Corte de tarifas beneficiou concorrentes diretos, enquanto o café brasileiro segue taxado em 40% nos Estados Unidos, agravando a perda de espaço no principal mercado do produto e ampliando a pressão sobre diplomacia e competitividade do país.
De acordo com o portal do G1, o café brasileiro teve a tarifa reduzida de 50% para 40% nos EUA, mas continuou em desvantagem em relação a concorrentes como Colômbia e Vietnã, que passaram a ter taxa zerada após a decisão de Washington. Exportadores relatam que, na prática, a mudança “melhorou para os concorrentes e piorou para o Brasil”, em um cenário em que as compras americanas do produto caíram 51,5% entre agosto e outubro, na comparação com o mesmo período de 2024.
Ao mesmo tempo, setores como carne bovina e frutas viram sinais mais positivos, com alívio tarifário parcial e expectativa de avanço nas negociações. Enquanto o café segue tratado como caso crítico, a leitura no governo é de boa notícia com cautela, combinando comemoração moderada com monitoramento de itens que ainda não foram contemplados, como madeira, mel e parte das frutas.
Concorrentes com tarifa zero, café brasileiro com 40%
Na decisão anunciada na sexta-feira 14, os Estados Unidos reduziram a taxa global de 10% para cerca de 200 produtos, mas mantiveram uma sobretaxa de 40% aplicada ao Brasil.
-
Programa Pé-de-Meia do governo Lula evita que 1 em cada 4 jovens abandone o ensino médio, derruba a evasão entre alunos vulneráveis e revela que o incentivo financeiro já está mudando o destino de milhares de estudantes pelo Brasil
-
Nestlé coloca R$ 2 bilhões na mesa e inaugura nova fábrica colossal no Brasil em cidade de apenas 4 mil moradores, com tecnologia Indústria 4.0, robôs e IA, dobrando a produção de sachês pet e mirando exportações para Chile, México e Colômbia.
-
Escala 6×1, adeus? Rede de supermercados testa nova jornada com duas folgas semanais, aprovação de mais de 90% e impacto direto para mais de 5 mil funcionários
-
Catarinense deixa carreira consolidada na saúde, segue sonho antigo e constrói cervejaria artesanal que nasceu após viagem marcante à Europa em Santa Catarina
No caso do café brasileiro, a alíquota recuou de 50% para 40%, enquanto grandes exportadores rivais, como Colômbia e Vietnã, passaram a operar com tarifa zerada.
Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), muitos desses países já contavam com acordos bilaterais ou tarifas de apenas 10%, como Colômbia e Etiópia.
Isso cria um desnível competitivo claro: o principal fornecedor de café aos EUA é justamente o Brasil, que agora enfrenta condições menos favoráveis do que concorrentes diretos no mesmo mercado.
O presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, classificou a tarifa de 40% como “proibitiva”, afirmando que, se o patamar for mantido, “o Brasil continua totalmente fora do jogo”.
A avaliação do setor é que, com esse nível de tributação, o produto brasileiro perde margem e previsibilidade, mesmo em um mercado em que o país ainda responde por cerca de 16% de tudo o que exporta em café.
Impacto imediato nas vendas de café brasileiro
Os efeitos da política tarifária já aparecem nos dados. Com o tarifaço, as importações americanas de café brasileiro caíram 51,5% entre agosto e outubro, em relação ao mesmo período de 2024, segundo o Cecafé. Na prática, metade do volume foi perdida em apenas três meses, em um dos mercados mais estratégicos para o produto.
Essa retração ocorre justamente em um momento em que a demanda por café nos Estados Unidos continua elevada e os preços pressionam a inflação local.
A leitura de parte do setor é que Washington priorizou aliviar o bolso do consumidor americano, abrindo espaço para origens mais baratas, enquanto o Brasil absorve o impacto de uma tarifa que reduz competitividade e margens do café brasileiro.
Para exportadores, a queda nas compras americanas não é apenas conjuntural. O risco é de perda estrutural de espaço, na medida em que torrefadoras e grandes redes podem consolidar novos fornecedores, com tarifas mais favoráveis e contratos de longo prazo, deslocando o café brasileiro para uma posição secundária.
Carne e frutas avançam, mas com assimetrias
Enquanto o café brasileiro enfrenta um cenário de desvantagem explícita, a decisão dos EUA foi recebida de forma mais positiva por outros segmentos do agronegócio.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, classificou a medida como “uma boa sinalização para o mercado brasileiro”, destacando que os Estados Unidos são o segundo maior destino da carne bovina do país.
Perosa falou em “comemoração comedida”, com a expectativa de que a retirada parcial das tarifas possa abrir caminho para uma eliminação total no futuro.
Na prática, a carne bovina ganha fôlego em um mercado importante, enquanto o café brasileiro continua submetido a um patamar tributário que o setor considera inviável.
Nas frutas, a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) avaliou a decisão como “um avanço relevante”, mas apontou um ponto crítico: a uva ficou de fora da lista de exceções.
Em 2024, mais de 40 milhões de dólares em uva brasileira foram enviados aos Estados Unidos, e a exclusão do produto da nova rodada de alívio tarifário preocupa os exportadores.
Segundo a entidade, as exportações de uva caíram 73% em valor e quase 68% em quantidade no terceiro trimestre, em comparação com o mesmo período de 2024.
Como a safra destinada aos EUA se concentra a partir de setembro, a combinação de tarifa elevada e perda de competitividade acende sinal amarelo para a cadeia produtiva, em contraste com o alívio observado em outras frentes.
Leitura política em Brasília e diplomacia em curso
No governo brasileiro, a decisão americana foi descrita como boa notícia, mas incompleta. O assessor especial da Presidência, embaixador Celso Amorim, e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, destacaram que o gesto representa avanço, mas frisaram que a atenção segue voltada para produtos ainda submetidos ao tarifaço, como o próprio café brasileiro, além de madeira e mel.
Amorim avaliou que a medida possui uma racionalidade ligada ao combate à inflação nos EUA, mas reconheceu influência do bom clima entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
A Casa Civil destacou em rede social que a decisão reforça a posição do Brasil no cenário internacional, mas não encerra o debate sobre o tratamento dado ao café brasileiro e a outros itens sensíveis.
Carlos Fávaro afirmou ter se reunido com a equipe do Ministério da Agricultura para examinar em detalhe quais itens foram contemplados.
Segundo ele, a estratégia é retomar a diplomacia ativa e o diálogo de longa duração, com monitoramento permanente da lista de produtos e espaço para negociações futuras envolvendo o café brasileiro e outras cadeias afetadas pelos 40%.
Pressão da inflação nos EUA e limites do gesto de Trump
A decisão de aliviar parte das tarifas ocorre em meio à forte pressão da inflação sobre o governo Trump. O Brasil é o maior fornecedor de café e um dos principais de carne para os Estados Unidos, e ambos os produtos tiveram alta expressiva de preços no mercado americano, o que levou a Casa Branca a buscar medidas para conter custos ao consumidor.
Dias antes do anúncio, Trump havia sinalizado, em entrevista à Fox News, que reduziria a tarifa sobre o café, e determinou uma investigação sobre frigoríficos atuantes nos EUA, acusando-os de elevar os preços da carne de forma artificial.
No texto da nova ordem executiva, o governo informou que revisou dados de oferta interna, demanda e capacidade doméstica de produção, além das negociações com parceiros comerciais.
Trump definiu o movimento como “um pequeno recuo”, afirmando que os preços do café estavam altos e que, com a mudança, ficariam mais baixos em pouco tempo.
A redução passou a valer para mercadorias importadas e retiradas de armazém a partir do dia 13. Em paralelo, a Casa Branca atualizou a lista de produtos com algum grau de redução, acrescentando carne e café, entre outros, a um rol que já incluía itens beneficiados em julho, como o suco de laranja.
Mesmo assim, o recorte das concessões escancarou a assimetria: enquanto concorrentes do Brasil em café receberam alívio total, o café brasileiro ficou preso a um patamar de 40%, que o setor define como incompatível com uma competição equilibrada no mercado americano.
Diplomacia comercial e próximos passos para o café brasileiro
Nas últimas semanas, Brasil e Estados Unidos vinham discutindo formas de flexibilizar o tarifaço, em um processo que incluiu encontro entre Lula e Trump em outubro, na Malásia, e reunião entre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o chanceler Mauro Vieira. Após a conversa, Vieira afirmou esperar um “mapa do caminho” para orientar as negociações.
Ao fim do anúncio de sexta-feira, porém, Trump declarou que não vê necessidade de novos cortes de tarifas neste momento.
Para o café brasileiro, a mensagem é de incerteza: há um gesto parcial, suficiente para reposicionar alguns setores, mas sem resolver o principal ponto de pressão sobre o produto que lidera as exportações do país ao mercado americano.
Nesse contexto, exportadores e governo combinam estratégias de curto prazo para mitigar a queda das vendas, com esforço de médio prazo para reabrir espaço na mesa de negociação.
A agenda inclui manutenção da pressão diplomática, monitoramento dos dados de comércio e avaliação de como a tarifa de 40% impacta contratos, preços e decisões de compra ao longo de toda a cadeia do café brasileiro.
Diante desse cenário em que o café brasileiro segue com tarifa de 40% enquanto concorrentes ganham isenção, na sua opinião qual deveria ser a prioridade do Brasil agora: intensificar a diplomacia com os Estados Unidos, diversificar mercados compradores ou focar em agregar mais valor ao café exportado?

Seja o primeiro a reagir!