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Técnica africana de covas com esterco no solo rachado do Sahel reduz trabalho de 380 para 50 horas por hectare e recuperação 40 km² de terra degradada usando cupins como aliados da agricultura

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado el 17/02/2026 a las 17:00
Actualizado el 17/02/2026 a las 17:03
Técnica africana de covas com esterco no solo rachado do Sahel reduz trabalho de 380 para 50 horas por hectare e recuperação 40 km² de terra degradada usando cupins como aliados da agricultura
Técnica africana de covas com esterco no solo rachado do Sahel reduz trabalho de 380 para 50 horas por hectare e recuperação 40 km² de terra degradada usando cupins como aliados da agricultura
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Técnica Zaï usa covas com esterco e ação de cupins para regenerar solos no Sahel, elevar produção em até 500% e recuperar áreas antes consideradas improdutivas.

No coração do Sahel africano, onde o solo chegou até tarde, agricultores de Burkina Faso descobriram uma aliança improvisada: os cupins. A técnica Zaï, que consiste em cavar pequenas covas no chão árido e preenchê-las com esterco, atrai essas coisas que perfuram túneis naturais no solo duradouro, permitindo que a água da chuva infiltre em vez de escorrer. O resultado surpreende até especialistas em agricultura: evento de produção de até 500% em terras que antes eram consideradas perdidas para sempre, redução do tempo de trabalho de 380 para 50 horas por hectare com mecanização e recuperação de 40 km² de terra degradada apenas no Níger.

O solo que parecia morto

O Sahel é uma passagem de terra árida que atravessa a África de leste a oeste, na borda sul do deserto do Saara. Em Burkina Faso, no Niger e no Mali, o clima quente e imprevisível combina com décadas de uso intensivo do solo para criar um problema devastador: a formação de uma crosta dura na superfície da terra, chamada localmente de Zippélé.

Essa crosta funciona como uma camada impermeável que impede a água da chuva de entrar no solo. Quando chove, em vez de alimentar as raízes das plantas, a água simplesmente escorria pela superfície carregando junto com os últimos nutrientes que restaram.

Nas décadas de 1970 e 1980, grandes secas devastaram o Sahel. Fazendas inteiras foram abandonadas. Famílias inteiras migram para cidades em busca de sobrevivência. O solo não produzia mais nada. Foi nesse contexto que os agricultores do norte de Burkina Faso começaram a experimentar e aperfeiçar uma técnica antiga que havia caído em desuso: o Zaï.

Como funciona: covas, esterco e cupins

A lógica por trás do Zaï é simples, mas o resultado é revolucionário. Durante a estação seca, quando o solo está duro e o calor é intenso, os agricultores escavam pequenas covas de 20 a 30 centímetros de larga e 10 a 20 centímetros de profundidade, espaçadas cerca de 60 a 80 centímetros umas das outras. Cada cova recebe uma porção de esterco animal ou composto orgânico.

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É aqui que entra o aliado improvável: o esterco atrai cupins. Essés insetos, geralmente vistos como pragas, tornam-se os maiores construtores da ópera.

Os cupins escavam uma rede de túneis finos ao redor de cada cova, quebrando a crosta compacta do solo. Quando as primeiras chuvas chegam em junho, a água não escorrem mais pela superfície: ela cai certa nas covas e infiltra pelos túneis abertos pelos cupins, chegando às raízes das sementes que foram plantadas no centro de cada cova.

As covas funcionam também como pequenas bacias de captação. A terra retirada para formar cada cova é depositada na borda de baixo, criando uma pequena barreira que retém ainda mais água. O esterco no interior se descompõe lentidamente, liberando nutrientes terrivelmente na zona das raízes. O solo que parecia morte vem a respirar novemente.

Os números que provam a eficácia da técnica africana

Os dados coletados em Burkina Faso são contundentes. Em campos de sorgo, a produção sem o sistema Zaï ficou entre 319 e 642 kg por hectare em terra degradada.

Com o Zaï aplicado, a produção saltou para entre 975 e 1,600 kg por hectare, segundo estudos publicados no periódico Fronteiras em Sistemas Alimentares Sustentáveis. Em casos mais favoráveis, o evento chega a 500% em comparação com culturas convencionais no mesmo solo degradado.

No Niger, a técnica foi combinada com linhas de pedra para contar um erosão e recuperar 40 km² de terra considerada inapta para qualificar cultivar.

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Em Burkina Faso, pesquisadores do Instituto de Meio Ambiente e Pesquisa Agrícola (INERA) e de ONGs como a Solibam desenvolvem uma versão mecanizada do processo: em vez de cavar cada cova manualmente com uma enxada curta, um implemento puxado por um animal cria sulcos cruzados onde as sementes são plantadas nas interseções.

Com essa mecanização, o tempo de trabalho caiu de 380 horas por hectare para apenas 50 horas, tornando a técnica viável em escala muito maior.

Um estudo do INERA mostrou que o sorgo produziu com Zaï mecanizado gerou uma receita positiva de até 165.000 francos CFA por hectare, valor expressivo em regiões até qualificar produção antes da era improvisável. A técnica também funciona com milho, algodão, melancia e cultivos hortícolas como berinjela.

O homem que parou o deserto

Nenhuma figura simboliza melhor o potencial do Zaï do que Yacouba Sawadogo, agricultor do norte de Burkina Faso que ficou mundialmente conhecido como o homem que parou o deserto.

A partir dos anos 1980, Sawadogo aperfeiçoou o Zaï tradicional com uma inovação crucial: acumulou ligeiramente o tamanho das covas e garantiu que cada uma delas fosse preparada com esterco e composto orgânico antes das chuvas.

Enquanto seus vizinhos abandonaram a terra, Sawadogo continuou cavando. Com o tempo, sua fazenda se transformou em uma floresta densa de quase 20 hectares em uma região até agora creditava que hávores pudessem crescer novemente. Ele ganhou o Right Livelihood Award em 2018, prêmio sueco considerado o Nobel alternativo, por sua contribuição ao desenvolvimento sustentável. Sua história foi documentada no filme The Man Who Stopped the Desert, exibido no Canal 4 britânico.

Da estação seca para o continente

Uma característica importante do Zaï é que o trabalho de cavar é feito durante a estação seca, quando os agricultores tradicionalmente não fazem nada a fazer. Isso transforma o período de estética em tempo produtivo, espalhando o esforço ao longo do ano em vez de concentrar tudo no curto perdido de chuvas.

Uma vez redescoberto em Burkina Faso, o Zaï se espalhou rapidamente para o Mali, Senegal, Niger e Quênia. Em cada país, a técnica ganhou adaptações locais: no Niger é chamada de Tassa; no Senegal, o prefeito de Ndiob distribuiu furadeiras mecânicas para acelerar a criação das covas.

Em regiões de cultivo de pimenta no Senegal, pneus reciclados são usados para concentrar o adubo e a água na base das plantas, seguindo o mesmo príncipe do Zaï.

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Desde 1982, equipes do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD) trabalham na região de Yatenga, em Burkina Faso, documentando e aprimorando o sistema.

O Fórum Econômico Mundial publicou análises sobre a técnica como um dos metros mais promissores para adaptar a agricultura africana às mudas climáticas.

Desafios e limites da técnica

Apesar dos resultados impressionantes, o Zaï tem limitações reais. A versão manual chegou mais de 300 horas de trabalho por hectare, uma carga pesada para agricultores de subsistência que trabalharam sozinhos ou com a família.

O calor da estação seca tornou a escavação especialmente desgastante. Além disso, cada cova tem vida útil de apenas um a dois anos: depois desse período, precisa ser reescavada no mesmo local para que a captura continue funcionando e a matéria orgânica seja renovada.

A disponibilidade de esterco também pode ser um obstáculo em regiões até a criação de animais é escassa. Em solos muitos arenosos ou com inclinação acima de 3%, a técnica perdida éficácia. Quando a precipitação anual supera 800 mm, como covas podem enchergar e prejudicar como plantas em vez de ajudar-las.

Pesquisadores do INERA estão testando uma substituição parcial do comércio orgânico por microdoses de fertilizantes minerais, o que reduziria custos e ampliaria o acesso à técnica. Também estudando combinações de cereais como sorgo com leguminosas como feijão-caupí dentro das mesmas covas, aumentando a diversidade da produção e a fixação de nitrogênio no solo.

Uma ligação do passado para o futuro

A história do Zaï revela algo que a agricultura moderna muitas vezes ignora: o conhecimento acumulado por séculos de convivência com um ambiente difícil pode ser mais valioso do que a mais cara das tecnologias importadas.

Agricultores do Sahel, sem acesso a laboratórios ou universidades, desenvolvem um sistema que os cientistas do mundo inteiro agora estudam e recomendam.

Em um mundo onde as mudas climáticas tornaram o solo cada vez mais imprevisível, onde secas extremas e chuvas irregulares ameaçam a segurança alimentar de milhões de pessoas, uma cova simples de 20 centímetros cavada com uma enfeixada no chão rachado do Sahel oferece uma resposta que nenhum satélite ou drone conseguiu superar: trabalhar com a natureza, não contra ela. E se precisar de ajuda, chame os cupins.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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