Baseado em pesquisa histórica e mobilização comunitária iniciada em 2005, o resgate de um sistema indígena pré-inca com cerca de 250 lagoas artificiais no Cerro Pisaca permitiu armazenar água da chuva, recarregar aquíferos e garantir abastecimento contínuo em uma das regiões mais secas do sul do Equador
O sistema indígena de 250 lagoas artificiais no Cerro Pisaca, recriado a partir de 2005 em Catacocha, no sul do Equador, permite armazenar até 182.482 metros cúbicos de água da chuva, garantindo abastecimento contínuo, produção agrícola estável e recarga de aquíferos em uma das regiões mais secas da província de Loja.
Um território marcado pela escassez histórica de água
Catacocha, pequena cidade no distrito de Paltas, convive historicamente com um clima extremamente seco, altas temperaturas e chuvas concentradas em apenas dois meses do ano. Entre janeiro e fevereiro ocorre praticamente todo o regime pluviométrico anual da região.
Fora desse curto período, a ausência de precipitações era quase absoluta. Em anos excepcionais, podia chover em março. Em abril, isso já era considerado extraordinário. Durante o restante do ano, a paisagem permanecia árida, com solos ressecados e reservas hídricas rapidamente esgotadas.
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Essa realidade afetava diretamente a vida cotidiana. Em comunidades como San Vicente del Río, localizada nas montanhas de Catacocha, o acesso à água chegou a ser limitado a apenas uma ou duas horas diárias nos períodos mais críticos.
As famílias organizavam suas rotinas em função desse racionamento. A água disponível servia apenas para cozinhar e beber. Para lavar roupas ou utensílios, era necessário caminhar até um riacho ou até o rio mais próximo.
O trajeto até o riacho levava cerca de 15 minutos. Para o rio, o percurso podia chegar a uma hora de caminhada, dependendo do ritmo de cada pessoa. Em anos de seca mais intensa, nem mesmo essas fontes ofereciam volume suficiente.
Vida cotidiana sob racionamento severo
Rosa Imelda Arias vive em San Vicente del Río, em uma casa de adobe e telhas, como muitas outras da comunidade. Ao longo dos anos, diversas residências foram abandonadas, pois seus moradores migraram para áreas urbanas em busca de melhores condições.
A fachada da casa de Arias foi transformada em um jardim repleto de plantas cultivadas em pequenos vasos plásticos. O espaço colorido contrasta com a paisagem seca ao redor e foi construído ao longo de 15 anos.
Durante o período mais crítico da escassez, Arias lembra que a água chegava apenas por quatro horas diárias, divididas entre manhã e noite. Mesmo assim, havia ocasiões em que o fornecimento era ainda mais restrito.
Segundo ela, antes da recuperação do sistema hídrico nas montanhas, “não havia água suficiente”. A dependência de fontes distantes fazia parte da rotina e limitava qualquer atividade agrícola ou criação de animais.
A situação começou a mudar quando a comunidade passou a se referir à água que vinha “de lá em cima”, uma expressão usada para indicar o Cerro Pisaca, local onde o sistema indígena foi gradualmente recuperado.
A recuperação de um conhecimento pré-inca
Desde 2005, moradores de Catacocha vêm recriando um sistema de coleta, armazenamento e distribuição de água concebido pelos Paltas, um povo indígena que habitava a região há mais de mil anos, no período pré-incaico.
O sistema é composto por 250 lagoas artificiais escavadas na montanha, projetadas para captar água da chuva, controlar sua infiltração e recarregar os aquíferos subterrâneos de forma gradual e contínua.
Graças a esse método, comunidades localizadas em áreas classificadas como desérticas passaram a ter água disponível durante todo o ano, inclusive nos meses de seca extrema, além de colheitas mais abundantes e animais bem nutridos.
Rosa Imelda Arias afirma que, após a implementação do sistema, o fornecimento passou a ser contínuo. Hoje, ela mantém galinhas, porcos e uma horta nos fundos da casa, com cultivo de laranjas, tangerinas, bananas e plantas medicinais.
Entre essas plantas está a parietária, utilizada por ela para aliviar dores de estômago. Esse tipo de cultivo era inviável antes da recuperação do sistema, devido à irregularidade no acesso à água.
Mudança perceptível na rotina das comunidades
A percepção da transformação é compartilhada por outros moradores. Rosaura Cobos, que trabalha em um pequeno mercado em San Vicente del Río, relata que antes o fornecimento era alternado entre setores da comunidade.
Um dia, a água chegava às casas mais baixas. No outro, às áreas mais altas. Em ambos os casos, o abastecimento durava apenas algumas horas. Atualmente, segundo ela, a água está disponível o dia inteiro.
No momento do relato, próximo ao meio-dia, o sol estava intenso, a poeira dominava o ambiente e o vento era constante. Ainda assim, a presença de água corrente tornava a vida cotidiana mais estável.
A diferença mais significativa está no armazenamento subterrâneo. A infiltração controlada permite que a água captada em apenas dois meses de chuvas dure até o início do ano seguinte, quando novas precipitações ocorrem.
Mesmo em agosto, considerado o auge da seca, algumas lagoas ainda mantêm volume suficiente para sustentar o sistema até janeiro, garantindo continuidade no abastecimento.
A investigação histórica que mudou o cenário
Quando questionados sobre a origem dessa transformação, moradores frequentemente mencionam “o historiador”. Trata-se de Galo Ramón, natural de Catacocha, que cresceu ouvindo a lenda de Torito Cango e histórias sobre lagoas consideradas perigosas.
Segundo a tradição oral, algumas lagoas eram evitadas por serem associadas a cobras ou a eventos sobrenaturais. Essas narrativas persistiram por gerações e contribuíram para o abandono gradual das estruturas.
Ramón estudou história em Quito e, embora tenha permanecido na capital, manteve o interesse em encontrar soluções para a seca em sua cidade natal. Para ele, a água sempre foi um problema central na região.
Durante uma investigação documental, encontrou registros de um conflito de terras ocorrido em 1680 entre as comunas de Coyana e Catacocha e um proprietário chamado Hortensio Celi. A disputa envolvia uma lagoa localizada em Pisaca.
Os documentos não indicavam o vencedor da disputa, mas continham um desenho detalhado da lagoa. Ao analisar a imagem, Ramón percebeu que não se tratava de uma lagoa alimentada por uma bacia hidrográfica.
Pelo contrário, a lagoa parecia ser o elemento que permitia a existência de bacias hidrográficas em níveis mais baixos. A partir dessa observação, ele concluiu que a água armazenada vinha diretamente das chuvas.
O entendimento do sistema hidrológico dos Paltas
Ramón identificou que outras colinas da região também possuíam lagoas semelhantes, acompanhadas de lendas próprias. Embora diferentes em detalhes, essas histórias apresentavam estruturas narrativas semelhantes.
Segundo ele, os Paltas desenvolveram o sistema por reconhecerem a recorrência de secas severas. As chuvas, embora escassas em número de dias, eram torrenciais e concentradas.
Em apenas dois meses, podiam cair até 700 milímetros de chuva. Para lidar com esse padrão, era necessário aproveitar ao máximo cada grande aguaceiro, armazenando a água e controlando sua infiltração no solo.
O objetivo era recarregar os aquíferos subterrâneos de forma gradual, evitando perdas por escoamento superficial. Pequenos muros de contenção e reservatórios de pedra próximos aos pomares complementavam o sistema.
Esses reservatórios permitiam a irrigação controlada das áreas agrícolas, garantindo produção mesmo em longos períodos sem chuva. O sistema funcionava como uma rede integrada de captação, armazenamento e redistribuição.
Estimativas sobre a origem do sistema
Não foi possível determinar com precisão quando o sistema foi criado. No entanto, Ramón estima que seu desenvolvimento ocorreu por volta do ano 900 da nossa era.
Essa estimativa se baseia no fato de que o crescimento mais significativo do povo Palta ocorreu após o ano 500. O aperfeiçoamento do sistema teria sido gradual, ao longo de séculos.
Para identificar os locais ideais para as lagoas, os Paltas observavam o que Ramón chama de “linha verde”. Mesmo em agosto ou setembro, algumas plantas de raízes profundas resistiam à seca.
Essas plantas indicavam a presença de aquíferos subterrâneos. Foi nesses pontos que as lagoas foram construídas, maximizando a eficiência da infiltração e da recarga hídrica.
Abandono e desaparecimento das lagoas
Com a chegada do período colonial, as lagoas começaram a secar gradualmente. Forçadas por conquistadores e pela imposição de uma nova religião, as comunidades deixaram de utilizá-las.
A primeira lagoa a desaparecer foi a de Catacocha, em 1605, exatamente onde a cidade foi fundada. Segundo os registros de Ramón, a última a secar foi a lagoa de Pisaca, que ainda continha água há cerca de 80 anos.
Os Paltas realizavam oferendas e rituais ligados às lagoas, práticas que não foram descritas em registros escritos. Para os espanhóis, especialmente os padres, esse culto era visto como uma ameaça.
Para combatê-lo, foram difundidos mitos de que as lagoas eram diabólicas, habitadas por cobras, capazes de engravidar mulheres ou provocar assassinatos de homens que se aproximassem.
Ao mesmo tempo, a água passou a ser apresentada como um presente de uma divindade associada à nova religião, condicionando a chuva à oração e não ao manejo do território.
A criação de um novo mito como estratégia comunitária
Ao compreender o funcionamento e a história do sistema, Galo Ramón concluiu que era necessário reaplicar o conhecimento dos Paltas. Em 2005, tentou convencer os moradores a recuperar as lagoas.
A recepção inicial foi fria. A população era majoritariamente idosa, com poucos jovens, e não demonstrava entusiasmo com a proposta. A ideia parecia distante e pouco prática.
Diante disso, Ramón decidiu criar uma nova narrativa. Ele escreveu uma história chamada “O retorno de Torito Cango”, descrita por ele como um mito ao contrário.
Na nova versão, o touro retornaria se as pessoas criassem novamente lagoas com pasto adequado. A água voltaria quando as condições corretas fossem restauradas.
Essa narrativa despertou o interesse da comunidade e facilitou o início do processo de recuperação. A primeira lagoa reabilitada ficou conhecida como lagoa das serpentes.
A construção das novas lagoas
Galo Ramón lidera a Fundación Comunidec, uma organização dedicada à defesa da água, dos direitos humanos e da cultura. Com apoio de cooperação internacional, moradores locais participaram de uma grande minga comunitária.
Em cinco anos, além de reabilitar as duas maiores lagoas originais, foram construídas outras 248, totalizando 250 lagoas artificiais em funcionamento.
Algumas lagoas foram escavadas com retroescavadeiras. Outras foram feitas manualmente para minimizar impactos ambientais e proteger o ecossistema local.
O processo envolve a remoção da camada superficial do solo, cerca de 30 centímetros, que é reservada para posterior reposição. A cavidade da lagoa tem formato semelhante a uma colher, e não a uma piscina profunda.
Após a escavação, o solo orgânico é recolocado e semeado com grama-bermuda, uma espécie hidrofílica que permite a filtração controlada da água.
Vistas de cima, as lagoas formam um sistema semelhante a arquibancadas. As duas maiores, localizadas no centro, captam a água da chuva e iniciam o processo de infiltração em cascata.
Capacidade de armazenamento e dados técnicos
As 28 lagoas mais próximas do Cerro Pisaca, na área conhecida como “a reserva”, têm capacidade total de armazenamento de 182.482 metros cúbicos, o equivalente a 48,2 milhões de galões.
A maior lagoa do sistema comporta 78.422 metros cúbicos, ou 20,7 milhões de galões. A menor, localizada em propriedade privada, tem capacidade de apenas 143 metros cúbicos, ou 37.700 galões.
Esses dados constam no livro Ecohidrologia e sua implementação no Equador, publicado com apoio da UNESCO, do programa de ecohidrologia, da prefeitura de Paltas e da Ingeraleza.
A infiltração gradual garante que a água reapareça mais abaixo, em fontes naturais, alimentando comunidades e áreas agrícolas ao longo do ano.
Conservação, reflorestamento e gestão territorial
Em dezembro de 2010, a organização Nature and Culture International adquiriu, por US$ 160.000, uma área de 406 hectares ao redor de Pisaca, formando a chamada reserva.
O objetivo foi garantir a conservação do território, retirar o gado da floresta e possibilitar o reflorestamento, criando condições adequadas para a coleta e distribuição de água.
Segundo José Romero, engenheiro agrônomo e porta-voz da organização, Pisaca é um dos centros mais importantes da cultura Palta e o local onde o sistema foi desenvolvido e aperfeiçoado.
A retirada do gado permitiu avanços significativos na recuperação da cobertura vegetal e na manutenção permanente das lagoas, assegurando a eficácia da infiltração.
Os primeiros trabalhos de semeadura ocorreram em 12 de fevereiro de 2011, com sementes provenientes de um viveiro comunitário. Em 2012, conselhos de água e um clube ecológico escolar se uniram ao esforço.
O reflorestamento ocorreu por semeadura ativa, enriquecimento de áreas em recuperação e regeneração natural em zonas isoladas para impedir a entrada de animais.
Ao todo, 240 dos 406 hectares foram alvo de intervenção. Destes, 40 hectares ficaram sob responsabilidade direta da Nature and Culture International e 200 hectares sob a Mancomunidad Bosque Seco.
Entre 2011 e 2020, foram semeadas pelo menos 40.000 plantas. Destas, cerca de 12.000 sobreviveram. A mortalidade variou entre 50% e 60%, devido às condições do solo.
As espécies escolhidas incluíram alfarrobeira, nogueira, figueira e outras árvores nativas, além de espécies de sucessão primária que auxiliam na filtragem da água.
Reconhecimento institucional e desafios futuros
Em 2013, o município de Paltas declarou a área das lagoas como zona de conservação e uso sustentável, reconhecendo sua importância para o abastecimento de Catacocha.
Em 2018, o Programa Hidrológico Internacional da UNESCO incluiu o local em sua lista de sítios de demonstração em eco-hidrologia, como exemplo de solução aplicada a problemas sociais e ambientais.
Atualmente, existem nove sítios desse tipo na América Latina e no Caribe, sendo dois no Equador, dois na Colômbia e um no Brasil, Argentina, Chile, Costa Rica e Bahamas.
Apesar do sucesso, há preocupação com o futuro. O próximo objetivo é que o Ministério do Meio Ambiente declare a área como Área de Proteção Hídrica.
Isso impediria mudanças no uso do solo e proibiria atividades extrativas. A urgência se deve à existência de uma concessão de mineração concedida à empresa australiana Titan Minerals.
Segundo informações da revista Minergía, o principal projeto da empresa é o de ouro Dynasty, com recursos estimados em 2,1 milhões de onças e teor de 4,5 gramas por tonelada.
O Ministério do Meio Ambiente confirmou que a declaração está em andamento e que, se efetivada, Pisaca integrará o Sistema Nacional de Áreas Protegidas, formalizando sua conservação.
Impacto direto na vida das famílias
Para moradores como Antonio Díaz, de 85 anos, o sistema representa estabilidade e autonomia. Ele vive em Santa Gertrudis, outra vila no sopé do Cerro Pisaca.
Todas as manhãs, às 6h, Díaz sobe a colina em seu burro para verificar a lagoa que irriga sua propriedade. Ele ajusta os aspersores e garante a hidratação de toda a colheita.
Antes, conseguia cultivar apenas duas fileiras pequenas. Hoje, semeia até 10 fileiras, mantendo produção constante mesmo na seca. A água, segundo ele, é a coisa mais importante.
Em sua horta, cultiva verduras, café, bananas, mandioca, milho, amendoim e feijão. Parte da produção é consumida pela família, e o excedente é vendido no mercado local.
Díaz afirma ganhar cerca de US$ 70 por mês com essas vendas. Ele também cria galinhas, porcos, vacas, um burrinho e dezenas de porquinhos-da-índia que circulam livremente pela casa.
Apesar da idade, ele mantém uma rotina intensa de trabalho. Após cuidar da irrigação, precisa capinar o terreno e alimentar os animais. “Não tenho tempo suficiente no dia”, diz, sempre sorrindo.
O sistema recuperado transformou a relação dessas comunidades com a água, permitindo que uma região historicamente marcada pela escassez mantenha hoje um abastecimento contínuo, mesmo sob condições climáticas extremas.
Fonte: Mongabay

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