A UFPA desenvolve um laboratório pioneiro capaz de transformar resíduos vegetais da Amazônia e Cannabis apreendida em combustíveis sustentáveis e soluções de energia limpa, impulsionando inovação científica e impacto ambiental positivo no Brasil
Em 19 de novembro de 2025, a UFPA (Universidade Federal do Pará) apresentou em seu site oficial resultados expressivos de um projeto que transforma resíduos vegetais amazônicos e até Cannabis apreendida pela Polícia Federal em combustíveis sustentáveis e diversos bioprodutos.
A iniciativa, conduzida pelo Laboratório de Engenharia de Processos de Conversão de Biomassa e Resíduos, é coordenada pelo professor Nélio Teixeira Machado e representa um avanço tecnológico relevante para a bioenergia brasileira.
O laboratório da UFPA e o avanço nos combustíveis sustentáveis
Além de reutilizar resíduos agroindustriais da região, o laboratório também dá destino ambientalmente adequado ao material ilícito que, normalmente, seria incinerado. A pesquisa fortalece a economia circular, reduz poluentes e cria alternativas reais para uma matriz energética mais limpa.
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O laboratório da UFPA é uma das referências nacionais na conversão termoquímica de biomassa. A equipe trabalha com materiais lignocelulósicos abundantes na Amazônia, como caroços de açaí, fibras de tucumã, cascas de cacau e resíduos de palma. Em vez de se tornarem lixo, esses recursos passam por rotas de processamento que geram combustível, biocarvão e bio-óleo.
Segundo a UFPA, quase toda biomassa vegetal com carbono e hidrogênio pode ser transformada em fontes de energia limpa, desde que submetida aos processos adequados de pirólise e destilação. Com isso, resíduos antes descartados ganham valor econômico e importância ambiental.
Resíduos vegetais da Amazônia como matéria-prima para energia limpa
Os resíduos utilizados pelo laboratório são abundantes e pouco aproveitados pela cadeia produtiva local. Entre os principais estão:
- Caroços de açaí: um dos resíduos mais gerados na Amazônia, já que o fruto é consumido diariamente por milhares de pessoas.
- Tucumã, cacau e palma: materiais ricos em lignina e celulose, ideais para processos termoquímicos.
- Resíduos agrícolas de menor escala, mas comuns na região.
A transformação desses resíduos em combustíveis sustentáveis ocorre, antes de tudo, porque a biomassa amazônica possui grande concentração de carbono fixado, permitindo a geração de diversos produtos úteis.
De acordo com o professor Nélio Machado, o aproveitamento desse material ajuda a reduzir o volume de resíduos sólidos e, ao mesmo tempo, diminui a dependência de combustíveis fósseis. Assim, resíduos agroindustriais tornam-se recursos energéticos valiosos, fortalecendo a bioeconomia amazônica.
Processo termoquímico no laboratório da UFPA
Pré-tratamento da biomassa
O primeiro passo para converter os resíduos vegetais em energia limpa é o pré-tratamento. Esse procedimento inclui secagem, trituração e, em alguns casos, ativação química com hidróxido de sódio. Essa etapa aumenta a superfície de contato do material, o que melhora a eficiência da pirólise.
Pirólise e obtenção do bio-óleo
A pirólise é um processo essencial no laboratório. Ela consiste em aquecer a biomassa sem a presença de oxigênio, fazendo com que suas cadeias moleculares se quebrem. Essa decomposição libera três frações principais:
- Biogás – rico em metano e propano.
- Bio-óleo – composto por hidrocarbonetos de interesse energético.
- Biocarvão – altamente poroso, ideal para filtros e remediação ambiental.
O bio-óleo é a base para diferentes combustíveis, pois suas moléculas podem ser separadas por faixas de temperatura.
Destilação e refino
Após a pirólise, o bio-óleo passa por destilação fracionada. A partir dela, o laboratório obtém:
- Gasolina verde
- Diesel verde
- Querosene sustentável
- Bioquerosene destinado a aplicações industriais
- Biocarvão filtrante
- Matérias-primas químicas diversas
Esse processo permite que a UFPA produza combustíveis de alta pureza a partir de resíduos comuns na Amazônia.
Cannabis apreendida como biomassa estratégica para combustíveis sustentáveis
Parceria com a Polícia Federal e UFSC
Além de resíduos vegetais tradicionais, o laboratório também investiga a conversão da Cannabis apreendida pela Polícia Federal. O material, que antes seria incinerado, agora é redirecionado para pesquisa científica e geração de energia limpa.
O projeto é realizado em parceria com a Superintendência da PF no Pará e com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O objetivo é transformar um passivo criminal em um recurso energético, reduzindo custos públicos e impactos ambientais.
Pirólise da Cannabis
A Cannabis sativa é submetida à pirólise entre 450 °C e 500 °C, faixa que produz um bio-óleo com boas concentrações de hidrocarbonetos. Esse bio-óleo, assim como o gerado a partir de resíduos vegetais, pode ser destilado e refinado.
Os principais produtos obtidos são:
- Gasolina verde
- Querosene verde
- Diesel verde
- Biocarvão para solo
- Biofiltros para água
- Biogás para geração elétrica
Além disso, surgem subprodutos como fenóis, aldeídos e ácidos orgânicos, que podem ter aplicação industrial.
Impactos socioambientais do uso da Cannabis
A utilização da Cannabis apreendida traz três benefícios principais:
- Economia de recursos públicos, já que a incineração demanda transporte, segurança e vigilância.
- Redução da poluição, evitando a queima direta do material.
Essa abordagem representa uma solução inovadora que integra segurança pública, ciência e sustentabilidade.
Novas aplicações: hidrogênio verde, querosene de aviação e grafeno
O laboratório também estuda possibilidades futuras de expansão tecnológica. A lignina presente na biomassa amazônica e na Cannabis pode ser convertida em:
- Hidrogênio verde, combustível estratégico para descarbonização da indústria.
- Querosene de aviação sustentável, essencial para reduzir emissões do setor aéreo.
- Grafeno, material de altíssimo valor agregado e com aplicação em eletrônica avançada.
Essas linhas de pesquisa ampliam o potencial econômico e tecnológico do laboratório, posicionando a UFPA como referência global em bioenergia.
Impacto científico, ambiental e econômico do laboratório da UFPA
O trabalho desenvolvido pela UFPA traz implicações importantes para a Amazônia e para o Brasil. Em primeiro lugar, promove a economia circular, ao reutilizar resíduos vegetais que antes não tinham destino. Além disso, integra inovação tecnológica com preservação ambiental, fortalecendo a bioeconomia regional.
O uso da Cannabis apreendida também representa um avanço, pois une pesquisa científica e políticas públicas de segurança, reduzindo custos governamentais e diminuindo poluentes.
Para o país, os benefícios incluem:
- Redução da dependência de combustíveis fósseis.
- Desenvolvimento de tecnologia nacional de bioenergia.
- Incentivo à sustentabilidade na região amazônica.
- Participação ativa em debates globais sobre neutralidade de carbono.
Com pesquisas que podem gerar hidrogênio verde, biocombustíveis avançados e até grafeno, a UFPA amplia seu protagonismo acadêmico e reforça seu compromisso com o desenvolvimento sustentável.
Relevância estratégica para o futuro da bioenergia
A iniciativa da UFPA demonstra como ciência, inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas para transformar resíduos em recursos energéticos de alto valor. Tanto os resíduos vegetais quanto a Cannabis apreendida são convertidos em combustíveis sustentáveis e energia limpa, criando benefícios ambientais, sociais e econômicos.
Com potencial para expandir sua atuação e gerar novos produtos estratégicos, o laboratório se consolida como um dos mais importantes centros brasileiros de pesquisa em bioenergia, contribuindo para um futuro mais eficiente, seguro e ambientalmente responsável.
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