Dos bastões de incenso aos casulos de seda, os vilarejos do Vietnã produzem em escala industrial sem perder a alma artesanal, enquanto tentam manter jovens e clientes por perto
Os vilarejos do Vietnã entram em modo de operação total quando o ano começa: ruas, pátios e praças se transformam em áreas de secagem, montagem e embalagem, como se o próprio mapa do lugar virasse uma linha de produção. Em um deles, a paisagem muda de cor e vira um mar de rosa, porque o incenso precisa ficar pronto a tempo do Tet, o Ano Novo Lunar.
O que parece só tradição folclórica, na prática, é economia real. Há milhares de comunidades vivendo disso, com programas de incentivo, exportações e cooperativas. Só que o motor desse sistema depende de algo frágil: manter o ofício vivo em um tempo em que os mais jovens vão embora e mercados inteiros podem fechar de um dia para o outro.
O que são os vilarejos do Vietnã e por que eles viraram “fábricas a céu aberto”
Em vez de grandes polos industriais isolados, muitos vilarejos do Vietnã operam com a própria comunidade como estrutura produtiva.
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Quase todo mundo participa de alguma etapa: coleta, preparo de matéria-prima, secagem, acabamento, venda. O resultado é um modelo que mistura trabalho artesanal e escala, com identidade local forte.
Essas comunidades fazem parte de um universo amplo de “craft villages”, vilas de ofícios tradicionais espalhadas pelo país.
Em diferentes regiões, há produção de cestas de pesca tecidas à mão, criação de galinhas raras valorizadas como presentes e competição, impressão de papel tradicional e fabricação de seda em processos longos e minuciosos.
Incenso para o Tet: quando um vilarejo do Vietnã vira um mar de rosa

Em Quang Phu Cau, um dos vilarejos do Vietnã mais conhecidos por incenso, o ritmo é de alta temporada.
A produção pode chegar a 50.000 bastões por dia para abastecer o Tet, e a estética do processo chama atenção: os bastões são tingidos e colocados para secar em grandes “leques” cor de rosa.
O incenso tem duas partes: a haste e o pó aromático. A casca é colhida, pesada e vendida. Depois, moradores dividem a casca em varetas menores e deixam secar em pilhas enormes pela cidade.
Com máquinas, dá para cortar dezenas de milhares de varetas em um dia, acelerando o que antes seria lento e manual.
Na fábrica, as hastes são organizadas em feixes, mergulhadas em baldes de tinta e abertas para secar ao sol. O rosa representa a flor de lótus, símbolo nacional, e o vermelho remete à bandeira.
É um trabalho que exige temperatura boa e muito sol, porque, se o incenso estiver úmido, ele não queima direito.
O “segredo” do aroma e a etapa que define se o incenso funciona
O pó do incenso também tem sua engenharia. No vilarejo, uma seiva local de Canarium é misturada com carvão para formar a cor preta característica, e as proporções são mantidas em sigilo. Essa mistura é o que dá a fragrância quando o bastão é queimado.
Depois de secos, os bastões tingidos passam por máquinas que aplicam o pó automaticamente. Em seguida, secam de novo e vão para a etapa final: embalagem em plástico e venda para atacadistas.
O produto é usado em cerimônias religiosas em templos durante o ano todo e, no período do Tet, o volume cresce porque a demanda explodiu.
Quando o mercado some: a crise que fez os vilarejos do Vietnã se reinventarem
Por muito tempo, parte relevante do incenso saía para compradores estrangeiros. Havia vendas grandes para a Índia, inclusive em volume anual expressivo. Só que, em 2019, a Índia restringiu parcialmente a importação de incenso vietnamita, e isso atingiu o coração do negócio.
Ao mesmo tempo, outro fator apertou o sistema: jovens deixando o vilarejo para outros empregos. Resultado: tradição pressionada e renda ameaçada.
Para segurar a atividade, um produtor local decidiu adaptar o produto ao gosto vietnamita: bastões mais longos, cor rosa, fragrância adicionada.
Também colocou máquinas para acelerar o processo, saindo de uma produção manual de 500 bastões por dia para 50.000 com apoio mecânico.
Cooperativa, rastreabilidade e compradores internos: o plano para sobreviver
A virada veio com organização. O produtor lançou uma cooperativa com 12 outros fabricantes de incenso, o que permitiu contratar trabalhadores de fora e aumentar a capacidade. Em seguida, buscou novos compradores dentro do Vietnã para substituir parte do mercado perdido.
Outro passo foi formalizar e rastrear: ele registrou o produto no Escritório Nacional de Propriedade Intelectual e passou a usar códigos de barras para facilitar a venda no atacado doméstico.
Hoje, ele vende cerca de 80 toneladas por ano no mercado interno, menos de um terço do que já vendeu para a Índia, mas com produção reforçada para atender os consumidores vietnamitas, especialmente no período que antecede o Tet, quando a receita pode subir e a equipe aumenta o ritmo diário.
Não é só incenso: cestas, papel tradicional e as galinhas dragão que valem milhares
O mapa de produção dos vilarejos do Vietnã é diverso. Em Thu Sy, moradores tecem cestas de pesca à mão. Em Bac Ninh, há impressão de papel tradicional vietnamita.
E em Dong Tao, criadores trabalham com uma ave rara conhecida como “dragon chicken”, uma galinha valorizada por aparência e tradição.
Essas galinhas são criadas há décadas por famílias e ganham status de presente em ocasiões especiais, como o próprio Tet. A seleção é rigorosa: de 500 filhotes, apenas 15 podem se qualificar para venda como presente.
Há cuidados intensos antes da venda ou de competições, incluindo dieta específica e limpeza das pernas, além de critérios estéticos como simetria e cobertura uniforme das penas.
O valor pode chegar a milhares de dólares, e há até casos de ovos apreendidos em tentativas de contrabando, mostrando como a demanda também atrai ilegalidade.
O papel dó e a batalha contra o desaparecimento do ofício
Em Dương Ổ, o papel tradicional dó, o giay do, tem raízes antigas e já foi parte central da economia local. Era usado para registros históricos e arte popular. Só que a pressão da produção industrial é forte: em 2020, 75% do papel do Vietnã era feito em fábrica, e a procura pelo artesanal despencou.
Um artesão que começou jovem e trabalha há décadas mantém o processo vivo com um pequeno grupo: casca de árvore é cortada, separada, moída até virar polpa e misturada com seiva que funciona como cola.
A formação das folhas exige habilidade treinada por anos, com peneiras e telas feitas à mão. Uma trabalhadora experiente consegue formar 1.300 folhas em um dia, mas o desafio maior não é produtividade: é sucessão. O medo é o ofício terminar com a última geração.
Para reagir, um projeto sem fins lucrativos criado em 2013 compra esse papel para produzir itens como cartões postais, joias e obras, usando a renda para apoiar artesãos e incentivar jovens a aprenderem e utilizarem o material.
Em nove anos, o projeto alcançou dezenas de jovens artesãos e ajudou a resgatar o orgulho de ser papeleiro tradicional.
Seda: um processo longo, caro e passado de família em família
A seda é outro símbolo do que os vilarejos do Vietnã fazem melhor: transformar paciência em produto de alto valor. O país é o segundo maior produtor de seda bruta do mundo, e os vilarejos de seda operam em um processo detalhado com muitas etapas.
Famílias criam bichos da seda e trabalham com folhas que alimentam os vermes, que comem em ciclos curtos, exigindo rotina pesada.
Os casulos são colhidos à mão, fervidos, deixados de molho e transformados em fio por técnicas delicadas transmitidas por gerações.
Há artesãs com décadas de experiência desenrolando pequenas quantidades diárias, enquanto máquinas enrolam o fio e cooperativas tecem e tingem, às vezes repetindo o banho em corantes naturais muitas vezes até atingir o resultado.
Um programa do governo e uma pergunta maior: tradição pode ser competitiva
Parte desses vilarejos do Vietnã participa do programa One Commune One Product, que promove produtos locais, como a seda de Nam Cao.
Estudos apontam que o programa gerou milhares de empregos, e as exportações já estariam gerando cerca de US$ 1 bilhão por ano.
Ainda assim, a conta fecha no limite: tradição precisa de compradores, precisa de jovens e precisa de adaptação, sem virar só atração turística vazia. Em vários casos, a estratégia é clara: modernizar a produção sem perder a identidade.
Na sua opinião, o que pesa mais para manter os vilarejos do Vietnã vivos: tecnologia e cooperativas ou o orgulho cultural das famílias que passam o ofício adiante?
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