. As análises identificaram uma variedade de compostos mais complexos, entre eles o triptofano, um aminoácido essencial e estruturalmente mais sofisticado, fundamental para a vida terrestre.

Além disso, foram detectados componentes de DNA e RNA, bem como amônia e aminas, indicando um conjunto de ingredientes químicos muito mais rico do que o observado em meteoritos clássicos como o Murchison.

Em outras palavras, Bennu carrega um cardápio químico capaz de alimentar várias hipóteses sobre a origem da vida, mostrando que a química orgânica no espaço é mais diversa e robusta do que se imaginava.

Panspermia reforçada: a Terra semeada do espaço

Se aminoácidos e blocos de DNA e RNA podem se formar com relativa facilidade em grãos de gelo irradiados na nebulosa solar, isso significa que esses ingredientes básicos da origem da vida estavam espalhados pelo sistema solar antes mesmo de os planetas terminarem de se formar.

Bennu, um asteroide carbonáceo do tipo B, cheio desses compostos, sugere que a Terra não precisou “inventar” sozinha todos os tijolos da vida.

Durante o período de intenso bombardeio tardio, uma chuva de asteroides e meteoritos pode ter entregue à superfície terrestre um verdadeiro kit biológico pronto, um estoque de moléculas orgânicas pré-fabricadas no espaço profundo.

O que Bennu nos diz sobre nós mesmos

Quando olhamos para um grão de poeira de Bennu, não estamos apenas estudando um pedaço distante de rocha espacial.

Estamos olhando para possíveis ancestrais químicos que ajudaram a construir a origem da vida na Terra, em um processo que começou muito antes do primeiro oceano se formar e da primeira célula existir.

Esse tipo de descoberta também muda a forma como pensamos sobre vida em outros lugares. Se os blocos essenciais surgem com tanta facilidade em ambientes gelados sob radiação, então sistemas planetários inteiros podem ter sido semeados com matéria-prima biológica desde muito cedo.

E você, depois de saber que a origem da vida pode ter começado em grãos de gelo no espaço, acha mais provável encontrarmos sinais de vida em outros cantos do Universo?

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Carla Teles

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