Entenda como a Lei 15.270 impacta a tributação de dividendos no Simples Nacional e quais dúvidas jurídicas e riscos podem surgir a partir de 2026.

Imagem ilustrativa criada por IA – uso editorial.
A recente sanção da Lei nº 15.270/2025 reacendeu discussões relevantes no meio jurídico, contábil e empresarial, especialmente entre micro e pequenas empresas. A norma, que instituiu a chamada tributação de altas rendas, alterou profundamente as regras aplicáveis à distribuição de lucros e dividendos no Brasil. No entanto, a ausência de menção expressa ao Simples Nacional gerou dúvidas e insegurança jurídica quanto ao alcance das novas exigências.
A informação foi divulgada por portais especializados em direito tributário e legislação fiscal, que passaram a analisar os impactos da nova lei sobre diferentes regimes de tributação. Desde então, empresários e profissionais da área buscam entender se as mudanças afetam ou não a isenção histórica dos dividendos distribuídos por empresas optantes pelo Simples Nacional.
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Isenção histórica dos dividendos sempre foi pilar do sistema tributário brasileiro
Desde 1996, o sistema tributário brasileiro adotou como regra geral a isenção do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos distribuídos a pessoas físicas. Essa política buscava compensar a elevada carga tributária já suportada pelas empresas na apuração de seus resultados, evitando, assim, a chamada dupla tributação econômica.
Nesse modelo, o empresário recolhia os tributos devidos na pessoa jurídica. Posteriormente, ao distribuir os lucros aos sócios ou titulares, não havia incidência adicional de Imposto de Renda na pessoa física. Ao longo dos anos, essa sistemática se consolidou como um dos principais incentivos à formalização e à atividade empresarial no país.
Entretanto, esse cenário começou a mudar com a edição da Lei nº 15.270/2025, sancionada no final de novembro de 2025. O novo diploma legal buscou compensar a perda de arrecadação provocada pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para rendas mensais de até R$ 5 mil.
O que muda com a Lei nº 15.270/2025 na tributação de dividendos
Para equilibrar as contas públicas, a nova legislação instituiu a chamada tributação de altas rendas. A partir dela, passaram a valer duas regras centrais relacionadas à distribuição de lucros e dividendos.
Primeiramente, a lei determinou a retenção na fonte de 10% de Imposto de Renda sempre que os lucros e dividendos pagos por uma mesma pessoa jurídica a uma pessoa física, em um mesmo mês, ultrapassarem o valor de R$ 50 mil. Além disso, o texto legal criou uma tributação mínima no ajuste anual, aplicável quando o total de rendimentos recebidos pela pessoa física ao longo do ano superar R$ 600 mil.
As novas regras entram em vigor a partir de 1º de janeiro de 2026. Desde a publicação da lei, no entanto, surgiu um questionamento central: essas exigências também se aplicam às empresas optantes pelo Simples Nacional?
A dúvida ganhou força justamente porque a Lei nº 15.270/2025 não trouxe qualquer dispositivo específico tratando do regime simplificado. Considerando que o Simples Nacional é adotado pela maioria das empresas brasileiras, a lacuna normativa passou a gerar preocupação e insegurança jurídica.
Legislação do Simples Nacional prevê regras próprias para distribuição de lucros
A Lei Complementar nº 123/2006, que instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, estabelece regras específicas para a tributação dos lucros distribuídos por empresas optantes pelo Simples Nacional.
De acordo com o art. 14 da LC nº 123/2006, os lucros efetivamente distribuídos aos sócios ou titulares dessas empresas são isentos do Imposto de Renda, tanto na fonte quanto na declaração de ajuste anual do beneficiário. Essa isenção, no entanto, não se aplica aos valores pagos a título de pró-labore, aluguéis ou serviços prestados.
Fora essas hipóteses, os lucros permanecem isentos, independentemente do valor distribuído. Além disso, a legislação prevê que, quando a empresa não mantém escrituração contábil regular, a isenção fica limitada aos percentuais previstos no art. 15 da Lei nº 9.249/1995, aplicados sobre a receita bruta, com a dedução do valor já recolhido no Simples a título de IRPJ.
Por outro lado, o §2º do art. 14 da LC nº 123/2006 esclarece que esse limite não se aplica quando a pessoa jurídica mantém escrituração contábil regular e comprova lucro superior ao limite presumido.
Receita Federal reafirma entendimento favorável ao Simples Nacional

Esse entendimento foi recentemente reforçado pela Receita Federal na Solução de Consulta COSIT nº 244/2025, publicada em novembro de 2025. No documento, o Fisco esclareceu que micro e pequenas empresas optantes pelo Simples Nacional podem distribuir lucros isentos sem aplicação de teto, desde que mantenham escrituração contábil regular e comprovem o lucro apurado.
Embora a solução de consulta não tenha analisado especificamente a aplicação da Lei nº 15.270/2025 ao Simples Nacional, ela reafirmou que existe um regramento próprio para a distribuição de lucros no regime simplificado.
Além disso, a própria Lei nº 15.270/2025 alterou o art. 10 da Lei nº 9.249/1995, passando a mencionar expressamente apenas pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, presumido ou arbitrado. Não há qualquer referência às empresas optantes pelo Simples Nacional no novo texto legal.
Lei especial, reserva constitucional e possíveis conflitos jurídicos
Diante desse cenário, especialistas apontam para um possível conflito entre a Lei nº 15.270/2025, de caráter geral e ordinário, e a Lei Complementar nº 123/2006, que possui natureza especial. Pelo princípio previsto no art. 2º, §2º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), uma lei geral posterior não revoga lei especial anterior sem manifestação expressa do legislador.
Além disso, a Constituição Federal estabelece, no art. 146, III, “d”, que o tratamento favorecido às micro e pequenas empresas deve ser disciplinado por lei complementar. Assim, uma lei ordinária não poderia restringir validamente uma isenção prevista em lei complementar sobre matéria constitucionalmente reservada.
Apesar disso, o tema ainda inspira cautela. Existe o risco de interpretações mais restritivas por parte da administração tributária, o que pode resultar em autuações fiscais e aumento do contencioso judicial a partir de 2026. Por esse motivo, o assunto pode ser judicializado, caso surjam tentativas de aplicar as novas regras às empresas do Simples Nacional.
Até o momento, contudo, não há norma que trate expressamente da aplicação da Lei nº 15.270/2025 às empresas optantes pelo regime simplificado, o que mantém válidas as regras específicas previstas na Lei Complementar nº 123/2006.
Você acredita que a nova tributação de dividendos pode afetar as pequenas empresas do Simples Nacional a partir de 2026? Por quê?

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