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Um canal de drenagem foi redesenhado para segurar enchentes, mas o “rio recriado” começou a atrair vida selvagem e transformou um parque urbano de Singapura de um jeito que pouca gente esperava

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 17/01/2026 às 15:29
Canal de concreto foi transformado em rio naturalizado em Singapura, melhorou a drenagem urbana, atraiu vida selvagem e mudou o uso do parque.
Canal de concreto foi transformado em rio naturalizado em Singapura, melhorou a drenagem urbana, atraiu vida selvagem e mudou o uso do parque.
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Canal de concreto virou rio naturalizado, mudou a drenagem urbana e passou a atrair vida selvagem em uma das áreas mais densas de Singapura, alterando o uso do espaço público, a relação da população com a água e a lógica de controle de enchentes sem perder eficiência hidráulica.

O que antes era um corredor rígido de concreto, pensado para escoar água de chuva com eficiência, passou a funcionar como um rio de margens vivas dentro de um dos parques mais frequentados de Singapura.

A intervenção foi desenhada para melhorar a drenagem urbana e reduzir riscos de alagamentos, mas o resultado prático incluiu uma mudança visível no uso do espaço, no contato das pessoas com a água e na presença de espécies que voltaram a ocupar as bordas do curso d’água.

Parque urbano e controle de enchentes

A transformação ocorreu no Bishan–Ang Mo Kio Park, onde o Kallang River atravessa uma área densamente urbanizada.

O projeto foi conduzido em colaboração entre a PUB, agência nacional de água de Singapura, e a NParks, responsável pelos parques do país, dentro do programa Active, Beautiful, Clean Waters, iniciativa que combina infraestrutura hídrica e desenho urbano voltado a aproximar a população dos corpos d’água.

Vídeo do YouTube

Durante décadas, canais de drenagem em concreto foram uma resposta direta a enchentes e à necessidade de conduzir grandes volumes de água em pouco tempo.

Esse tipo de solução, ao mesmo tempo em que aumenta a capacidade de escoamento, tende a reduzir a complexidade do habitat e a manter a água separada do espaço público.

No caso do trecho do Kallang no entorno do parque, a remodelação buscou preservar a função de drenagem e, ao mesmo tempo, devolver ao curso d’água características de um rio natural, com curvas, variação de profundidade e margens vegetadas.

Engenharia hídrica integrada à paisagem

Em vez de tratar canal e parque como estruturas independentes, o projeto passou a integrar paisagem e hidráulica em uma mesma lógica de funcionamento.

A PUB descreve que a proposta converteu o antigo canal em um rio de aparência natural, com bordas suavizadas por plantas, rochas e técnicas de bioengenharia aplicadas para estabilizar o solo e reduzir erosão.

A adoção dessas técnicas exigiu testes prévios.

Canal de concreto foi transformado em rio naturalizado em Singapura, melhorou a drenagem urbana, atraiu vida selvagem e mudou o uso do parque.
Canal de concreto foi transformado em rio naturalizado em Singapura, melhorou a drenagem urbana, atraiu vida selvagem e mudou o uso do parque.

O órgão registra que aproximadamente dez métodos diferentes foram avaliados por cerca de 11 meses, numa tentativa de adaptar soluções ao clima e às condições locais.

Planície de inundação como parte da solução

A mudança ficou evidente na forma como a água passou a ocupar o espaço.

Em vez de um leito estreito e retilíneo, o desenho foi concebido para trabalhar com o conceito de planície de inundação.

Em períodos secos, o fluxo permanece concentrado em um canal mais estreito dentro do leito maior.

Quando ocorrem temporais, a área adjacente do parque passa a atuar como corredor de passagem e amortecimento do volume extra, conduzindo a água de modo gradual para jusante, conforme descreve a PUB.

O resultado é uma infraestrutura que alterna entre rio de uso cotidiano e dispositivo de contenção durante eventos de chuva intensa.

Biodiversidade como efeito colateral

A C40, rede internacional que reúne cidades e cataloga políticas urbanas, detalha que a obra converteu um canal de drenagem retilíneo de cerca de 2,7 quilômetros em um curso d’água mais longo e sinuoso, com trechos mais amplos do que o canal original.

Esse redesenho veio acompanhado de soluções vegetadas que atuam como filtro para a água de escoamento superficial antes que ela chegue ao rio, reduzindo a carga de sedimentos e melhorando a qualidade do sistema.

A mesma fonte registra que parte do concreto do canal antigo foi reaproveitada em elementos do novo parque e do próprio leito, reduzindo descarte de material e impactos da obra.

Embora o objetivo estrutural seja o controle de cheias, a alteração do ambiente criou condições para a permanência de espécies.

Vídeo do YouTube

A PUB aponta que, com o rio naturalizado, a fauna passou a ser observada com mais frequência, citando libélulas e donzelinhas associadas a ambientes de água doce como indicadores diretos da mudança ecológica.

Fauna retornando ao ambiente urbano

Na mesma linha, a C40 reporta um aumento de 30% na biodiversidade do parque e menciona avistamentos regulares de lontras e garças, entre outras espécies.

O dado reforça que o impacto vai além do aspecto visual.

Ao substituir paredes verticais e superfícies duras por encostas e margens vegetadas, o projeto multiplicou microambientes e criou transições graduais entre água, solo e áreas verdes, ampliando oportunidades de abrigo, alimentação e deslocamento para a fauna.

Aproximação entre pessoas e água

Para os visitantes, a mudança mais imediata é a proximidade física com o rio.

A NParks descreve o trecho do Kallang no parque como um curso d’água sinuoso e integrado à paisagem, substituindo um canal confinado.

Em um ambiente urbano onde rios costumam ser vistos à distância, por trás de grades ou taludes íngremes, a nova topografia abriu espaço para observação direta, atividades recreativas e maior percepção dos ciclos naturais da água.

Essa combinação de engenharia e paisagismo também alterou a forma como a população interpreta eventos de cheia no local.

Quando o espaço é concebido como parte do sistema hidráulico, a presença temporária de água deixa de ser vista como falha e passa a ser entendida como comportamento previsto da infraestrutura.

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Jemimah Birch
Jemimah Birch
24/01/2026 12:14

This is a most comforting story of how past wrongs may be corrected. Bringing people and nature back together. My hope is that many other rivers will receive this kind of rehabilitation.

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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