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Técnica do agro de Bangladesh usa vegetação aquática decomposta para criar hortas flutuantes que produzem o ano inteiro mesmo com 37% do território submerso e foi reconhecida pela FAO

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado el 18/02/2026 a las 19:09
Actualizado el 18/02/2026 a las 19:13
Técnica do agro de Bangladesh usa vegetação aquática decomposta para criar hortas flutuantes que produzem o ano inteiro mesmo com 37% do território submerso e foi reconhecida pela FAO
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Técnica Baira, praticada há mais de 400 anos em Bangladesh, cria hortas flutuantes de até 55 metros e garante produção agrícola mesmo com seis meses de enchentes.

Em regiões de Bangladesh onde as águas das enchentes permanecem por seis meses a cada ano, agricultores desenvolveram um sistema agrícola que parece desafiar a física: hortas que flutuam. A técnica Baira, também conhecida como Dhap, usa camadas de jacintos d’água e outras plantas aquáticas em decomposição para formar plataformas flutuantes de até 55 metros de comprimento onde vegetais, especiarias e até mudas de arroz crescem sem tocar o solo.

O método foi praticado por mais de 400 anos nas planícies inundáveis do sul de Bangladesh e alcançou reconhecimento global em 2015 quando a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) o designou como Sistema Agrícola de Importância Global (GIAHS). De 60% a 90% dos moradores das áreas alagadas adotaram a técnica que garante produção contínua mesmo durante as monções mais severas.

Quando a terra desaparece sob a água

Bangladesh é um país deltáico onde mais da metade do território são planícies de inundação. Localizado na região mais baixa das bacias dos rios Ganges, Brahmaputra e Meghna, o país enfrenta enchentes anuais que cobrem vastas extensões de terra arável.

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Nos distritos de Gopalganj, Pirojpur e Barisal, no sul do país, as águas permanecem acumuladas de junho a outubro, tornando impossível o cultivo convencional durante a estação das monções, justamente quando as chuvas permitiriam maior crescimento das plantas.

Para comunidades rurais que dependem da agricultura para sobreviver, essa inundação anual representava um dilema mortal: ou abandonavam a terra durante metade do ano e migravam para cidades, ou ficavam sem produzir alimentos.

A solução que surgiu há quatro séculos foi radical: se a terra firme desaparecia sob a água, os agricultores transformariam a própria água em terra cultivável.

A construção de uma ilha flutuante

A construção de um canteiro flutuante começa entre junho e julho, quando as águas das monções começam a subir.

Agricultores coletam jacintos d’água, uma planta aquática invasora que cresce abundantemente nos rios e canais de Bangladesh.

Os jacintos são empilhados em camadas sucessivas com intervalos de 8 a 10 dias entre cada camada, permitindo que a vegetação inferior comece a se decompor enquanto a superior mantém a estrutura firme.

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Uma plataforma típica tem cerca de 1 metro de largura, 10 a 15 metros de comprimento e aproximadamente 0,5 metro de espessura, embora alguns agricultores experientes construam estruturas de até 55 metros de comprimento.

Sobre a base de jacinto d’água, são adicionadas camadas de matéria orgânica em decomposição: esterco de vaca, composto, restos de palha de arroz, trigo, cinzas e fibra de coco. Algumas regiões também usam outras plantas aquáticas como alface d’água, lentilha d’água, musgo aquático e ervas submersas.

Todo esse material vegetal decomposto forma um substrato rico em nutrientes que funciona como solo, mas flutua naturalmente. Estacas de bambu são fincadas nas bordas para ancorar as plataformas e evitar que sejam arrastadas pela correnteza.

O custo médio para construir uma plataforma flutuante completa é de cerca de 8.000 taka bangladeshi, equivalente a aproximadamente US$ 94.

O que se cultiva sobre a água nas hortas flutuantes

Nas plataformas flutuantes, os agricultores cultivam uma variedade impressionante de hortaliças e especiarias: tomate, quiabo, abóbora, pepino, berinjela, espinafre, couve, couve-flor, repolho, rabanete, cenoura, pimentão, cebola, alho, gengibre, cúrcuma e mamão. Durante a estação das monções, também são produzidas mudas de arroz que depois são transplantadas para os campos quando as águas recuam.

A produção é notavelmente confiável. Segundo relatórios da FAO, os rendimentos nos canteiros flutuantes são estáveis o suficiente para garantir que o sistema seja a melhor forma de produção de alimentos para 60% a 90% das pessoas nas áreas alagadas do sul de Bangladesh.

O lucro médio para os agricultores é de US$ 140 por 100 metros quadrados de canteiro durante a estação das monções.

Um estudo em Jessore mostrou que 10 plataformas flutuantes geraram uma receita total de US$ 280 contra um custo de US$ 74,60, resultando em lucro líquido de US$ 205,40 apenas durante o período de monções.

Como a técnica não requer fertilizantes químicos nem pesticidas e utiliza materiais locais abundantes, os custos operacionais permanecem baixos enquanto os produtos orgânicos recebem atenção especial dos compradores nos mercados locais.

Navegando entre ilhas de vegetais

Durante as monções, os agricultores se movimentam entre as plataformas flutuantes usando pequenos barcos. Eles trabalham mergulhando a parte inferior do corpo na água para colher, plantar, regar e cuidar das plantas. Quando as plataformas estão em águas mais profundas, os agricultores as puxam para mais perto das margens para facilitar o manejo.

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As flores roxas claras dos jacintos d’água contrastam com o verde profundo das folhas e dos vegetais cultivados, criando uma paisagem única que atrai a atenção de visitantes. Durante o pico da temporada, é possível ver centenas de ilhas flutuantes coloridas espalhadas pelos canais e áreas alagadas, formando um mosaico verde e roxo sobre as águas marrons.

O destino das plataformas após a colheita

Quando a estação seca começa e as águas das monções recuam, as plataformas flutuantes deixam de ser necessárias para flutuar. Nesse momento, os agricultores as desmontam e transferem todo o material decomposto para os campos onde cultivam suas safras de inverno.

A massa orgânica em decomposição funciona como um composto extremamente rico em nitrogênio, fósforo e potássio, melhorando dramaticamente a fertilidade do solo para o cultivo de tomate, couve-flor, espinafre, batata, cenoura e outros vegetais de estação seca.

Esse ciclo integrado transforma o que seria um desperdício em recurso valioso. O jacinto d’água, considerado uma praga invasora que entope canais e reduz os níveis de oxigênio na água, é retirado do sistema aquático e convertido em alimento humano e depois em fertilizante orgânico. O sistema é completamente biodegradável e não deixa resíduos ao final da temporada.

Reconhecimento global e expansão internacional

Em 15 de dezembro de 2015, a FAO designou oficialmente a agricultura flutuante de Bangladesh como um Sistema Agrícola de Importância Global (GIAHS), colocando-a ao lado de apenas 36 sistemas agrícolas reconhecidos em todo o mundo naquele momento por sua combinação de biodiversidade agrícola, ecossistemas resilientes e herança cultural valiosa.

A FAO destacou que a técnica oferece soluções reais para segurança alimentar, conservação de recursos naturais e desenvolvimento rural sustentável em um contexto de mudanças climáticas e desafios econômicos.

Maria Helena Semedo, vice-diretora geral da FAO, declarou que agricultores de pequena escala e agricultura tradicional podem oferecer respostas concretas quando políticas adequadas e investimentos são direcionados para eles.

A partir de 2005, a FAO havia identificado a agricultura flutuante como uma boa prática para adaptação às mudanças climáticas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) incluiu a técnica em seu Quinto Relatório de Avaliação como exemplo de tecnologia sustentável liderada por agricultores. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) destacou o trabalho com hortas flutuantes em Bangladesh como exemplo de adaptação agrícola.

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Organizações como Practical Action, IUCN, CARE e o Centro de Estudos Avançados de Bangladesh (BCAS) trabalharam por anos para documentar, melhorar e disseminar a técnica. Em 2015, o governo de Bangladesh e o UNDP lançaram programas de treinamento para expandir a técnica através do projeto Community-Based Adaptation to Climate Change.

Variações das hortas flutuantes já são utilizadas em Myanmar (onde são chamadas de kaing), Camboja, México (chinampas), Índia (radh em Kashmir e pontha no sudeste) e até no Vietnã, onde projetos-piloto foram implementados pela FAO, UNDP e Practical Action.

Desafios e inovações contemporâneas

Apesar do sucesso comprovado ao longo de séculos, a agricultura flutuante enfrenta obstáculos modernos. A técnica é intensiva em mão de obra, especialmente na fase inicial de construção das plataformas e na colheita. A geração mais jovem demonstra menos interesse em um método de trabalho tão fisicamente exigente, preferindo migrar para cidades em busca de empregos menos árduos.

O acesso aos mercados é limitado em muitas áreas remotas onde a técnica é praticada. Em Pirojpur, agricultores relataram devastação devido aos baixos preços dos vegetais, impactando a renda e a sustentabilidade da prática.

Eventos climáticos extremos, como ciclones tropicais intensos ou ondas de tempestade, podem destruir plataformas flutuantes ou arrastá-las para longe.

Para enfrentar esses desafios, estão sendo desenvolvidas inovações que combinam conhecimento tradicional com tecnologia moderna. Sistemas de irrigação solar estão sendo integrados para fornecer água em períodos de menor precipitação.

Aplicativos móveis fornecem conselhos agrícolas, previsões meteorológicas e informações de mercado diretamente aos agricultores. Algumas comunidades estão experimentando com câmaras de ar de pneus de carro e estruturas de bambu reforçadas para criar plataformas mais resistentes e duradouras.

O Instituto de Pesquisa Agrícola de Bangladesh e o Departamento de Extensão Agrícola mantêm projetos de pesquisa e desenvolvimento focados no aprimoramento do sistema de produção e na transferência da tecnologia para ecossistemas similares de áreas úmidas em outras regiões.

Um sistema que alimenta milhões

Estima-se que a área total coberta por agricultura flutuante em Bangladesh seja de cerca de 2.500 hectares, com potencial de expansão para até 2 milhões de hectares em regiões similares. A técnica não requer água adicional, nutrientes externos ou fertilizantes químicos, tornando-se uma das formas mais ecológicas de produção agrícola intensiva.

A agricultura flutuante oferece múltiplos benefícios sociais, econômicos e ecológicos. Economicamente, gera renda para agricultores sem terra que de outra forma não teriam meios de subsistência durante as monções.

Ecologicamente, controla a proliferação de jacinto d’água, reduz a erosão do solo, melhora a qualidade da água e cria micro-habitats que suportam a biodiversidade aquática. Socialmente, fortalece a segurança alimentar e nutricional de comunidades vulneráveis, mantendo famílias em suas terras ancestrais em vez de forçá-las a migrar.

A técnica está profundamente enraizada na cultura bengali. O festival Nabanna, celebração hindu da colheita de arroz que ocorre entre novembro e dezembro, honra a deusa Lakshmi que simboliza riqueza e fertilidade.

As comunidades locais organizam suas vidas ao redor das estações agrícolas e dos ciclos das águas, mantendo tradições culinárias baseadas em variedades regionais de arroz e vegetais cultivados nas hortas flutuantes.

Lições de um povo que aprendeu a flutuar

A agricultura flutuante de Bangladesh demonstra uma verdade simples mas profunda: as soluções mais eficazes para problemas ambientais complexos frequentemente vêm das próprias comunidades que vivem esses problemas diariamente. Sem diplomas universitários ou laboratórios sofisticados, agricultores bangladeshis desenvolveram um sistema hidropônico completo que funciona perfeitamente há quatro séculos.

Em um mundo onde as mudanças climáticas intensificam padrões de inundação e milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar em regiões propensas a alagamentos, as hortas flutuantes oferecem um modelo replicável de resiliência e adaptação.

Quando a terra desaparece sob a água, a resposta não é desistir da agricultura, mas aprender a cultivar sobre a própria água. E se precisar de material de construção, use a praga invasora que entope seus rios. Transforme problema em solução. Flutue.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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