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Terremotos varrem vilarejos de barro no Afeganistão, mas novo modelo de casa com madeira, telas de aço e até cerca plástica promete multiplicar a resistência e evitar colapsos

Escrito por Carla Teles
Publicado el 25/02/2026 a las 14:06
Terremotos varrem vilarejos de barro no Afeganistão, mas novo modelo de casa com madeira, telas de aço e até cerca plástica promete multiplicar a resistência
Modelo de casa em construção em terra transforma a casa de barro em casa resistente a terremotos após sucessivos terremotos no Afeganistão.
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Um modelo de casa de terra criado por pesquisadores combina barro, madeira, telas de aço e até cerca plástica para multiplicar a resistência sísmica em vilarejos rurais do Afeganistão e reduzir o risco de colapso total em futuros terremotos.

Era para ser apenas mais uma sequência de tremores em uma região acostumada a ver o chão balançar. Em vez disso, vilarejos inteiros de casas de barro voltaram a virar poeira em poucos segundos, repetindo um padrão de destruição que acompanha o Afeganistão há décadas. Paredes grossas de terra, telhados planos e construções sem reforço desabam com movimentos sísmicos moderados, esmagando o interior das moradias. É nesse cenário que ganha força um novo modelo de casa de terra resistente a terremotos, pensado especificamente para as tipologias rurais do país.

Baseado em décadas de experimentos em laboratório, ensaios em mesa vibratória e na comparação com códigos sísmicos de países como Peru, Nepal, Índia e Nova Zelândia, esse modelo de casa não tenta transformar vilarejos em cidades de concreto. A proposta é outra: fazer com que as casas de barro típicas parem de colapsar de forma frágil e repentina, suportem deformações maiores sem desabar e, principalmente, deem tempo para que as pessoas saiam com vida quando o solo tremer.

Terremotos que transformam vilarejos de barro em escombros

A história sísmica do Afeganistão é longa e pesada. Em apenas 25 anos, entre 1998 e 2023, o país registrou mais de 15 terremotos significativos, com magnitudes entre 5,3 e 7,5. O saldo é brutal: mais de 12.500 mortos, cerca de 30.000 feridos, aproximadamente 60.000 casas destruídas e quase 190.000 pessoas desabrigadas.

Por trás desses números, há um traço comum. Quase todas as vítimas viviam em casas de terra não reforçadas, construídas com adobe, barro moldado em camadas (pakhsa) ou alvenaria de pedra sem qualquer preocupação sísmica.

Mais de 85% da população vive em casas muradas de barro, muitas delas dentro de grandes recintos familiares, os Qala, com muros altos, diversos cômodos e telhados planos pesados. Quando um terremoto moderado atinge essas estruturas, o comportamento estrutural é frágil, abrupto e sem margens de segurança.

Por que as casas de barro desabam tão rápido

A terra crua em si não é o vilão. Ela é um dos materiais de construção mais antigos do mundo, de baixo custo, abundante e com baixíssimo carbono incorporado quando comparada a concreto e aço. O problema é a forma como o sistema estrutural é organizado.

Nas tipologias mais comuns, as paredes de barro têm baixa resistência à tração, o que significa que fissuram facilmente quando submetidas a esforços laterais. O telhado plano é pesado e apoiado em poucas vigas de madeira, gerando cargas concentradas em pontos específicos da parede.

Faltam vigas de amarração ligando paredes e cobertura em uma espécie de “caixa estrutural”. Cantos e interseções, regiões naturalmente críticas, quase nunca recebem reforço dedicado.

Na prática, isso faz com que muitas paredes de terra comecem a falhar em deslocamentos em torno de apenas 0,5% da altura, algo muito baixo para uma estrutura sujeita a ações sísmicas. Em vez de se deformar de forma controlada, a casa se comporta como um bloco rígido que racha, perde rigidez rapidamente e desaba.

O modelo de casa de terra pensado para o Afeganistão

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Diante dessa vulnerabilidade estrutural, os pesquisadores propuseram um modelo de casa de terra resistente a terremotos, que funciona como uma referência técnica.

Não é um projeto único e fechado, mas um conjunto de especificações de geometria, espessuras de parede, detalhes de fundação e reforços estruturais que podem orientar futuras normas nacionais e programas de reconstrução.

A lógica central é simples: manter a essência da casa de barro afegã e, ao mesmo tempo, “costurar” o sistema com reforços discretos, de baixo custo e fáceis de executar.

Em vez de substituir totalmente o barro por concreto armado, o modelo trabalha com o que já existe e introduz elementos de contenção e amarração que mudam o comportamento sísmico da estrutura.

Nesse contexto, o modelo de casa oferece um caminho intermediário. Ele respeita a arquitetura vernacular, não exige máquinas sofisticadas e foi pensado para ser compreendido e executado por pedreiros rurais experientes em terra, mas sem formação formal em engenharia.

Três formas de reforçar a mesma casa de terra

O grande diferencial da proposta está nas três alternativas de reforço, todas compatíveis com o mesmo modelo de casa e com graus variados de custo, nível técnico e disponibilidade de materiais.

Na primeira alternativa, a casa recebe um reforço com madeira. Postes de madeira com diâmetros entre 10 e 15 centímetros são posicionados nos cantos, nas interseções de paredes, nas extremidades livres e ao lado de portas e janelas.

Esses postes são embutidos em fundações de alvenaria de pedra ou concreto simples, protegidos por mangas metálicas ou plásticas para evitar apodrecimento e depois conectados a vigas horizontais e ao telhado.

Dessa forma, a casa de barro passa a contar com um esqueleto de madeira oculto, que ajuda a segurar a parede em caso de fissuras e oferece um caminho alternativo de suporte ao telhado se parte da alvenaria falhar.

Na segunda alternativa, o reforço é feito com malha de aço flexível ou geogrelha, aplicada nas superfícies das paredes.

Em vez de recobrir tudo de forma cega, as faixas são posicionadas em regiões estratégicas, como cantos, interseções, trechos intermediários de paredes longas e bordas de aberturas. Essas malhas são presas à base da parede e conectadas à viga de amarração ou à estrutura do telhado. Depois, podem ser recobertas com argamassa.

Quando o terremoto chega, essa “pele armada” segura o barro mesmo após a formação de fissuras, evitando que a parede se desprenda em blocos grandes e tombe fora do plano.

Na terceira alternativa, a solução usa cerca plástica flexível de alta qualidade. Em vez de faixas pontuais, a malha plástica envolve completamente as paredes, em ambas as faces, e é amarrada atravessando a espessura da parede com cordas de aço ou náilon a cada poucos decímetros. A superfície é recoberta com reboco, preferencialmente à base de cal e areia.

O resultado se aproxima de um “saco” contínuo: a parede pode se rachar por dentro, mas os fragmentos permanecem contidos pelo envoltório, o que reduz o risco de colapso repentino. Essa alternativa é especialmente interessante onde a malha metálica é cara ou difícil de transportar.

O que os testes de laboratório revelam sobre o modelo de casa

A formulação desse modelo de casa resistente a terremotos não saiu do nada. Ela se apoia em ensaios com paredes de adobe e terra apiloada em escala reduzida e em escala real, submetidas a cargas cíclicas e a testes em mesa vibratória.

Esses ensaios mostram que, em paredes de terra sem reforço, a resistência lateral é baixa, a rigidez degrada rapidamente e a falha é frágil, tanto no plano da parede quanto fora do plano.

Já em paredes reforçadas com madeira, malhas metálicas, geogrelhas, cordas sintéticas, cercas plásticas e sistemas de argamassa têxtil, o comportamento muda radicalmente.

Os resultados apontam para aumentos de 30% a 200% na resistência lateral, elevação da ductilidade em três a sete vezes e mais que o dobro de capacidade fora do plano quando há boa ancoragem nas fundações e no topo das paredes.

Em termos práticos, isso quer dizer que o modelo de casa proposto pode sofrer danos relevantes, apresentar fissuras visíveis e deformações significativas, mas ainda assim se manter de pé por tempo suficiente, evitando o colapso total e permitindo a fuga dos ocupantes.

Em vez de um cenário em que o teto vem abaixo em segundos, surge a possibilidade de uma estrutura que absorve energia, balança, racha, porém continua íntegra o bastante para salvar vidas.

Por que não trocar barro por concreto em todo lugar

Um ponto central da proposta é que ela não tenta substituir a construção em terra por concreto armado em massa, algo que exigiria recursos financeiros, cadeias de fornecimento e mão de obra técnica de que muitos vilarejos simplesmente não dispõem.

A terra crua, quando utilizada com critérios, tem vantagens ambientais e de conforto térmico importantes.

As emissões de CO₂ associadas à produção de paredes de barro são muito menores do que as de concreto e aço, e o desempenho térmico ajuda a estabilizar a temperatura e a umidade internas, o que é valioso em regiões de clima extremo.

Ao reforçar o modelo de casa tradicional com madeira, telas de aço ou cercas plásticas, o estudo oferece uma alternativa que dialoga com a cultura construtiva local, reduz custos, evita a dependência total de materiais industrializados e, ao mesmo tempo, atende à necessidade de maior segurança sísmica. Em vez de um “rompimento” com o passado, há uma atualização técnica do que já existe.

O caminho entre o modelo e a realidade afegã

Mesmo sendo tecnicamente consistente, o modelo de casa de terra resistente a terremotos ainda precisa vencer barreiras para se tornar prática corrente.

Há desafios institucionais, como a necessidade de atualizar códigos de construção, criar programas de treinamento para pedreiros e técnicos locais e garantir algum nível mínimo de fiscalização.

Também existem lacunas técnicas, como a carência de testes em escala real com paredes muito espessas e telhados tradicionais com cargas concentradas, uma situação muito comum no Afeganistão.

Além disso, a realidade econômica pesa. Em muitas regiões, famílias mal conseguem reconstruir uma casa simples depois de um terremoto, o que torna difícil exigir reforços adicionais sem apoio financeiro.

Por isso, o estudo sugere que o modelo de casa seja visto como uma base para políticas públicas, guias de reconstrução e projetos-piloto em comunidades mais vulneráveis.

Mesmo com essas limitações, a contribuição é clara. Pela primeira vez, o país passa a contar com um modelo de casa de terra pensado especificamente para seu contexto sísmico, climático, social e econômico, alinhado com o que há de mais atual em pesquisa internacional, mas adaptado às práticas de obra que realmente acontecem em vilarejos rurais.

Depois de conhecer essa proposta, fica uma pergunta direta para você: se tivesse a opção, você aceitaria viver em um modelo de casa de barro reforçado com madeira, telas de aço ou cerca plástica, desde que comprovadamente mais seguro do que as construções tradicionais da sua região?

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Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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