Análise de amostras do lado oculto da Lua, coletadas pela missão Chang’e-6 em 2024, identificou nanotubos de carbono de parede única formados naturalmente, contrariando a visão dominante de que essas nanoestruturas só poderiam surgir em ambientes laboratoriais altamente controlados e abrindo novas perspectivas para o uso de recursos lunares
Pesquisadores da Universidade de Jilin identificaram nanotubos de carbono de parede única em amostras de solo coletadas no lado oculto da Lua pela missão chinesa Chang’e-6, em 2024, evidência inédita de que essas nanoestruturas avançadas podem se formar naturalmente em ambientes extremos.
Evidência inédita em amostras lunares da missão Chang’e-6 no lado oculto da lua
Até essa análise do lado oculto da lua, prevalecia o entendimento de que nanotubos de carbono de parede única só poderiam ser produzidos em ambientes controlados de laboratório, devido à complexidade estrutural desses cilindros com espessura de um único átomo.
A descoberta altera esse pressuposto ao demonstrar que processos naturais também são capazes de gerar tais estruturas.
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O jornal South China Morning Post noticiou que se trata da primeira evidência definitiva de que a natureza pode construir, por conta própria, nanotubos de carbono de parede única, considerados até então inalcançáveis sem intervenção humana.
No artigo científico, os pesquisadores afirmam que o estudo apresenta a primeira identificação de carbono grafítico em amostras lunares coletadas pela missão Chang’E-6, observadas por múltiplas técnicas de espectroscopia e microscopia em locais idênticos das amostras analisadas.
Condições lunares extremas e formação violenta das nanoestruturas
Os nanotubos de carbono foram sintetizados pela primeira vez em laboratórios terrestres na década de 1990, sempre associados a processos altamente controlados.
Na Terra, sua criação exigia câmaras de vácuo, controle preciso de temperatura e catalisadores metálicos específicos, como níquel ou cobalto.
Esses materiais são conhecidos por sua elevada resistência mecânica e alta condutividade elétrica, características que os tornam essenciais para tecnologias avançadas, incluindo telas sensíveis ao toque e baterias de alta eficiência, entre outras aplicações industriais.
Na Lua, entretanto, os nanotubos identificados se formaram por um processo violento e espontâneo. Segundo o estudo, a formação provavelmente foi desencadeada pelo calor intenso gerado por impactos de micrometeoritos, atividade vulcânica antiga e pela constante irradiação do vento solar sobre a superfície lunar.
De acordo com os pesquisadores, especificamente os nanotubos de carbono de parede única foram formados por impactos de micrometeoritos combinados a um processo de catálise impulsionado por ferro, associado a atividades vulcânicas iniciais e à exposição contínua ao vento solar na superfície da Lua.
Microscopia de alta resolução e o papel dos impactos de micrometeoritos
Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram microscopia de alta resolução, identificando nanotubos de carbono de parede única em fragmentos extremamente pequenos de solo lunar, concentrados principalmente ao redor de cicatrizes deixadas por impactos de micrometeoritos.
Essas estruturas se formaram quando impactos de altíssima velocidade vaporizaram carbono proveniente do vento solar e de meteoritos.
Durante o resfriamento rápido desse gás, partículas locais de ferro atuaram como catalisadores, ligando os átomos de carbono em forma de tubos, e não em fuligem comum, como ocorre em outros contextos.
Já era conhecido que nanotubos de carbono multicamadas podem ocorrer naturalmente na Terra, em ambientes como carvão, gelo e cinzas de incêndio, formados por resfriamento rápido. No entanto, acreditava-se por muito tempo que suas versões de parede única, mais simples e delicadas, eram impossíveis de se formar sem controle humano direto.
Uso de recursos lunares e implicações para a exploração espacial
A presença desses nanotubos no solo lunar demonstra que ambientes espaciais extremos podem atuar como verdadeiras nanofábricas naturais. Essa constatação abre caminho para o uso de recursos lunares na produção de materiais avançados voltados à exploração do espaço profundo, reduzindo a dependência de insumos transportados da Terra.
Caso esses nanotubos já estejam disponíveis naturalmente no solo lunar, futuros colonizadores poderão dispensar o transporte de sensores caros ou componentes de baterias, aproveitando materiais locais para a construção de sistemas eletrônicos no próprio ambiente lunar, o que pode baratear missões e ampliar sua autonomia.
Os próprios autores destacam que o carbono detectado e o mecanismo de formação identificado elucidam uma possível aplicação in situ do solo lunar, estabelecendo bases concretas para o uso de recursos locais na exploração espacial de longo alcance.
Segundo relatos associados ao estudo, a descoberta ocorre após a identificação anterior de grafeno lunar pela mesma equipe, reforçando a ideia de que a superfície da Lua é quimicamente mais dinâmica do que se pensava anteriomente.
Além disso, compreender como a natureza sintetiza esses materiais no lado oculto da lua em condições adversas pode oferecer aos engenheiros novas referências para desenvolver métodos mais baratos e eficientes de fabricação de nanotubos de carbono na Terra. Os resultados completos foram publicados na revista científica Nano Letters.
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