Estudo com dados de 112 países mostra que hábitos alimentares de quase metade da população mundial já ultrapassam o limite de emissões compatível com a meta climática de 2 °C, indicando que mudanças na dieta são decisivas para conter o aquecimento global nas próximas décadas
Um estudo liderado pela Universidade da Colúmbia Britânica analisou emissões alimentares em 112 países e concluiu que 44% da população mundial precisará mudar hábitos alimentares para limitar o aquecimento global a 2 °C, percentual que pode chegar a 90% até 2050.
Impacto global das escolhas alimentares nas emissões
As escolhas alimentares exercem influência direta sobre as mudanças climáticas, segundo a pesquisa conduzida pelo Dr. Juan Diego Martinez durante seu doutorado no Instituto de Recursos, Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade da Colúmbia Britânica.
O estudo destaca que os sistemas alimentares respondem por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana.
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A análise indica que 44% da população mundial já ultrapassa o limite de emissões alimentares compatível com a meta climática de manter o aquecimento abaixo de 2 °C.
O número cresce significativamente quando consideradas projeções futuras, alcançando aproximadamente 90% da população global até 2050, devido ao aumento contínuo das emissões e do crescimento populacional.
Metodologia baseada em dados de 112 países
Os pesquisadores utilizaram dados de 112 países, responsáveis por 99% das emissões globais de gases de efeito estufa relacionadas à alimentação.
Em cada país, a população foi dividida em dez grupos de renda, permitindo avaliar desigualdades no consumo alimentar e suas respectivas emissões associadas.
Para cada pessoa, foi calculado um orçamento de emissões alimentares que combinou emissões do consumo direto de alimentos, da produção global de alimentos e das cadeias de suprimentos. Esses valores foram comparados com o limite máximo de emissões que o planeta pode suportar para manter o aquecimento global abaixo de 2 °C.
Concentração das emissões entre grandes consumidores
O estudo revelou que os 15% mais ricos em emissões relacionadas à alimentação são responsáveis por 30% do total das emissões alimentares globais.
Esse volume equivale às emissões combinadas produzidas pelos 50% mais pobres da população mundial.
Esse grupo de alta emissão inclui indivíduos mais ricos em países com elevadas emissões alimentares, como Brasil e Austrália, além de nações menos associadas ao alto consumo.
Apesar disso, o problema não se limita aos grupos mais ricos, pois dietas acima do limite recomendado estão disseminadas em diversos segmentos da sociedade.
Situação específica do Canadá e projeções futuras
No Canadá, a situação se mostra particularmente crítica. Segundo o estudo, todos os dez grupos de renda do país apresentam emissões alimentares acima do limite recomendado para a meta de 2 °C.
Isso significa que, independentemente da faixa de renda, os padrões alimentares atuais contribuem excessivamente para o aquecimento global.
Martinez ressalta que os resultados são conservadores, pois se baseiam em dados de 2012. Desde então, tanto as emissões de gases de efeito estufa quanto a população global continuaram a crescer, reforçando a necessidade de mudanças mais amplas e urgentes nos hábitos alimentares.
Por que a dieta é central no debate climático
Embora debates sobre redução de voos, adoção de carros elétricos e diminuição do consumo de bens de luxo sejam relevantes, o estudo argumenta que a alimentação ocupa papel central por ser uma necessidade universal.
Diferentemente de viagens aéreas ou consumo de produtos caros, todos precisam comer diariamente.
As emissões da produção de alimentos, portanto, não são um problema restrito aos mais ricos. Globalmente, cerca de metade da população precisa alterar seus hábitos alimentares, tornando a dieta um dos campos mais amplos de ação individual possível para mitigar as mudanças climáticas.
Redução do desperdício alimentar como estratégia
Uma das principais recomendações do estudo é reduzir o desperdício alimentar. Comer apenas o necessário e reaproveitar sobras diminui as emissões de carbono associadas à produção de alimentos, além de reduzir o tempo dedicado ao preparo das refeições e simplificar o cotidiano alimentar.
A redução do desperdício é apresentada como uma medida prática, acessível e de impacto imediato, capaz de contribuir para a diminuição das emissões sem exigir mudanças radicais no curto prazo. Mesmo assim, os autores enfatizam que essa ação isolada não é suficiente.
Papel central da carne bovina nas emissões
Outro ponto destacado é a necessidade de reduzir o consumo de carne bovina. No Canadá, a carne bovina sozinha representa 43% das emissões relacionadas à alimentação de uma pessoa média, tornando-se o principal fator individual de impacto climático na dieta.
Martinez observa que, se os compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto tivessem sido plenamente cumpridos, o consumo de carne bovina talvez não fosse um desafio tão grande atualmente.
Nesta fase, porém, a redução das emissões alimentares tornou-se indispensável para evitar os piores impactos climáticos.
Desafios culturais e evidências científicas
O pesquisador reconhece que mudar hábitos alimentares, especialmente relacionados ao consumo de carne bovina, é um desafio cultural significativo. Ele relata ter crescido na América Latina, onde o consumo elevado de carne bovina é parte integrante da cultura alimentar.
Mesmo diante dessas dificuldades, Martinez enfatiza que as evidências científicas são claras e não podem mais ser ignoradas. A manutenção dos padrões atuais de consumo compromete a possibilidade de atingir as metas climáticas estabelecidas internacionalmente.
Escolhas individuais e efeitos sistêmicos
O estudo incentiva as pessoas a “votar com o garfo”, destacando que escolhas individuais funcionam como ponto de partida para mudanças mais amplas.
À medida que mais pessoas adotam e discutem dietas com menor impacto climático, cresce a pressão para que líderes políticos apoiem políticas voltadas à transformação dos sistemas alimentares.
Segundo os autores, a mudança nos hábitos alimentares pode gerar efeitos em cadeia, influenciando decisões políticas, práticas industriais e estratégias de produção.
Mesmo pequenas alterações cotidianas, quando adotadas em larga escala, têm potencial para reduzir significativamente as emissões globais associadas à alimentação, apesar de ainda haver resistêcia cultural em muitos países.
Este artigo foi elaborado com base no estudo “As emissões de GEE provenientes da dieta de 2,7 bilhões de pessoas já excedem a pegada de carbono pessoal necessária para atingir a meta climática de 2 °C”, de Juan Diego Martinez e Navin Ramankutty, publicado em 11 de novembro de 2025 na revista Environmental Research: Food Systems, DOI 10.1088/2976-601X/ae10c0.

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