Transição energética avança, mas falta equilíbrio entre geração e consumo de energia renovável, pressionando tarifas e exigindo planejamento.
O que está em jogo, quem debate, quando e onde: a transição energética no Brasil entrou no centro do debate nacional nesta terça-feira (27/1), durante o O TEMPO Seminários – Transição Energética, realizado em Belo Horizonte, ao reunir reguladores, distribuidoras e representantes da indústria.
Como avançar em energia renovável sem distorções no sistema elétrico e por que o país enfrenta cortes de geração mesmo com uma matriz energética brasileira majoritariamente limpa foram os pontos-chave.
Assim, a resposta passa por planejamento energético e pelo equilíbrio entre geração e consumo, condição essencial para garantir segurança, preços justos e sustentabilidade.
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Transição energética exige coordenação entre dados, agentes e sociedade
Embora o Brasil seja referência global em fontes limpas, a expansão acelerada da geração renovável nem sempre encontra demanda equivalente.
Segundo Ivo Sechi Nazareno, secretário de Leilões da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a transição só se consolida quando há harmonia entre sustentabilidade, segurança energética e tarifas acessíveis.
“Para que a transição energética se desenvolva, é necessário um equilíbrio entre agentes, dados e sociedade”, afirmou o secretário.
Então esse tripé, segundo ele, sustenta um sistema elétrico confiável e financeiramente saudável.
Energia renovável cresce, mas cortes de geração expõem gargalo
O paradoxo brasileiro aparece nos chamados curtailments, cortes técnicos de geração.
Diferentemente de outros países, onde o problema decorre da falta de redes, no Brasil o principal motivo é a ausência de consumo no momento em que a energia é produzida.
“Não há equilíbrio instantâneo entre a geração que está sendo realizada por todas as fontes e o consumo naquele mesmo instante”, explicou Nazareno.
Assim, parte da eletricidade renovável não é utilizada, afetando a eficiência do sistema e os custos finais.
Matriz energética brasileira limpa pressiona tarifas
O excesso de oferta tem impacto direto na conta de luz.
Para Marcus Madureira, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), o modelo atual carrega um volume elevado de subsídios.
“Sou totalmente desfavorável a qualquer subsídio.
Assim, a conta é muito alta. Por ano, os consumidores pagaram algo em torno de R$ 54 bilhões”, pontuou.
Segundo ele, o avanço das renováveis exige revisão dos incentivos para evitar distorções tarifárias.
Planejamento energético e o papel da biomassa
A crítica aos incentivos concentrados em solar e eólica também veio do setor de bioenergia.
Mário Campos, presidente da Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais (Siamig), destacou o potencial do biometano, produzido a partir da cana-de-açúcar, como alternativa ao diesel.
“Hoje, sinceramente, a biomassa está totalmente desincentivada.
Não estamos enxergando o custo real de cada fonte”, afirmou.
Para ele, um planejamento energético mais amplo é essencial para valorizar fontes complementares e reduzir desequilíbrios.
Equilíbrio entre geração e consumo passa pelas termelétricas
Apesar do protagonismo das renováveis, especialistas defendem que as usinas termelétricas continuam sendo peças-chave para a estabilidade do sistema.
Madureira lembra que solar e eólica dependem de condições climáticas específicas.
“Quem assegura energia 24 horas, 365 dias por ano?”, questionou.
Segundo ele, hidrelétricas ajudam, mas sofrem em períodos de estiagem.
Nesse cenário, termelétricas — inclusive movidas a gás natural — garantem o suprimento quando outras fontes falham.
Transição energética: conceito e contexto brasileiro
A transição energética vai além da troca de combustíveis fósseis por fontes limpas. Trata-se de repensar geração, distribuição e consumo, incorporando eficiência, digitalização e descentralização.
No Brasil, esse processo ocorre a partir de uma base já renovável, o que diferencia o país no cenário global.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que, em 2023, 89% da matriz elétrica brasileira era composta por fontes renováveis, liderança entre os países do G20.
Energia renovável e diversificação da matriz
O crescimento de eólica e solar vem alterando a composição histórica baseada em hidrelétricas.
Projeções do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que, até 2028, essas fontes devem responder por 51% da capacidade instalada.
Então essa diversificação reduz a dependência hídrica e amplia a geração descentralizada.
Além disso, o potencial climático brasileiro favorece a expansão sem pressionar áreas sensíveis.
Desafios estruturais e expansão da demanda
Apesar dos avanços, a dependência de termelétricas persiste em momentos críticos, elevando custos e emissões.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 projeta crescimento anual de 2,1% no consumo, exigindo investimentos em transmissão, armazenamento e eficiência.
Sem essas medidas, o avanço da energia renovável pode esbarrar em limites técnicos, ampliando o desequilíbrio entre geração e consumo.
Caminhos para fortalecer a transição energética
Para consolidar um sistema mais resiliente, especialistas defendem políticas públicas integradas, desenvolvimento de cadeias produtivas nacionais e capacitação profissional.
Assim, a expansão da infraestrutura de transmissão e da mobilidade elétrica também é decisiva.
Nesse contexto, o Brasil reúne condições para assumir papel estratégico na transformação energética global.
Com uma matriz energética brasileira limpa e diversificada, o país pode atrair investimentos, liderar soluções de baixo carbono e transformar a transição energética em vetor de desenvolvimento sustentável.
Veja mais em: Transição energética busca equilíbrio entre geração e consumo e Transição energética: desafios e oportunidades no Brasil

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