A receita ficou praticamente estável em US$ 66,7 bilhões, só que o lucro ajustado veio abaixo do esperado e a empresa respondeu com dividendos maiores e mais US$ 3,5 bilhões em recompra
Quando uma gigante como a Shell solta um lucro líquido de US$ 4,1 bilhões em um trimestre, a leitura rápida é “ótimo, caixa forte”. Só que o número, sozinho, não conta a história inteira. O quarto trimestre de 2025 veio com lucro bem acima do mesmo período de 2024, mas com sinais claros de que a empresa está operando num modo mais pragmático: menos romantismo com margens, mais obsessão por eficiência, portfólio enxuto e retorno direto ao acionista.
No 4T 2025, a Shell reportou lucro líquido de US$ 4,1 bilhões, ou US$ 0,71 por ação diluída. Um ano antes, tinha sido US$ 928 milhões, ou US$ 0,15 por ação diluída.
É uma virada considerável. Só que, quando entra o lucro ajustado na conversa, o tom muda: foram US$ 3,3 bilhões no trimestre, queda de 11% na comparação anual e também abaixo do que analistas esperavam, em torno de US$ 3,5 bilhões.
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A receita total quase não mexeu: US$ 66,7 bilhões no 4T 2025 contra US$ 66,8 bilhões no 4T 2024. Isso é o tipo de estabilidade que parece “ok” por fora, mas que acende um alerta por dentro: se a receita fica igual e o resultado ajustado cai, alguma combinação de preços, margens e mix de negócios está cobrando pedágio.
O lucro subiu, mas o lucro ajustado deu aquela torcida no nariz
Uma parte do lucro atribuível aos acionistas veio de ganhos com alienação de ativos, especialmente ligados à criação da joint venture Adura no Reino Unido, mas houve compensações por baixas contábeis.
Em termos práticos, é o retrato clássico de um trimestre em que a empresa faz movimentos estratégicos e colhe efeitos contábeis, só que não dá para confundir isso com melhora estrutural do core.
E aí entram dois indicadores que ajudam a entender o “peso” do trimestre. O primeiro é o EBITDA ajustado, que ficou em US$ 12,7 bilhões no 4T 2025, abaixo dos US$ 14,2 bilhões do mesmo trimestre de 2024.
O segundo é o gasto total do período: US$ 59,8 bilhões, menor que os US$ 62,6 bilhões do 4T 2024. Ou seja, o custo caiu, mas não o suficiente para segurar a pressão em lucros ajustados diante de um cenário de margens e preços menos favoráveis.
No meio desse pacote, a empresa ainda fez o que o mercado adora quando não tem festa garantida no operacional: devolveu dinheiro. A Shell concluiu um programa de recompra de ações de US$ 3,5 bilhões anunciado no 3T 2025 e já emendou outro programa, também de US$ 3,5 bilhões. A mensagem é simples: “o caixa está firme e a disciplina segue”.
Segundo o site Offshore Technology, o trimestre também veio com lucro ajustado abaixo das expectativas, mesmo com a receita praticamente estável, reforçando a leitura de que o motor do resultado ficou mais dependente de decisões de portfólio e eficiência do que de um vento macro a favor.
O ano inteiro de 2025 mostra onde a Shell apertou e onde ainda dói
No acumulado de 2025, a Shell reportou lucro líquido de US$ 18,1 bilhões, acima dos US$ 16,5 bilhões de 2024. Só que o caminho até esse número teve pontos de atrito bem definidos.
A empresa atribuiu impacto negativo principalmente à queda nos preços realizados de líquidos e de gás natural liquefeito, à redução das receitas de comercialização e otimização e à piora das margens no segmento químico.
Por outro lado, o lado “antídoto” aparece em três frentes que costumam salvar trimestre quando o macro não ajuda.
Houve maiores volumes de vendas, menores despesas operacionais, mudanças tributárias favoráveis e margens melhores em marketing.
É aquela combinação que não faz barulho como um pico de preço do barril, mas segura o resultado no osso.
A receita total da empresa em 2025 ficou em US$ 273,7 bilhões, abaixo dos US$ 289,1 bilhões de 2024. Já o EBITDA ajustado do ano foi de US$ 56,1 bilhões, contra US$ 65,8 bilhões no ano anterior.
E as despesas totais do ano caíram para US$ 243,9 bilhões, vindo de US$ 259,1 bilhões em 2024. O desenho que aparece é este: menos receita, menos EBITDA, mas também menos gasto. E aí o que decide o placar é execução e foco.
Além disso, 2025 foi um ano de movimentos grandes no portfólio. A Shell saiu de operações em terra na Nigéria, de ativos em areias betuminosas no Canadá e também de refinaria e químicos em Singapura.
Ao mesmo tempo, reforçou gás integrado e exploração e produção com a aquisição da Pavilion e aumentou participação em ativos de águas profundas.
Isso não é detalhe de rodapé. É a empresa escolhendo onde quer ser forte e onde não quer mais gastar energia.
O CEO Wael Sawan resumiu o ano como um período de impulso acelerado, destacando fluxo de caixa livre de US$ 26 bilhões, progresso na simplificação do portfólio e economia de custos de US$ 5 bilhões desde 2022, além de mais cortes no radar.
No quarto trimestre, mesmo com lucros menores num cenário macro mais fraco, a empresa manteve geração de caixa sólida e anunciou aumento de 4% nos dividendos junto com a recompra de US$ 3,5 bilhões, marcando o 17º trimestre consecutivo com pelo menos US$ 3 bilhões em recompras.
No fim, a leitura mais honesta é que a Shell entregou lucro forte no trimestre e melhorou no ano, mas não está “nadando em céu de brigadeiro”.
Está jogando o jogo da disciplina, cortando onde não rende, reforçando onde tem vantagem e devolvendo caixa para segurar confiança enquanto o ambiente de preços e margens continua exigente.

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