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Um muro de 17 quilômetros atravessando o Canal de Bristol poderia gerar energia limpa suficiente para milhões de casas por mais de um século, mas o megaprojeto de £30 bilhões foi abandonado por custos gigantescos e risco de destruir um ecossistema inteiro

Escrito por Bruno Teles
Publicado el 11/03/2026 a las 23:20
muro de 17 quilômetros no Canal de Bristol prometia energia limpa, mas o custo de £30 bilhões e o risco ao ecossistema fizeram o Reino Unido recuar.
muro de 17 quilômetros no Canal de Bristol prometia energia limpa, mas o custo de £30 bilhões e o risco ao ecossistema fizeram o Reino Unido recuar.
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O muro de 17 quilômetros atravessando o Canal de Bristol parecia oferecer energia limpa estável previsível e duradoura para o Reino Unido com escala suficiente para abastecer milhões de casas e cortar emissões mas o custo de £30 bilhões e o risco ao ecossistema empurraram o plano para o limbo

O muro de 17 quilômetros proposto para o Canal de Bristol parecia a resposta perfeita para uma crise energética que exigia energia limpa, previsível e duradoura. A ideia era simples na aparência e brutal na escala: fechar parte do estuário, explorar uma das maiores amplitudes de maré do mundo e transformar isso em eletricidade para milhões de casas.

Mas o mesmo projeto que prometia reduzir emissões por mais de um século carregava um preço político, financeiro e ambiental difícil de sustentar. Entre o salto de custo até £30 bilhões e a chance de mutilar um ecossistema delicado, o megaprojeto virou exemplo clássico de quando uma solução grandiosa parece correta no mapa e problemática demais na realidade.

Por que o Canal de Bristol parecia o lugar certo para um projeto tão extremo

muro de 17 quilômetros no Canal de Bristol prometia energia limpa, mas o custo de £30 bilhões e o risco ao ecossistema fizeram o Reino Unido recuar.

O Canal de Bristol sempre atraiu atenção por um motivo físico raro: ele concentra algumas das maiores amplitudes de maré do mundo. É ali que o rio Severn forma a famosa onda de maré que avança rio acima, criando um fenômeno tão forte que virou até ponto de surfe. Essa força diária e previsível fez o estuário parecer um reservatório natural de energia ainda não capturada.

Desde o século XIX, engenheiros e planejadores passaram a olhar o Canal de Bristol como um lugar onde a maré poderia fazer mais do que empurrar água. Em 1849, Thomas Fulljames já falava em barragem para proteção contra enchentes e criação de porto. Mais tarde, a lógica mudou de escala: se a maré era previsível e poderosa, ela poderia gerar energia limpa em nível nacional, sem depender de vento ou sol.

O potencial impressionava justamente por unir regularidade e volume. Diferentemente de outras renováveis, a maré não oscila por humor climático. Ela segue a gravidade da Lua, com previsibilidade quase mecânica. Para um país pressionado por metas climáticas e segurança energética, isso tornava o Canal de Bristol um candidato quase irresistível.

Esse fascínio cresceu ainda mais quando a comparação internacional entrou no debate. A França já operava a usina maremotriz de Rance desde 1966, e o Reino Unido passou a enxergar no Canal de Bristol a chance de construir algo muito maior. Não seria um projeto local. Seria uma peça de reposicionamento energético para a Grã-Bretanha inteira.

Como o muro de 17 quilômetros prometia transformar maré em energia limpa

muro de 17 quilômetros no Canal de Bristol prometia energia limpa, mas o custo de £30 bilhões e o risco ao ecossistema fizeram o Reino Unido recuar.

O desenho principal previa um muro de 17 quilômetros entre perto de Cardiff e Weston-super-Mare. Na prática, seria uma barreira de escala monumental equipada com 216 turbinas, eclusas para navios e capacidade de 8.640 megawatts. Isso equivale, segundo a base que você enviou, a algo próximo de três usinas nucleares, com potencial para fornecer cerca de 5% da eletricidade da Grã-Bretanha.

A promessa ficava ainda maior quando se olhava o tempo. O muro de 17 quilômetros poderia operar por mais de 120 anos, reduzir 18 milhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano e ainda funcionar como ponte rodoviária ou ferroviária. Era o tipo de obra que não vendia apenas eletricidade, mas uma visão de futuro baseada em infraestrutura monumental e energia de longa duração.

Esse pacote explicava o entusiasmo político que a proposta ganhou em 2008. Naquele momento, o Reino Unido queria ampliar rapidamente a participação de renováveis, que então representavam apenas 4,5% da eletricidade. Um projeto dessa escala ajudaria a empurrar a matriz para uma direção mais limpa e mais segura, e o Canal de Bristol parecia oferecer o recurso certo, no lugar certo, com um ativo físico que duraria mais do que várias gerações.

Ao mesmo tempo, o próprio argumento da energia limpa ajudou a blindar o projeto por algum tempo. Em um cenário de transição energética, a barragem parecia mais do que justificável. O problema é que, quanto maior a escala da obra, maior também o tamanho do estrago potencial quando a engenharia encosta em um estuário vivo.

O ecossistema transformou energia limpa em um dilema ambiental duro demais

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A resistência mais forte ao projeto não veio de negacionistas climáticos nem de defensores de combustíveis fósseis. Veio de ambientalistas. Um dos críticos comparou a construção da barreira a rabiscar a Mona Lisa. A imagem não era exagerada no contexto deles: o estuário do Severn abriga um ecossistema delicado, onde maré, sedimento, peixes e aves migratórias dependem de um equilíbrio difícil de reproduzir artificialmente.

Os dados apresentados eram pesados. O projeto poderia atingir habitat de 68 mil aves e dezenas de milhares de salmões, sáveis, lampreias e trutas marinhas. Os críticos diziam que o ecossistema perderia até 60% do habitat intertidal, justamente a faixa mais importante para alimentação, reprodução e deslocamento de espécies. A energia limpa, nesse caso, não vinha sem sacrifício ecológico brutal.

A Royal Society for the Protection of Birds rejeitava a ideia de compensar o dano criando santuários em outros lugares. A organização sustentava que seria necessário produzir pelo menos três vezes a área perdida para tentar preservar a adesão das aves ao novo arranjo, algo que já nascia com baixa confiança. E havia precedente ruim: na usina de Rance, na França, várias espécies antes abundantes praticamente desapareceram depois da construção.

Nem o argumento climático resolvia sozinho o impasse. A própria obra emitiria cerca de 10 milhões de toneladas de carbono durante a construção, segundo a base. Isso criou um paradoxo desconfortável: como defender energia limpa quando o preço imediato seria agredir um ecossistema protegido e gerar uma montanha inicial de emissões? O projeto passou a simbolizar o conflito clássico entre benefício climático amplo e destruição ambiental local.

£30 bilhões, crise financeira e a hora em que o projeto perdeu sustentação

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O custo sempre foi um problema, mas deixou de ser abstrato quando a conta subiu. O estudo de viabilidade encomendado em 2008 falava em cerca de £15 bilhões. Pouco depois, a estimativa mais pesada já encostava em £30 bilhões, valor que virou politicamente tóxico em um momento de crise global. Depois do colapso financeiro de 2008, pedir investimento público nessa escala ficou muito mais difícil de sustentar.

O financiamento privado também não deslanchou. A lógica do problema é simples: a energia das marés pode compensar no jogo longo, mas exige paciência rara. Um estudo citado na base de 2019 colocava o custo da eletricidade maremotriz entre 130 e 280 por megawatt-hora, contra 20 para eólica, 22 a 50 para solar e 120 a 190 para nuclear. O muro de 17 quilômetros tinha apelo histórico e simbólico, mas do ponto de vista financeiro parecia pesado demais e lento demais para o retorno esperado.

Quando o relatório de viabilidade foi fechado em 2010, o governo concluiu que não havia justificativa estratégica suficiente para seguir. Em vez de gastar o equivalente a £30 bilhões em uma barreira que entregaria algo próximo de três usinas nucleares em produção, preferiu mirar oito usinas nucleares. O projeto principal morreu, e até opções menores ou lagoas de maré esbarraram em dúvidas de custo, valor público e benefício ambiental.

Mesmo assim, o tema nunca desapareceu por completo. Em 2022, com guerra na Ucrânia, crise energética e necessidade crescente de independência elétrica, a discussão voltou. Em 2025, após ouvir mais de 500 especialistas, a Severn Estuary Commission concluiu que o governo deveria agir, mas recomendou uma lagoa em vez da barragem completa. Ou seja, o Reino Unido não abandonou a maré; abandonou, pelo menos por ora, o muro de 17 quilômetros como solução central.

O muro de 17 quilômetros no Canal de Bristol prometia energia limpa para milhões, vida útil de mais de um século e uma resposta de escala histórica para a transição energética britânica. Mas o peso de £30 bilhões e a ameaça sobre o ecossistema transformaram a ideia em um dilema difícil demais até para um país que precisa urgentemente de novas fontes de eletricidade.

Na sua leitura, o Reino Unido errou ao abandonar o projeto ou evitou trocar uma solução climática grandiosa por uma destruição local irreversível?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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