Em Centralia, nos EUA, um incêndio subterrâneo iniciado em 1962 queima carvão até hoje, libera gases tóxicos, afunda o solo e levou ao abandono quase total da cidade.
Desde 1962, a pequena cidade de Centralia, no estado da Pensilvânia (Estados Unidos), vive sobre um fenômeno extremo e raro: um incêndio subterrâneo em veios de carvão que nunca foi apagado. O fogo arde de forma contínua há mais de seis décadas, liberando gases tóxicos, aquecendo o solo a temperaturas perigosas e tornando a ocupação humana praticamente impossível.
Centralia se tornou um dos casos mais documentados do mundo de incêndio subterrâneo em carvão, estudado por universidades, agências ambientais e engenheiros de mineração. O episódio não apenas destruiu a cidade, como se transformou em um alerta global sobre os riscos de mineração abandonada e gestão inadequada do subsolo.
Onde fica Centralia e por que havia carvão sob a cidade
Centralia está localizada no coração da região carbonífera da Pensilvânia, uma das áreas mais ricas em carvão dos Estados Unidos desde o século XIX. A cidade foi construída diretamente sobre extensos veios de antracito, um tipo de carvão mineral de alto poder calorífico.
-
A vila brasileira única onde não tem asfalto, energia elétrica quase não chega, carro não entra e a luz da Lua vira atração entre dunas e ruas de areia, chamando a atenção de mais 1,5 milhão de turistas por ano
-
Em pleno interior paulista, uma cidade que já foi lar de dinossauros chama a atenção do mundo: o “Jurassic Park” com mais de mil pegadas de dinossauro fossilizadas de 135 milhões de anos é algo realmente fascinante
-
A CIA construiu em segredo o Glomar Explorer, o maior navio de mineração do mundo, usou o bilionário Howard Hughes como fachada e tentou levantar do fundo do Pacífico, a quase 5.000 metros de profundidade, um submarino nuclear soviético de 1.700 toneladas em uma das operações mais audaciosas da Guerra Fria
-
Quanto custa construir uma casa de 100 m² em 2026
Durante décadas, a economia local girou em torno da mineração. Quando as minas foram sendo abandonadas, quilômetros de túneis subterrâneos ficaram vazios, mal vedados e conectados entre si — criando o cenário perfeito para um desastre.
Como o incêndio começou em 1962
O incêndio teve início em maio de 1962, durante uma queima de lixo em um antigo lixão municipal, prática comum à época. O fogo, aparentemente controlado, acabou alcançando uma fissura que se conectava aos veios de carvão subterrâneos.
A partir desse momento, o incêndio deixou de ser superficial e passou a se alimentar diretamente do carvão, espalhando-se pelos túneis abandonados. Diferente de um incêndio comum, o fogo subterrâneo:
- não pode ser combatido com água comum
- se desloca horizontalmente por quilômetros
- pode descer dezenas de metros de profundidade
- reaparece em pontos distantes do foco inicial
Por que o fogo nunca conseguiu ser apagado
Ao longo das décadas, foram tentadas diversas estratégias técnicas, incluindo:
- escavação de trincheiras de contenção
- injeção de argila e cinzas para sufocar o oxigênio
- inundação de túneis
- isolamento de áreas críticas
Nenhuma delas funcionou de forma definitiva.
O principal problema é que o incêndio está conectado a um sistema extenso de veios de carvão, com circulação natural de ar. Enquanto houver combustível e oxigênio, o fogo continua ativo.
Estudos do U.S. Geological Survey indicam que o incêndio pode durar mais de 100 anos, devido à enorme quantidade de carvão ainda disponível no subsolo.
Temperaturas extremas e solo instável
Em diversos pontos de Centralia, medições registraram:
- temperaturas acima de 400 °C logo abaixo da superfície
- emissão contínua de monóxido de carbono, dióxido de carbono e metano
- rachaduras no solo e crateras de colapso súbito
O calor intenso altera a estrutura do terreno. À medida que o carvão queima, vazios se formam no subsolo, causando afundamentos imprevisíveis. Estradas literalmente cederam e abriram buracos, obrigando o fechamento permanente de vias.
Gases tóxicos e risco à vida humana
O maior perigo não é visível. O incêndio libera gases inodoros e letais, principalmente o monóxido de carbono. Em concentrações elevadas, ele pode causar:
- tontura e confusão em minutos
- perda de consciência
- morte por asfixia
Sensores instalados ao longo dos anos detectaram níveis capazes de matar uma pessoa rapidamente em ambientes fechados. Esse fator foi decisivo para classificar Centralia como zona de risco permanente.
O abandono gradual de uma cidade inteira
Nos anos 1980, o governo federal concluiu que não havia solução técnica viável para extinguir o incêndio. A alternativa passou a ser retirar as pessoas da área.
Moradores receberam indenizações e realocação. Casas foram demolidas, escolas fechadas, serviços públicos encerrados. Em 2002, o CEP da cidade foi oficialmente extinto, um marco simbólico do fim de Centralia como município funcional.
De uma população que chegou a ultrapassar 1.000 habitantes, hoje restam menos de 10 pessoas, vivendo de forma isolada, em meio a ruas vazias e terrenos abandonados.
Centralia como símbolo global de incêndios subterrâneos
O caso ganhou repercussão internacional e passou a ser citado em estudos acadêmicos, relatórios ambientais e livros de engenharia. Ele ilustra um problema que também ocorre em outros países, como China, Índia e Austrália, onde incêndios em carvão já queimam há séculos.
Centralia se tornou um laboratório vivo, mostrando que certos erros humanos podem gerar consequências que ultrapassam gerações.
Um fogo que ninguém conseguiu vencer
Mais do que uma curiosidade, Centralia é um lembrete brutal dos limites da engenharia diante da natureza quando o subsolo é negligenciado.
O fogo que começou em 1962 continua ativo até hoje, invisível, silencioso e impossível de apagar com as tecnologias atuais.
Enquanto houver carvão sob a cidade, o incêndio continuará queimando.

Seja o primeiro a reagir!